Crianças com zika congênita têm terapias suspensas na pandemia

Em algumas unidades de saúde, como o Hospital Infantil Albert Sabin, as terapias presenciais foram suspensas como forma de evitar a disseminação do coronavírus; em outros casos, pais escolheram deixar de levar os filhos

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Legenda: Sem terapias desde março, a pequena Lara Sofia voltou a ser atendida há duas semanas
Foto: Natinho Rodrigues

A fragilidade que acompanha naturalmente as crianças diagnosticadas com Síndrome Congênita do Zika Vírus se agravou particularmente após o início da pandemia do novo coronavírus. No Ceará, unidades de saúde como o Hospital Infantil Albert Sabin (Hias), que é referência no tratamento da síndrome, suspenderam atendimentos presenciais como forma de prevenir a disseminação da Covid-19.

O ambulatório da unidade foi fechado, e os pais de pacientes foram comunicados e orientados para que, caso as crianças apresentassem uma piora no quadro de saúde, ou se tivessem alguma dúvida importante, deveriam ir até o hospital sem levar o paciente. "O atendimento foi mantido, mas não de forma presencial. As mães iam pra tirar dúvidas, pegar as receitas de medicamento. A gente atendeu bastante, mas não tem como mensurar o percentual. Certamente houve um prejuízo na parada das terapias, mas era inevitável", avalia André Luiz Santos, neurologista do Hospital Infantil Abert Sabin.

Ele explica que o 'risco-benefício' não compensava a manutenção das terapias, mas espera que os atendimentos se normalizem em breve. Até então, pais e pacientes lidam com as consequências da necessidade de interromper a terapia, o que pode causar complicações ortopédicas e motoras, entre outras.

"Afeta os controles de epilepsia, por exemplo, quando se perde o acompanhamento adequado. Descontrole da epilepsia, piora do sono, complicações osteoarticulares, desnutrição em alguns casos, por dificuldade de deglutição. A saída é, na medida do possível, ir voltando a fazer as sessões", pontua Santos.

Em nota, o Hospital afirma que já atendeu 155 pacientes com síndrome congênita associada ao zika vírus. "Para evitar o contágio por Covid-19, conforme decretos municipal e estadual, o atendimento ambulatorial foi suspenso e mantido o de emergência 24 horas", acrescenta.

O agravo na mobilidade e as convulsões mais frequentes foram os primeiros fatores que a dona de casa Eliseuda Ferreira, 35 anos, notou na pequena Lara Sofia, sua filha de apenas 4 anos. A menina frequentava sessões de fisioterapia em uma clínica particular desde 2019, para tratar a microcefalia associada à zika congênita e a paralisia cerebral, mas o serviço foi suspenso em março deste ano, após a identificação dos primeiros casos do novo coronavírus no Ceará.

"A gente conseguiu na Justiça pra ela fazer as sessões de segunda a sexta-feira. Eles suspenderam tudo em março. Foi estressante para ela sair da rotina. Teve dificuldade pra dormir, comia de madrugada e ganhou peso. Ela não tem cadeira de rodas, então fica difícil pra se locomover", relata Eliseuda Ferreira.

As sessões de fisioterapia foram retomadas há duas semanas na clínica, que Lara Sofia voltou a frequentar. Antes disso, ela dependia somente de medicamentos anticonvulsivantes para amenizar as crises. "Ela fica tendo convulsões súbitas, que pode até morrer dormindo. A pior foi no fim de março. Ela ficou sem respirar", lamenta a mãe. "Agora ela deu uma melhorada, 'tá' retomando a rotina pouco a pouco".

Ausência

Em casos como o do Núcleo de Tratamento e Estimulação Precoce (Nutep), que não suspendeu atendimentos, foi observada uma redução drástica na presença de pacientes nos meses de março, abril e maio. De acordo com o neuropediatra Lucivan Miranda, diretor do Nutep, o afastamento se deu pela própria vontade dos pais de pacientes.

"É muito complicado para um pai ou uma mãe levar um paciente de ônibus para o Nutep. São crianças muito dependentes, com paralisia cerebral ou autismo, e isso dificulta muito o processo. E o medo mesmo, a ansiedade dos pais de serem contaminados com o coronavírus, fez com que eles deixassem de ir", diz.

O médico avalia que, do total de aproximadamente 1.500 pacientes atendidos no Nutep, antes da pandemia, cerca de 50 a 60 têm microcefalia. Em meados de junho e agora, em julho, as pessoas voltaram a buscar os serviços da unidade, e, agora, cerca de 200 crianças estão sendo atendidas. "Nos primeiros meses, foi uma ausência total, apesar de a instituição permanecer aberta. Com certeza isso agravou o quadro das crianças. O Nutep também permaneceu em orientação por telefone, com profissionais que ligavam para as famílias rotineiramente, e atendiam aquelas que mais procuravam", detalha.



Redação 02 de Agosto de 2020