Como a cara de Fortaleza se renova para integrar periferia e Centro

Capital cearense concorre com outras três localidades ao título de "Cidade Criativa" da Unesco na categoria design, que engloba urbanismo, arquitetura, arte e cultura; expansão de políticas bem-sucedidas ao subúrbio é desafio

Legenda: Projeto Cidade da Gente é uma das iniciativas que une design e mobilidade urbana em Fortaleza
Foto: FOTO: ARQUIVO / DIVULGAÇÃO

Fortaleza pode entrar, em outubro deste ano, no seleto grupo de 180 cidades do mundo consideradas "Cidades Criativas" pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O feito, além de olhares internacionais, pode atrair "recursos e apoio técnico" para desenvolvimento de políticas públicas à cidade, "principalmente na geração de oportunidade aos jovens", como ressalta o prefeito Roberto Cláudio. Mas esse pode ser apenas um passo entre os tantos necessários para garantir o acesso pleno dos fortalezenses à cidade.

A capital cearense concorre na categoria design, já vencida por outras duas brasileiras: Brasília e Curitiba. A candidatura nordestina, contudo, é mais completa e plural do que as demais, como defende a secretária executiva municipal da Cultura, Paola Braga. "É sobre como o design social pode interferir na vida das pessoas, nos espaços, no desenvolvimento sustentável. Abrange moda, fotografia e arte, mas também urbanismo e uma série de linguagens", lista. A Unesco avaliará um dossiê de ações desenvolvidas no Município nos últimos cinco anos, e ainda a real viabilidade do planejamento de novas iniciativas no mesmo tom.

Identidade

Os atributos mais fortes da cidade são a aplicação da identidade cearense e o desenvolvimento do território sob os diversos conceitos de design, desde a fabricação de peças de artesanato e moda que vão a outros estados e países, até o redesenho urbanístico e artístico de espaços públicos para torná-los propriedade de pedestres e veículos não motorizados - proposta do Cidade da Gente, aplicado nos bairros Cidade 2000 e Praia de Iracema, na Regional II.

"Esse projeto torna a rua um espaço voltado para as pessoas, e o design entra em toda a estrutura do local, na cor e na vida que ele tem. Essa ação faz com que o cidadão que anda a pé sinta que a rua é sua, gera esse sentimento de pertença - e essa ocupação influencia, inclusive, na segurança da cidade", analisa a secretária Paola Braga.

O secretário executivo da Secretária de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), Luiz Alberto Sabóia, reforça os atributos de Fortaleza à chancela internacional além dos "redesenhos estéticos" dos últimos anos. "Em mobilidade, temos dois campos: o estético, que incentiva visualmente o uso da cidade a pé; e o design de políticas públicas, que estão sendo redesenhadas para incorporar faixas exclusivas de ônibus, ciclofaixa, bicicletas e carros compartilhados, micromobilidade com patinetes. Elas tornam a cidade muito mais rica em termos de opção de deslocamentos. O fato é que todo desenho de políticas tem que ter como protagonista o transporte público", diz.

Inclusão

Em decorrência de as iniciativas se concentrarem, geralmente, em uma das Regionais mais ricas da cidade, a II, não significa ausência de inclusão ou reforço de desigualdades socioespaciais entre Centro e periferia, segundo o secretário. "Temos faixas de ônibus na Dom Luís e na Perimetral (cruza bairros como Mondubim e Passaré). O Esquina Segura nasceu no Vila Manoel Sátiro (Regional V). A Av. Leste Oeste (Regional I) foi redesenhada completamente. O que acontece é que a região praiana é patrimônio da cidade toda: a pessoa que mora perto e longe vem à praia para lazer", justifica Sabóia.

Para a coordenadora do curso de Arquitetura, Urbanismo e Design da Universidade Federal do Ceará (UFC), Márcia Cavalcante, a busca das comunidades periféricas pelo Centro e pela orla ocorre também por falta de opção. "Essas ruas pedonais como na Praia de Iracema, por serem diferentes, também se tornam opção de lazer - e quando não se tem espaço suficiente na periferia, a população busca fora, atraída pela beleza e pelos outros recursos da orla", observa a especialista.

Expansão

O titular executivo da SCSP reconhece que o real impacto social dos novos "designs" da cidade vem justamente com a expansão deles. "Testamos o modelo para depois expandir. Fortaleza não é usada como estudo de caso porque é perfeita não, mas porque, mesmo num contexto de recessão, foi capaz de propor e implantar elementos novos de mobilidade urbana. Isso gera pra cidade uma responsabilidade de avançar sempre", alerta Luiz Alberto Sabóia.

É de outro tipo de avanço, aliás, que surgem os desníveis de diferentes territórios, segundo analisa a arquiteta, urbanista e professora da UFC. "A expansão da cidade acentua as desigualdades sociais e espaciais, que ainda são bem impactantes e requerem intervenções urgentes. Não considero que isso tenha sido prioridade. O que realmente melhorou, nos últimos anos, foi a mobilidade".

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Redação 19 de Outubro de 2020