Crianças com microcefalia esperam meses por consulta neurológica

Pacientes nasceram na época do surto da doença no País e hoje precisam passar por acompanhamento contínuo em diversos tratamentos; no entanto, algumas mães estão encontrando dificuldade em marcar as consultas

Legenda: Eliseuda aguarda desde o ano passado uma consulta para a filha Lara Sofia
Foto: FOTO: HELENE SANTOS

As consequências do diagnóstico de microcefalia e paralisia cerebral acompanham a pequena Lara Sofia desde seu nascimento, há 3 anos e 4 meses. As complicações rotineiras que também afetam sua mãe, Eliseuda Ferreira, 34, incluem obstáculos para o acompanhamento neurológico da menina. Desde o ano passado, a mãe tenta uma consulta para a filha no Núcleo de Tratamento e Estimulação Precoce (Nutep), onde é cadastrada.

Lara é uma das crianças que nasceu com diagnóstico da Síndrome Congênita do Zika Vírus, em Fortaleza, na época em que o País passava por um surto, devido à incidência do vírus zika. "Ela tinha uma consulta marcada para abril, mas teve uma virose na época, ficou mal e não pôde ir. Quando eu liguei pra remarcar, as funcionárias disseram que não tem mais vagas para este ano", relata Eliseuda.

A preocupação se intensifica devido às crises convulsivas que acometem Lara com frequência. Após passar por uma cirurgia de luxação de quadril, em janeiro deste ano, a menina chegou a ter entre 10 e 12 convulsões por dia. "Agora tá melhor, mas, às vezes, ela tem tipos diferentes de convulsões. Pode desenvolver outras coisas, já desenvolveu transtorno autista, mas tá leve. O medo é só aumentar", lamenta a mãe.

Lara faz uso de medicamentos, que devem passar pela avaliação de um neurologista. De acordo com os sintomas e a intensidade das convulsões, a dosagem aumenta ou diminui, ou o próprio remédio é trocado. "A consulta fica acontecendo a cada seis meses, mas deveria ser mês sim, mês não. Quando liga pra lá, ou o médico está de férias, ou não pode atender, ou não tem vaga", explica.

Tempo

Uma situação similar é vivida pela dona de casa Karliane Maria, 23, mãe de Maria Isabel, de três anos, também diagnosticada com microcefalia. Sua espera, porém, se prolonga por mais tempo: ela tenta, ainda sem sucesso, conseguir uma consulta com neurologista para a filha no Nutep há dois anos.

"A gente marca, e quando chega perto da data, eles desmarcam. Marcam para um dia bem distante, 4 ou 6 meses depois. Quando marquei em janeiro, deixaram para o dia 20 de maio. Quando cheguei lá, disseram que o médico não estava, que tentaram me ligar para avisar e não conseguiram. Aí ficaram de dar um retorno para remarcar. Essa história eu já ouvi no ano passado", lembra Karliane.

O Núcleo funciona no Complexo Hospitalar da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), com a proposta de assistir crianças com risco, transtornos ou desarmonia do desenvolvimento. De acordo com o neurologista e diretor do Nutep, Lucivan Miranda, a instituição funciona com mais de 100 profissionais, entre eles, três neuropediatras.

"Na nossa clientela, os pacientes que fazem parte do Nutep são todos atendidos regularmente. Agora, crianças de fora do Núcleo é que eu não sei", afirma o médico. Segundo ele, a dificuldade em atender pacientes não-cadastrados se deve à falta de vagas na instituição.

"Eu não vejo que as crianças da instituição tenham problemas, porque os profissionais existem adequadamente em todas as áreas. Agora, crianças externas, eu acho que isso é um problema sério porque elas não encontram vagas nos postos de saúde, nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), isso é um problema generalizado".

O neurologista explica que o Núcleo acolhe mais de mil pacientes em atendimento direto ou em acompanhamento para transtornos do neurodesenvolvimento, paralisia cerebral, Síndrome de Down, autismo e deficiências visuais ou auditivas.

Em relação ao encaminhamento dado aos pacientes que não conseguem marcar consulta, o diretor do Nutep indicou a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). A Pasta, por sua vez, não explicou os questionamentos sobre o encaminhamento das mães caso não consigam vaga no Nutep. A Secretaria informou que quaisquer atendimentos de saúde deveriam ser procurados em postos de saúde - embora as crianças já estejam em acompanhamento periódico desde que nasceram.

Desde 2015, um total de 163 casos de microcefalia foram confirmados no Ceará. Nenhum novo foi registrado no ano passado, nem neste ano - até o dia 11 de maio de 2019, conforme a Secretaria.

Zika

"Gestantes e bebês portadores da síndrome congênita associada ao vírus zika podem realizar seus primeiros atendimentos no Hospital Geral Dr. César Cals e no Hospital Geral de Fortaleza", destaca a Pasta. Depois da fase neonatal, a criança passa a ser atendida no Hospital Infantil Albert Sabin (Hias).

Para estimulação precoce, os pacientes atendidos no Hias são encaminhados para os serviços de referência locais. De acordo com a Sesa, as terapias acontecem em 19 policlínicas regionais da rede de saúde do Estado, no Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami), da Universidade de Fortaleza (Unifor), e no Nutep, da UFC.

Já na rede Municipal de saúde, oito instituições realizam atendimento de crianças para reabilitação neuropsicomotora, incluindo a microcefalia: Instituto da Primeira Infância (Iprede), Centro de Integração Psicossocial do Ceará, Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), Instituto Moreira de Sousa, Recanto Psicopedagógico, Associação Pestalozzi de Fortaleza, além do Nami e do Nutep.

Em nota, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) informou que está "em processo de contratualização de mais três instituições".


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