Depressão é causa recorrente entre desaparecidos no Ceará

No ranking de motivos para desaparecimentos, a depressão aparece em terceiro lugar, com 18,1% dos casos registrados, atrás somente de problemas familiares e uso de drogas ilícitas. Estado faz alerta no Setembro Amarelo

Legenda: Especialistas alertam para o trabalho em conjunto entre instituições e familiares para a solução de casos
Foto: Foto: Isanelle Nascimento

O que para muitos pode ser considerado "frescura", para profissionais qualificados é problema de saúde pública. A depressão é uma das motivações mais comuns entre pessoas desaparecidas no Estado do Ceará. Inaugurada em julho de 2018, a 12ª Delegacia do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) já atuou na investigação de 626 casos ocorridos em Fortaleza e Região Metropolitana de Fortaleza, com um índice de resolução de 64,2%.

Do total, o Distrito Policial conseguiu elucidar 402 situações. No ranking de fatores, a depressão aparece em terceiro lugar, com 18,1% dos casos, ficando atrás somente de problemas familiares (27%) e uso de drogas ilícitas (36,3%).

Keliane Lima, irmã de um jovem de 24 anos que desapareceu por depressão, conta que foi um susto para os familiares. Ele saiu de Fortaleza para casa de familiares no município de São Luís do Curu, distante 77,6 km da capital. Durante o trajeto, o rapaz perdeu a mochila com o celular e a medicação da doença. Ao chegar na casa de tios, ele avisou que retornaria. Na volta, acabou se perdendo no município de Itapajé.

Por cinco dias, ele ficou preso na mata comendo folhas para sobreviver. No dia 5 de setembro deste ano, ao chegar em um milharal, perto de uma área rural de Itapajé, o jovem pediu ajuda em uma casa. Os familiares foram contactados. O rapaz estava debilitado e com arranhões no corpo.

A delegada titular da 12ª Delegacia do DHPP, Arlete Silveira, explica que a condição do ente querido, muitas vezes, é desconhecida pela família que busca o DHPP. "Existem muitos casos em que a depressão é revelada após o desaparecimento. Então, o principal trabalho são as oitivas e, a partir disso, fazemos uma avaliação. Por exemplo, um caso de depressão com ideação suicida é considerado um caso de risco alto", destaca. Segundo Arlete, todas as informações são recolhidas, como local onde foi registrado o desaparecimento, idade, foto e mais detalhes que ajudem na localização. "Junto a esses dados, vai também a avaliação do risco que aquela pessoa pode estar passando. Então tudo isso é difundido, via Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops), para os demais atores, como a Polícia Militar do Ceará e a Guarda Municipal de Fortaleza", afirma.

Critérios

De acordo com o ranking da SSPDS, entre as motivações de desaparecimentos aparecem ainda problemas amorosos (7,7%), conflito entre grupos criminosos (6,5%) e ameaças (4,4%). Para a classificação de cada tipo de desaparecimento, a Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE), por meio da 12ª delegacia do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), realiza entrevistas com parentes, que objetivam identificar o perfil individual, familiar, comunitário e institucional do desaparecido. Um dos pontos prioritários é identificar a situação da saúde mental da pessoa procurada, avaliando o riscos reais. Vale ressaltar que a recepção da família do desaparecido, no DHPP, ocorre com o apoio de psicólogos da Abips. A partir das oitivas, das particularidades de cada caso, das investigações, e dos trabalhos policiais que ocorrem com o apoio de profissionais de saúde, é possível chegar às motivações de cada desaparecimento apurado.

"Estamos construindo, junto à Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública da Secretaria da Segurança, um sistema de avaliação de riscos. Porque diante do desaparecimento, nós avaliaremos o risco que aquela pessoa corre, a partir de critérios e indicadores, como a depressão e a ideação suicida, até para sabermos qual será a abordagem para aquele caso", explica Arlete Silveira, da delegacia especializada.

A coordenadora da Assessoria de Assistência Biopsicossocial (Abips) e psicóloga, Rebeca Rangel, explica que o trabalho de entender as motivações dos desaparecimentos é avaliado em conjunto com instituições de ensino. "Com a parceria firmada junto às faculdades por meio da SSPDS, nós colocamos estagiários de psicologia para fazerem o primeiro acolhimento das pessoas, que seguiam até o DHPP para registrar o desaparecimento de alguém. Em seguida, buscamos entender o caso, a partir do discurso da família durante o desaparecimento, e depois quando a pessoa é encontrada. O terceiro papel é podermos devolver essa pessoa para sua família, que por muitas vezes, não consegue perceber o adoecimento do parente. Então, nós notamos uma demanda muito clara do papel do mediador de conflitos e da necessidade de se trabalhar junto a essas pessoas", destacou a psicóloga.

Atendimento

De acordo com dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada 40 segundos, uma pessoa age contra a própria vida, no mundo. Por trás de muitos desses casos, está a depressão, que é um ponto em comum identificado pela em muitos casos de pessoas desaparecidas, na Grande Fortaleza. Por esse motivo, o trabalho da delegacia especializada vai além de encontrar a pessoa desaparecida.

Caso seja detectada a necessidade, o homem ou a mulher, após ser localizado, é encaminhado para instituições de atendimento psicossocial. Na própria sede da especializada, profissionais da Assessoria de Assistência Biopsicossocial (Abips) da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) passaram a atuar com a equipe da delegacia, no primeiro semestre deste ano.

Ao mesmo tempo, a 12ª Delegacia do DHPP também atua em parceria com a Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS), visando fortalecer os vínculos familiares das vítimas; além da Prefeitura de Fortaleza, por meio dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras).

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