Coronavírus causa mais da metade dos óbitos em UPAs da Capital

De março a dezembro de 2020, nove das 12 Unidades de Pronto Atendimento de Fortaleza registraram 154 óbitos pela Covid-19, 55% do total contabilizado. O último mês do ano foi o terceiro com mais casos, atrás de abril e maio

Escrito por João Duarte, joao.duarte@svm.com.br

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UPA
Foto: Natinho Rodrigues

Das 282 mortes ocorridas em nove Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Fortaleza, de março a dezembro de 2020, 154 tiveram como causa complicações causadas pelo novo coronavírus - quase 55% do total. Os dados, retirados da plataforma IntegraSUS, da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), reforçam a preocupação com a doença, uma vez que também impacta na atenção a outras enfermidades.

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No mesmo período, foram realizados 77.038 atendimentos, sendo 25.151 por coronavírus, ou seja, um a cada três pacientes atendidos em 2020 nas UPAs estava infectado com o vírus. A média de procedimentos pela doença foi de 82 por dia nas unidades dos bairros Autran Nunes, Canindezinho, Conjunto Ceará, Cristo Redentor, Itaperi, Jangurussu, José Walter, Messejana e Praia do Futuro.

O último mês do ano foi o terceiro com mais casos de coronavírus em UPAs de Fortaleza, ficando atrás apenas de abril e maio, período considerado o pico da pandemia no estado do Ceará. As unidades registraram, em dezembro, 3.486 casos, um aumento de 51% em relação a novembro, quando foram computados 2.309 contaminações. Setembro foi o mês com menos casos do ano: 758 atendimentos, 10 transferências para outros equipamentos da Rede Hospitalar e nenhum óbito.

Como as UPAs atendem diversos casos de urgência e emergência da cidade, em regime integral, a quantidade de casos do novo coronavírus sobrecarrega o serviço, segundo comenta Caroline Gurgel, virologista, epidemiologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC).

"Nem todos os casos necessitam de outras assistências médicas, como internação. No entanto, essa parcela que precisa lota e sufoca a rede, impedindo o acesso à saúde em outros casos, como acidentes de trânsito, ou um paciente que infarta, porque os leitos já estão ocupados por pacientes com Covid", afirma.

Preocupação

Para a especialista, é preciso lembrar que ainda vivemos um estado de alerta. "A quantidade de casos que temos ainda é grande. Acredito que daqui a duas semanas ou quando iniciar o mês de fevereiro, teremos uma explosão de casos, conforme já vem se mostrando, com lotação de leitos hospitalares, tanto de enfermarias como UTIs. Estamos caminhando para um cenário semelhante ao visto no início de 2020", salientou.

Em maio, foram 11.121 atendimentos gerais, 849 transferências e 164 mortes nas unidades. Os atendimentos pelo vírus pandêmico foram 6.269 nas nove UPAs, com 567 transferências e 105 mortes. Só em maio, ocorreram 68% das mortes de todo o ano. "Teve dias que vi cinco corpos saírem apenas nesta unidade", disse uma enfermeira, que esteve na linha de frente em uma das unidades, e preferiu não se identificar. A profissional relembra o período de tristeza, quando, após o expediente, tinha em casa crises de choro devido aos traumas diários e à incerteza quanto ao futuro. Ela deixou de ver a filha e a neta, com receio de transmitir o vírus à família. Em certos plantões, o procedimento praticamente era acabar de medicar um paciente e, logo em seguida, vê-lo ser transferido para intubação.

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Experiência

O sofrimento da enfermeira se traduz em um sentimento de gratidão por quem foi tratado pela rede. O motorista Célio de Araújo de Melo, 53, chegou à UPA Itaperi com dor no peito e nas costas. Medicado com azitromicina, os sintomas se calaram até o quinto dia, quando Célio viu se espalhar as dores e a fraqueza por todo o corpo. "Não conseguia andar dois metros sem cansaço", traz à memória.

Após testar positivo, Célio foi encaminhado imediatamente ao Hospital das Clínicas de Fortaleza, após ter tido (e recusado) a opção de intubação em uma outra unidade de saúde da região metropolitana. O resultado veio cinco dias depois, quando já estava na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). "Hoje, tendo passado pelo pior, já trabalhando, agradeço aos profissionais que me ajudaram nos dois locais. Foi mil. Nunca vi uma equipe tão atenciosa, cheia de amor com o paciente", vibra.

Consciência

Em setembro, novembro e dezembro, os números de mortes por Covid-19 nas UPAs chegaram a zero. Mas em todo o Ceará, após seis meses de queda, o número de óbitos em decorrência do vírus aumentou: 278 óbitos. Para o secretário estadual da Saúde, Dr. Cabeto, é preciso sair da fase de não compreender o que está acontecendo. "É preciso um movimento de consciência, para que a gente possa obedecer as normas sem causar revolta, negações da realidade nem tristeza e depressão. Uma sociedade madura se previne melhor e protege melhor os seus", reforçou.

O Governo do Ceará fechou um acordo com a Fundação Butantan para o fornecimento de 2 milhões de doses da vacina CoronaVac ao Estado, com as primeiras remessas chegando a partir de janeiro. O acordo possibilita também a entrega de 1,22 milhão de doses até fevereiro, com maior volume a partir de maio. O Ceará já garantiu, pelo menos, 7,7 milhões de seringas para a vacinação contra a Covid-19. Ao todo, 2 milhões de seringas já estão no estoque na rede de saúde e outras 5,7 milhões foram adquiridas por mediação.

Até mesmo após a vacina, o cenário deve ser de cautela, segundo Caroline Gurgel. "Eu não ficaria levantando bandeira agora de que estamos a um passo da vitória. Eu recomendo o máximo de cuidado possível. Os estudos que temos são muito recentes. Só vamos descobrir o que a Covid afeta mesmo quando avançarmos mais. Quem é fator de risco e quem não é. Porque quem não tem nenhum tipo de doença vai a óbito, enquanto um idoso de 102 anos escapa? Temos mais questionamentos do que respostas", finaliza.

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