Coronavírus: especialistas esclarecem por que diabetes e hipertensão preocupam

Diário do Nordeste consultou médicos infectologistas para tirar dúvidas sobre comorbidades que preocupam durante a pandemia do novo coronavírus

Apesar de amplamente divulgado que pessoas com diabetes ou hipertensão estão no grupo de risco para o Sars-Cov-2, o novo coronavírus, ainda há dúvidas sobre o assunto. Mesmo sendo doenças controladas, por que preocupam em meio à pandemia? Os medicamentos usados agravam a situação do paciente com Covid-19? O Diário do Nordeste conversou com infectologistas para responder algumas dessas perguntas. 

Por que considerado “grupo de risco”?

A classificação de “grupo de risco” para diabetes e hipertensão foi feita na China, a partir da identificação frequente de casos. Dados epidemiológicos mostraram que indivíduos desses grupos tinham uma maior letalidade quando infectados pela Covid-19, se comparado a pessoas que não tinham essas comorbidades.

“Quando a gente observa a proporção das pessoas que precisam se internar no hospital, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e que vão a óbito, se percebe que tem uma probabilidade maior naquelas pessoas acima de 60 anos, pessoas com alguma doença crônica, as mais importantes estão aí, doença do coração, hipertensão, diabetes, doenças do pulmão e câncer. Precisam entender como pessoas que tem uma chance maior de ter a forma mais grave da doença”, destacou o infectologista Kenny Colares, médico do Hospital São José de Doenças Infecciosas (HSJ).   

O que acontece no organismo de pessoas com hipertensão e diabetes?

Os primeiros estudos indicam que provavelmente os pacientes hipertensos e com diabetes têm alterações relevantes no organismo relacionadas a essas doenças, que podem propiciar a situação mais grave do novo coronavírus.

“O paciente hipertenso, por exemplo, normalmente já sofre de uma sobrecarga cardíaca. A gente sabe que o coronavírus têm causado alterações de função do miocárdio em boa parte dos pacientes e que talvez tenha um potencial maior de evoluir (para quadro) mais grave e de morrer”, explicou Guilherme Henn, presidente da Sociedade Cearense de Infectologia (SCI).

“Já complicação muito comum, relacionada ao diabetes, são as alterações renais. E a gente sabe que a complicação mais frequente relacionada a óbitos em pacientes com coronavírus é a insuficiência renal. O vírus está levando os pacientes a terem disfunção renal, em cima de um rim que já não era sadio”, completou. 

Mesmo pessoas com  diabetes e hipertensão controlados estão no grupo de risco?

Para o infectologista Guilherme Henn, as pessoas com as doenças controladas têm, sim, possibilidade menor de evolução da doença, mas permanecem no grupo de risco. "O paciente que é hipertenso e o paciente que é 'diabético' e tem as suas doenças controladas continuam representados no grupo de risco para maiores complicações em relação ao paciente não hipertenso e não diabético”, pontuou

Já o professor de medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Ivo Castelo Branco, corrobora com a preocupação, sobretudo diante de pacientes que têm as doenças em situação "descompensadas". “Se a diabetes estiver descompensada ou se a doença de base estiver descompensada, exacerba essa reação inflamatória e acaba danificando a pessoa de alguma forma. Em algumas pessoas, (fica) mais grave e acaba evoluindo para uma forma até letal".

A medicação da comorbidade pode ser mantida? 

De acordo com presidente da SCI, Guilherme Henn, atualmente não existe nenhuma recomendação para se modificar o tratamento com anti-hipertensivos e nem o tratamento de diabetes. “Não a nada conhecido de que esses pacientes possam fazer, do ponto de vista farmacológicos, que vá gerar alguma diferença na gravidade da infecção por coronavírus”, pontua. 

O infectologista Ivo Castelo Branco contribue. “Deve continuar [normalmente] para que tenha a sua doença de base controlada. Isso é fundamental para diminuir as complicações mais graves pelo coronavírus. No momento, não tem indicação de mudar medicação".

Quais as demais comorbidades em destaque?

"As mais destacadas são doença do coração e pressão alta. E depois vem, na sequência, diabetes, doenças crônicas do pulmão e depois câncer. São as cinco condições que têm se mostrado mais importantes, obviamente pode ser que com o passar do tempo a gente entenda que tenha outras condições com maior risco, mas essas são as mais destacadas", explicou o infectologista Kenny Colares. 

Atividades físicas ajudam a diminuir riscos?

As atividades físicas fazem parte das medidas não farmacológicas no tratamento de hipertensão e diabetes, além de sempre serem indicadas para todos. Porém, é bom ponderar entre a necessidade da atividade física e o risco de se expor ao vírus.  

"O exercício, se puder ser mantido, deve ser mantido. Agora o problema todo é se tiver aglomerações e as chances de contrair [o novo coronavírus]. Se tiver chance de contrair o vírus, o exercício físico fica em segundo plano", pontua o Dr. Ivo Castelo Branco.