Crônica: Fortaleza da minha infância

Antiga Coluna da Hora, na Praça do Ferreira, marcou a infância de muitos cearenses
Legenda: Antiga Coluna da Hora, na Praça do Ferreira, marcou a infância de muitos cearenses
Foto: Nirez

Uma cidade de paz. De muita paz. De Nossa Senhora da Assunção. De cadeiras nas calçadas, à noite, nas boas conversas de vizinhos solidários e amigos. Fortaleza pacata e bela. De gente receptiva e hospitaleira.

Década de 1950. Eu tinha uns seis anos de idade. Não havia aqui emissoras de televisão. O rádio dominava com suas novelas e programas de auditório. O comércio fechava ao meio-dia e reabria às 14 horas. Sinal de respeito ao horário do almoço, sagrado momento do encontro em família.

Aos domingos missa na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Depois, passeio no Parque da Criança, onde funcionava um jardim zoológico. Assustei-me diante das jaulas onde estavam onças, leões, cobras e outros animais selvagens.

Nunca esqueci o instante em que pela primeira vez estive na Praça do Ferreira, ainda na época do Abrigo Central e da Coluna da Hora, a original. Ali pude acompanhar uma exposição da Semana da Asa. Fiquei muito emocionado quando me sentaram no cockpit de um avião T-6 da FAB. Creio que naquele instante nasceu o sonho de voar, concretizado anos depois.

Em 1958 acontecimento marcante foi a inauguração do Cine São Luiz. Para ter acesso era obrigatório o uso de paletó. Tudo elegante. Chique. Um desfile de roupas de luxo. Assisti ao segundo filme lá exibido: Marcelino Pão e Vinho, com Pablito Calvo. Famosas as matinês dos domingos. O cine ficava superlotado.

O PV, pequenininho, tinha arquibancadas e cabines de madeira. Mas, na minha avaliação infantil, um estádio gigante. As torcidas adversárias entravam juntas e saiam juntas, sem uma briga sequer.

O corso carnavalesco na Rua Senador Pompeu animava com o bloco dos sujos. Fervor cívico acontecia na parada militar de Sete de Setembro na Avenida Duque de Caxias.

A encantadora Praia de Iracema, já com a Igrejinha de São Pedro, não tinha arranha-céus. Defronte ao mar, casas bonitas, mas simples. Algumas permanecem intactas até hoje, resistindo ao avanço do "progresso". Os banhos eram saudáveis, sem poluição. Tempos inesquecíveis de uma cidade sem violência, sem drogas, sem gangues. Violões em serenata podiam avançar nas madrugadas, sem risco de assaltos ou qualquer outro tipo de ameaça.

Da cidade de Fortaleza, cenário da minha infância, guardo as melhores recordações. Vida em liberdade plena, sem necessidade de grades nas portas e nas janelas, sem alarmes, sem câmeras de vigilância. Cidade mais humana e fraterna, sem tiroteios ou balas perdidas. Cidade de paz. De muita paz. De Nossa Senhora da Assunção.

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Redação 25 de Outubro de 2020