Ciganos comemoram primeiro Dia Estadual no Ceará

Etnia minoritária que vive no obscurantismo por temer discriminação também busca cidadania; no Ceará, ações começam a mudar essa realidade

Legenda: Os idosos são os que mais sofrem com o não acesso às políticas públicas mais elementares
Foto: Foto: Kid Júnior

Uma minoria étnica que viveu ao longo dos séculos à sombra das sociedades tradicionais tem buscado visibilidade nos últimos anos. E é o Ceará - onde o Instituto Cigano Brasil fixou sede - que toma a dianteira nessa luta que está só começando. Neste dia 24, os ciganos comemoram, pela primeira vez, o seu Dia Estadual, momento para reflexões e para se familiarizar um pouco mais com a cultura daqueles que eram conhecidos como povos nômades.

"Nos deparamos ainda com a questão muito perversa do preconceito e da discriminação. Essa postura discricionária tem origens desde o período medieval quando havia perseguições às ciganas consideradas bruxas e feiticeiras, por prever o futuro e a sorte das pessoas. Naquela época, eram atiradas na fogueira da Santa Inquisição. Hoje, vivemos um resquício cruel deste tempo", revive Rogério Ribeiro, presidente do Instituto Cigano Brasil.

Rogério, que é cigano calon e jornalista, revela que "sempre há um olhar de rejeição ou cheio de conceitos pré-concebidos, que esconde a intolerância ao diferente e diversificado. O povo cigano é um pobre que resiste há milênios e no Brasil há 500 anos". A entidade representativa dos ciganos está realizando um levantamento para saber qual é o tamanho desta população étnica no Estado do Ceará e em que condições vivem essas famílias.

"Nos organizamos há pouco tempo, com a criação do Instituto e já temos uma série de reivindicações encaminhadas aos órgãos públicos, como a proposta de Carteira Nacional de Habilitação (CNH) Social; a inclusão da nossa cultura em campanhas e eventos institucionais do Estado; um projeto de lei que institui reserva de 5% das vagas, não só para os ciganos, mas também para indígenas e quilombolas, nos concursos públicos e criação da Delegacia de Crimes Raciais, Delitos de Intolerância Religiosa ou por Orientação Sexual, entre outras".

Defensoria

A titular do Núcleo de Direitos Humanos e Ações Coletivas da Defensoria Pública do Estado do Ceará, Sandra Sá, visitou, há pouco mais de um mês, a comunidade cigana que vive em Pindoretama. "Vislumbrei uma situação de carência de acesso a direitos essenciais. Precisamos constantemente pautar as demandas dessa comunidade tradicional e encaminhar suas prioridades", reconhece.

Sandra Sá agendou um encontro com o prefeito de Pindoretama para cobrar compromissos que foram assumidos com as lideranças locais. "Vamos também solicitar um mapeamento das diversas comunidades ciganas que vivem no Ceará, já que os problemas enfrentados por elas são comuns. É preciso fazer essa identificação", afirmou.

A primeira Semana dos Povos Ciganos de Sobral teve início no dia 20 último. "O objetivo do evento foi o de fortalecer a nossa identidade cultural e combater o preconceito histórico, o racismo e a discriminação. Precisamos conectar o nosso povo à rede de proteção, defesa e garantia aos direitos no combate à intolerância, aos estereótipos diários e à marginalização que nos distancia e nos prejudica bastante", explica o calon Paulo Cavalcante, vice-presidente do Instituto Cigano Brasil.

Para Rogério Ribeiro, "temos uma taxa bastante elevada da população cigana de analfabetos. A proposta de mapear nosso povo - cerca de 20 mil espalhados em 58 municípios - objetiva orientá-los a acessar as políticas públicas. Nesse sentido, o diálogo com a Secretaria da Educação do Estado está bastante adiantado no que diz respeito a ações de valorização da etnia cigana nas escolas, bem como campanhas educativas de respeito às diversidades, aos povos e comunidades tradicionais e educação do campo".

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