Covid-19 seguirá na agenda de saúde das novas gestões municipais de Fortaleza e Caucaia

Especialistas apontam que os prefeitos eleitos precisarão priorizar o enfrentamento à pandemia. Mesmo com os desafios estruturais em 2021, atenção à saúde primária deve ser preponderante em Fortaleza e Caucaia

Legenda: Controle da pandemia do novo coronavírus é o principal desafio dos prefeitos que assumem em 1º de janeiro
Foto: FOTO: JOSÉ LEOMAR

O ano em curso foi atravessado pela necessidade emergencial de reestruturar os serviços de saúde para atender à demanda de Covid-19. Em 2021, avaliam especialistas, não será diferente. Até que haja vacinação em massa, os novos gestores municipais deverão, obrigatoriamente, centralizar as agendas executivas no combate ao novo coronavírus. Em Fortaleza e Caucaia, onde ocorre o segundo turno das eleições neste domingo (29), os desafios serão ainda maiores, já que são as duas cidades mais populosas do Ceará - 2.669.342 e 362.400 habitantes, respectivamente, segundo o IBGE. 

Desde o início da circulação viral do SARS-CoV-2, em março, a Capital se mantém na liderança de casos entre os 184 municípios do Estado. Até ontem (27), na última atualização realizada às 9h54, plataforma IntegraSUS indica que são 67.875 infectados e 3.958 óbitos na cidade. Apesar dos altos índices, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) pondera em boletim epidemiológico que a média móvel de notificações estabilizou na primeira semana de agosto e assim permanece desde a última atualização da Pasta.

Em Caucaia, o número de mortes por Covid-19 é o segundo maior do Ceará (358), atrás apenas de Fortaleza. Pacientes com teste positivo somam 6.575, sendo o 6º município do Estado em incidência de contaminados e o 3º da Região Metropolitana. O Município chegou a adotar o isolamento social rígido no dia 1º de junho por determinação do governador Camilo Santana. Após o lockdown, os serviços começaram a ser liberados no fim daquele mês.

Continuidade

A partir do dia 1º de janeiro de 2021, os prefeitos eleitos assumirão o controle dos desdobramentos da pandemia, uma crise sanitária recente, mas que exige estratégias a curto prazo. De acordo com a presidente do Conselho das Secretarias Municipais de Saúde (Cosems), Sayonara Cidade, a preocupação inicial será com a manutenção das equipes de atenção primária e as de vigilância sanitária e epidemiológica, que, na sua avaliação, deveriam ser mantidas mesmo com a troca de gestão.</CW>

“Esse talvez seja o maior desafio dos prefeitos, manter as equipes já qualificadas para o trabalho. Nós não podemos perder esses profissionais, porque seria complicado para o gestor recomeçar do zero e ter que ficar a par de todo o fluxo das equipes, e é muito importante para a saúde coletiva. É até um apelo feito nesse momento, que a gente não tenha essa descontinuidade do trabalho”, acentua. 

Além da preservação das equipes atuantes no enfrentamento do vírus, Sayonara acredita que os prefeitos devem seguir com as estratégias de contenção, educação em saúde, oferta de equipamentos de proteção individual e habilitação de leitos, como parte do plano universal contra a Covid-19. Contudo, ela defende uma “aproximação maior” da gestão com a atenção primária.

“Lá em março, nós estávamos preparando as equipes, adquirindo insumos, habilitando leitos e qualificando a assistência. Agora, com toda essa experiência, nós precisamos é que esse trabalho no ano que vem seja voltado também para a atenção primária, que tem forte atuação no controle dos casos”, avalia

Para Melissa Medeiros, infectologista dos hospitais São José e São Camilo, o planejamento de saúde capaz de frear a disseminação do novo coronavírus precisará incluir novas ações de conscientização quanto aos riscos da doença pandêmica. Isso porque com a flexibilização dos serviços iniciada em junho, a população abriu mão da etiqueta preventiva e da reclusão domiciliar, sobretudo no período de campanha eleitoral.

“Quando a incidência estava baixa, as pessoas começaram a se comportar como se não houvesse Covid-19, saindo para as ruas, se aglomerando em festas e eventos, não usando muito a máscara e nem higienizando as mãos com álcool em gel. As medidas básicas estão sendo descumpridas e essa questão precisa de uma atenção urgente para que não tenhamos um aumento nos casos”, alerta.

O contexto epidemiológico, em 2021, pelo menos nos seis primeiros meses, poderá ser semelhante ao atual estágio de contaminação, projeta Melissa. Esse cenário terá alterações negativas caso os cuidados individuais e coletivos não sejam absorvidos novamente pela população.

“As pessoas acham que, terminando 2020, tudo vai mudar para melhor em 2021, mas, na verdade, o vírus não entende que dia 1º de janeiro muda de ano. Provavelmente, no primeiro semestre, nós ainda estaremos enfrentando o que estamos vivendo hoje. Não sei se vai ter uma alta muito grande nos casos, vai depender dos nossos governantes e da população”, frisa.

Embora a busca pela imunização esteja em etapas avançadas, a infectologista ressalta que o acesso à vacina, inicialmente, não será massivo. “No segundo semestre, talvez a gente tenha a perspectiva de começar a chegar vacinação no Ceará, mas as doses serão priorizadas para profissionais da saúde, seguido por idosos; depois, para população em geral”, diz, complementando que os cuidados deverão ser priorizados “provavelmente durante o ano todinho”.

Crise social

Ainda sobre a gestão em saúde, as vulnerabilidades econômicas causadas pela emergência sanitária, a exemplo do Produto Interno Bruto (PIB), que deve fechar em queda de 4,2%, conforme projeção da Confederação Nacional da Indústria (CNI), poderão pressionar as unidades de atendimento médico.

Segundo Lauro Chaves, Ph.D. em Desenvolvimento Regional e professor do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Estadual do Ceará (Uece), o desemprego e a falta de renda são dois efeitos negativos da recessão, que pode desencadear ainda uma “potencial crise social”.

“Você, tendo um problema social, agrava as condições de saúde da população. E isso, a médio prazo, aumenta ainda mais a demanda por atendimento básico, aumenta os indicadores de violência, representando um ônus para o sistema público de saúde como um todo”, explica. 

A instabilidade social precisará estar na pauta dos prefeitos, o que será o “grande desafio”, uma vez que os municípios sozinhos não têm condições de reverter esse problema, atesta Lauro Chaves. “Vão precisar de uma articulação muito forte do poder municipal, do poder estadual e do poder federal para poder ter uma rede de proteção social para toda essa camada de pessoas desassistidas que era resguardada apenas pelo auxílio emergencial, por exemplo”, completa.
 

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