Ceará ganha prêmio nacional com campanha que usa líderes negros e indígenas para combater racismo

A ação chegou a 60 municípios cearenses, sendo 13 antes da pandemia, com ações presenciais, e 47 durante a pandemia, com atividades remotas.

Legenda: O projeto chegou a mais de 2.100 pessoas como público direto, presencial, antes da pandemia, e somou mais de 5 mil pessoas atingidas depois da pandemia, por meio dos mais de 48 eventos remotos
Foto: Divulgação/ SPS

Transformar uma temática por vezes silenciada em abordagem educativa levou a Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS) a se destacar com a "Campanha Ceará sem Racismo – Respeite minha história, Respeite minha diversidade". A ação que teve inicio em novembro de 2019, ganhou o Prêmio Innovare 2020, na categoria Justiça e Cidadania, na manhã desta terça-feira (1). 

Competindo com 646 projetos de todo o País, a iniciativa resgatou a história de nomes como Zumbi de Palmares, Dragão do Mar, Preta Simoa, Mãe Menininha do Gantois, Cacique Daniel do povo Pitaguary de Maracanaú para falar sobre racismo estrutural. O prêmio destacou ineditismo, criatividade e alcance social do trabalho. 

"Eu sempre quis apostar em uma campanha assim, mas só foi possível mesmo em 2019, por ocasião do Novembro Negro, que quando sempre produzimos algo na temática. O nosso trabalho foi fruto de muito debate entre os órgãos envolvidos, e chagamos nessa abordagem por meio da cultura", comenta Zelma Madeira, coordenadora de políticas públicas para igualdade racial, da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para Igualdade Racial (Ceppir). 

"Havia muito discurso de que no Ceará não tem negro, não tem índio, mas ao mesmo tempo víamos várias figuras de linguagem ou expressões, como Palácio da Abolição, Centro Cultural Dragão do Mar, Plenário 13 de Maio, então tínhamos vários símbolos que representavam uma discursão sobre negritudes, de pertence indígena", aponta Zelma. A Campanha antes da pandemia chegou a percorrer, presencialmente 13 municípios cearenses, e durante o período pandêmico, com atividades remotas, abordou 47 cidades, totalizando um alcance de 60 municípios. 

Ações de conscientização

A campanha usou imagens de heróis do Brasil e do Ceará, símbolos de resistência e representação identitária para acionar a memória afetiva de quem recebe a mensagem, trazendo uma maior reflexão sobre violência e invisibilidade da população negra, indígena, quilombolas, ciganos e povos de terreiro. 

"O pensamento era vamos apostar em um caráter educativo, vamos conversar com os prefeitos, os secretários, os movimentos sociais que tiverem nos municípios sobre práticas do racismo que acontecem e as pessoas não reconhecem. Vamos educar para relações raciais verdadeiramente democráticas em termos raciais", conta a coordenadora que está a frente da campanha. Guiado por esse pensamento, a campanha saiu como caravana para o interior do Estado, promovendo palestra, oficinas, ações culturais, debates e entregando materiais educativos e informativos, além de prestar assessoria aos municípios para o fortalecimento e criação de conselhos de igualdade racial.   

De acordo com a representante da Ceppir, o projeto chegou a mais de 2.100 pessoas como público direto, presencial, antes da pandemia, e somou mais de 5 mil pessoas atingidas depois da pandemia, por meio dos mais de 48 eventos remotos. "Quando a gente começa a falar sobre o assunto em alguns lugares, as pessoas acham que é mimimi, que é vitimismo, mas depois de um tempo de atenção começa a perceber que até ela mesma passou por situações assim e achava que era uma brincadeira pesada", aponta. 

O trabalho está em concordância Década Internacional dos Afrodescendentes (2015-2024) proclamada pela Assembleia Geral da ONU, cujo tema é “Reconhecimento, Justiça e Desenvolvimento”.

Veja abaixo algumas imagens de ações promovidas antes do periodo de pandemia. 

Importância 

Durante o anuncio da vitória do Campanha, na manhã desta terça-feira (1), Socorro França, titular da SPS, enfatizou que foi uma vitória da igualdade, da equidade e da inclusão. “Essa conquista é resultado de um trabalho incansável, para levar a Campanha Ceará sem Racismo ao maior número de pessoas, convidando todos a se comprometerem nesta luta pela superação das diversas formas de discriminação racial. É também uma luta diária de enfrentamento a esse racismo estrutural, que perpassa nosso cotidiano, nossas práticas e precisa ser reconhecido e combatido”, enfatiza a secretária durante a cerimônia.

Para a Madeira, a importância de vitórias como esta para a causa é a força que ela promove para que o assunto seja expandido, e o debate sobre o tema chegue nos mais diversos lugares. "É uma pauta tão difícil, que encontramos tantos obstáculos, mas quando sabemos que fomos premiados no meio de tantas iniciativas, isso faz com que a gente entenda que o nosso planejamento, nossa aproximação com o tema da Década dos Afrodescendentes da ONU, faz acreditar que temos saída. Eu estou feliz pelo reconhecimento da nossa prática, pelo caminho que estamos indicando", finaliza.       

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