Colisão com veículos pesados é 2ª maior causa de morte de ciclistas

Pelo menos 164 pessoas morreram no Ceará enquanto conduziam bicicletas, entre 2017 e 2019, segundo dados do Integra SUS, da Secretaria Estadual da Saúde. Do total, 27 mortes envolveram ônibus e automóveis de grande porte

Escrito por Theyse Viana/Renato Bezerra, metro@svm.com.br

Metro
Legenda: A meta para a Capital é ter 400 km de malha cicloviária até o fim de 2020
Foto: FOTO: THIAGO GADELHA

A pancada foi tão forte que chegou a quebrar o capacete. As costelas saíram machucadas, o calção rasgado, a mente frustrada. Foi assim que o analista de suporte Robson Ramos, 38, entrou para as estatísticas de ciclistas feridos no trânsito de Fortaleza, após uma topique colidir com o guidão. Junto a ele, mais de 2 mil pessoas se feriram sobre duas rodas na Capital, entre 2015 e 2018, aponta o Relatório Anual de Segurança Viária de Fortaleza de 2018 - e a soma dos que não sobreviveram chega a 81.

Considerando todo o território do Ceará, 164 ciclistas morreram em acidentes envolvendo vários tipos de automóveis e objetos fixos, entre 2017 e 2019. Só no ano passado, foram 42 óbitos, de acordo com dados inseridos no Integra SUS, plataforma de transparência da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). Os "automóveis, pick-ups ou caminhonetes" são os que mais se envolvem em acidentes fatais com bicicletas, somando 44 óbitos de 2017 até o ano passado.

O segundo tipo de veículo que mais se envolve em colisões com as bikes são os de "transporte pesados ou ônibus": em 2017, sete ciclistas morreram ao colidir com esses "gigantes"; em 2018, foram 13; e só no ano passado, mais sete; somando um total 27 vidas perdidas nessas situações em todo o Ceará, em apenas três anos.

Já em 2020, no último sábado (4), Edivaldo Nascimento Santos, de 70 anos, morreu após ser atropelado por um ônibus na Av. João Pessoa, no Bairro Damas, em Fortaleza.

A via é uma das que o analista de suporte, Robson Ramos, cruza para ir ao trabalho, todos os dias, da Parangaba ao Centro da cidade. "Geralmente, motoristas de ônibus e de carro trancam a gente de uma vez, dão uma prensa no canto da rua. É muito raro a distância mínima ser respeitada", lamenta, referindo-se ao 1,5 metro que motoristas devem manter de distância em relação às bicicletas. O descumprimento, que já vitimou Robson pelo menos três vezes, configura infração média, com penalidade de multa prevista no artigo 201 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

Para o analista, amante das duas rodas há uma década, a malha cicloviária da Capital pode até melhorar, mas um aspecto ainda impede uma circulação plena e segura dos ciclistas. "De uns anos pra cá, melhorou muito com as ciclovias e ciclofaixas, mas a conscientização maior de quem tá no carro ou no ônibus é necessária. Eles acham que ciclista é um obstáculo na via, e não alguém que tem direito de estar ali", frisa.

Sem socorro

O funcionário público André Saboia, 44, usa a bicicleta por percursos menores que os de Robson, mas também já integra as estatísticas de acidentados. "O cara bateu em mim, me jogou a uns 10 metros e saiu sem prestar socorro. Eu tava andando bem pelo cantinho da calçada, já que não tinha ciclofaixa. Hoje em dia, não saio de casa sem um apito. É uma forma de alertar as pessoas, mas às vezes ainda não é suficiente", critica. Para André, o maior problema também é a falta de educação dos condutores. "Muitas vezes o ciclista tá vindo e a pessoa, ao invés de esperar passar, nos tranca. Isso acontece principalmente com ônibus - querem entrar no ponto, passam na nossa frente, são maiores. Motorista, em geral, é muito displicente. Ninguém pensa que em cima de uma bicicleta existe uma vida", reforça.

Situações como a que vitimou o aposentado Edivaldo Nascimento estão muito mais relacionadas à imprudência dos condutores do que o desconhecimento em relação às leis de trânsito, na avaliação do professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mário Azevedo. "É preciso fazer um trabalho educativo nas empresas, específico para condutores de veículos grandes, que precisam ter um cuidado redobrado. Até o deslocamento de ar de veículos em alta velocidade pode derrubar ciclistas".

A malha cicloviária de Fortaleza soma, hoje, 285 km de espaços exclusivos. A meta de expansão chega a 400 km até o fim deste ano. As estruturas estão diretamente associadas à redução no número de mortes no trânsito, segundo aponta a Prefeitura ao contabilizar uma redução de 61,3% no número de ocorrências na comparação entre os anos de 2008 e 2018, passando de 62 para 24 óbitos.

Os critérios que estabelecem quais vias recebem as iniciativas têm como base o Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI), que prevê 524 km de estrutura para ciclistas na cidade. "É observado o fluxo de veículos, de ônibus, de pedestres, porque a intenção é além de proteger os ciclistas, que já estão usando, incentivar que mais pessoas utilizem a bicicleta", comenta o engenheiro da Prefeitura de Fortaleza, Gustavo Pinheiro.

Nesse contexto, explica ele, por não possui espaço suficiente, não é possível instalar malha exclusiva na Avenida João Pessoa, que conta com duas faixas no sentido sertão-centro e uma - exclusiva para ônibus - no sentido contrário. "São três faixas sem canteiro central. Por conta disso, não temos largura suficiente", diz

A opção prevista no Plano Cicloviário para a região, conforme acrescenta, é a ciclovia de 5,7 km da Avenida José Bastos - via paralela - com implantação esperada para este ano. Gustavo Pinheiro esclarece, no entanto, que mesmo não havendo estruturas próprias, não há restrição de circulação dos usuários, desde que se mantenham no mesmo sentido da via, por questões de segurança. "E a principal recomendação é que os motoristas respeitem o ciclista, principalmente na hora de realizar a ultrapassagem", afirma.

Em nota, a Autarquia Municipal de Trânsito (AMC) afirma que além do âmbito da fiscalização, atua de forma educativa por meio do projeto "Caminhos da Bicicleta", realizado quinzenalmente nos espaços cicloviários da cidade. O objetivo é "conscientizar motoristas sobre as normas de circulação viária no que se refere, principalmente, à importância de guardar a distância lateral de um metro e cinquenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta", diz.