Crônica: O pessoal de preto

Legenda: Coloridos ou não, otakus e geeks formam verdadeiras tribos urbanas em Fortaleza

Até alguns anos atrás, um moleque da Região Metropolitana que não estudava em Fortaleza só vinha à Capital para consulta médica, rolê mensal num shopping com o dinheiro da mesada ou para um latejante e escaldante dia de compras, geralmente no sábado de manhã, no Centro da cidade. Pelo menos, pra mim, era assim. Pouco tempo depois, eu arranjaria outra desculpa.

Nos idos de 2008, descobri que era otaku. Palavrão aos ouvidos da minha mãe, mas comum a quem é fã de quadrinhos e animações japonesas. Dezesseis mil, quatrocentos e quarenta e oito quilômetros separam Tóquio e Caucaia no mapa, ou vinte e quatro horas, no relógio, mas lá estava eu, lendo legendas de personagens de uma terra tão distante porque não era versado no idioma nipônico.

O problema é que, um dia, os episódios disponíveis das minhas "novelas" acabaram. Com a internet discada de casa, era impossível fazer download, e a seção de animes do mercado municipal de Caucaia tinha um catálogo bem defasado. A solução de um tio: em Fortaleza, deve ter.

Peguei a carteirinha e debandei para o Centro. Na minha cabeça, precisava desbloquear novos lugares da grande metrópole como num mapa de RPG. No fim de muitas perguntas, tropeções em calçadas e rotas desencontradas, descobri meu paraíso particular numa lojinha da Solon Pinheiro, onde uma prateleira inteira me aguardava com os lançamentos mais recentes. E quadrinhos. E revistas. E fantasias. E um chamado: o evento de animes dali a um mês.

Juntei minhas economias, fiz as contas da gasolina, comprei ingressos para mim e meu irmão e aluguei nosso pai de motorista. Acordamos às 4h da manhã, saímos às 5h e, às 6h, chegávamos ao Centro de Convenções. Uma fila enorme de gente de preto já se escorava nas grades esperando a abertura dos portões, às 8h. E eu de roxo ou vermelho, feito convidado estranho em festa de gente esquisita.

A céu aberto, descobri uma Fortaleza que fala japonês e canta coreano, que anda no meio da rua com orelhas de gato de pelúcia e se veste como o personagem favorito, mesmo sem o menor traço de semelhança. Afinal de contas, o que vale é a fantasia. Eu queria participar da festa, não importassem os dedos nos apontando como alienígenas. Éramos parte da terra do sol nascente na terra da luz.

Ano a ano, meu irmão e eu passamos a repetir o ritual, mas devidamente fardados. "Vocês já vão pro canto do pessoal de preto?", indagava uma tia. Sim, senhora. Com um sorriso no rosto e protetor solar na pele. Nos últimos tempos, deixei de participar. Meus interesses e amizades mudaram, mas guardo aquelas experiências com afeição. Minha cor preferida é o azul, mas boa parte do meu guarda-roupa sempre terá roupa preta.


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Redação 03 de Julho de 2020