Casa e rua vivenciados com diferentes olhares durante a pandemia

O isolamento social submeteu cearenses a mudanças provisórias ou permanentes para experimentar a rotina. As estratégias de superação e lições variam de acordo com as condições de existência de cada impactado

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Foto: Thiago Gadelha

Da varanda de uma casa simples na Vila Ellery, em Fortaleza, Seu Joaquim observa o silêncio da rua, que lhe serviu de trabalho durante muitos anos como taxista. Trocou a agitação do trânsito pelo movimento vagaroso de uma cadeira de balanço. Depois de tantos anos servindo aos outros, percebeu-se, enfim, com mais tempo em casa, para reinventar a própria rotina. O novo coronavírus submeteu os cearenses a pequenas e grandes transformações, da atenção à higiene ao som do abrir e fechar de portas, antes ignorado pela correria do dia. A pandemia ainda não terminou, mas já deixa lições claras a quem precisou, por efeito dela, mutar-se.

Apesar da confirmação dos três primeiros casos de Covid-19 no Ceará, no dia 15 de março, uma noite de domingo, o impacto no ir e vir foi sentido cinco dias depois, com a primeira decisão mais dura para o controle da doença: o isolamento social. No mesmo mês, Seu Joaquim Vasconcelos, mais conhecido como Lôro, 73, decidiu pendurar a camisa branca com o símbolo da Cooperativa dos Motoristas Autônomos do Aeroporto Internacional Pinto Martins (Coopaero). Sim, até então, o trabalho dele era transportar passageiros recém-chegados de outros estados ou países, em local - agora - de possível circulação do Sars-CoV-2.

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Legenda: Taxista há 42 anos, Joaquim Vasconcelos, o Lôro, largou o volante para se proteger do coronavírus em casa. A pesca precisou esperar
Foto: Thiago Gadelha

"A doença começou a aumentar, morreu gente. A vista também ficou ruim. Aí fiquei logo em casa", explica o idoso, que mora com a esposa, Antônia Antoniza, 63, quatro filhos e dois netos. Até o hobby da pesca, compartilhado com a companheira, ficou para depois com o crescimento dos casos e do medo. Só retornaram aos anzóis e iscas recentemente, quando planilhas e autoridades da Saúde confirmaram redução da doença. A entrevista aconteceu na Ponte Velha, no Poço da Draga, numa manhã ensolarada, enquanto tentava conquistar o primeiro peixe. "Quando começou a diminuir (o número de óbitos) a gente voltou aos 'pouquim'. Se ficar só em casa a gente adoece também".

Tantas quarentenas

Adoece também. A pandemia deixou marcas diferentes em cada um. Pisar descalça na grama, sujar as mãos de terra e mergulhar na Praia de Iracema, atividades tão presentes na vida da professora Twany Silva, 30, com a suspensão das aulas, cederam lugar a um ambiente "totalmente estéril. Uma casa branca, que de plantas só tem um cacto, quintal de cimento, nada de areia, nada de grama". Com a permanência em casa, no bairro Messejana, surgiram crises de ansiedade, de choro, insônia e até desespero.

Segundo a Plataforma de Atendimento Inteligente (Plantão Coronavírus), da Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa), até o dia 10 de agosto, sintomas de ansiedade foram relatados por 30% das pessoas que procuraram o serviço relacionado à saúde mental. Outros pacientes, dentre os 2.248 acompanhados até a data, apresentaram choro fácil e sintomas da tristeza.

"A quarentena foi tão longa e foram tantas quarentenas dentro dela. No começo, apesar de assustada, eu estava me esforçando em criar rotinas, cronogramas, aproveitar o tempo, fazendo mil cursos online. Mas no fim do segundo, entrando no terceiro mês, começou a pesar", lembra Twany, que precisou lidar com o novo cenário.

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Legenda: Twany e Joislan passaram por diferentes processos durante o isolamento social causado pela pandemia
Foto: Arquivo pessoal

Aos poucos, conta, deixou a emoção fluir, desapegou da rotina e passou a se cobrar menos. A adaptação veio em seguida. "Consegui perceber o que me acalmava. E, definitivamente, as artes em geral, a música, a leitura, me fizeram muito bem. Eu tive tempo para me dedicar a estudar a fundo uma segunda língua, e evoluí mais estudando sozinha".

Já o marido, Joislan Lima, 36, passou por um processo diferente. Como agente da segurança pública, precisou - e ainda precisa - estar nas ruas permanentemente. À medida que lidava com os próprios receios, frente à frente com a doença, amparava emocionalmente a esposa nos momentos de crise, e financeiramente familiares que perderam o emprego por reflexo do novo coronavírus.

"Eu tive que lidar com isso, aprender a contornar a situação", afirma. Mesmo citando mais pontos negativos, uma vez que se furtou de correr e pedalar, atividades que desenvolvia antes da pandemia, reconhece que houve reinvenção em casa, para "dar mais importância aos sentimentos das outras pessoas, porque o dia a dia acaba automatizando tudo".

A rua é a casa

E quando a casa é a própria rua, justamente o local a ser evitado durante a pandemia? Antônio de Souza, 58, não teve escolha. O isolamento social foi junto a 28 gatos - na última contagem dele - que perambulam entre caixas e a casa improvisada, no costado de uma banca de revistas na Praça Coração de Jesus, no Centro. Reciclador há 12 anos, enfrenta 2020 "só com o poder de Deus mesmo", já que a demanda na atividade diminuiu.

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Legenda: Morador de rua há três anos, Antônio está longe de cuidados e da família, que mora em Itapipoca
Foto: Márcio Dornelles

Perdeu o contato com os filhos Maria, Antônio e Maria, que moram em Itapipoca. Já estava isolado. Como ele existiam 1.718 desabrigados em 2014, data do último censo feito pela Prefeitura de Fortaleza. A adaptação foi mínima, como são mínimas as condições de vida na rua. "Não mudou nada, só fracassou o que eu ganhava. E o que eu ganho é para eles", aponta para os gatos, emocionado. O rosto que ganha as lágrimas não tem máscara. Está pendurada no varal. "Nunca usei. E fico perto de todo mundo. Normal. Não me dou. Tapa minha respiração", explica.

Distâncias

Realidades e diferenças evidenciadas. Para a professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC), Danyelle Nilin, a pandemia foi sentida de forma distinta em cada ambiente, com mais, menos ou nenhuma condição de adaptação, de reinvenção. Pinturas, decoração das casas, novos equipamentos, retomada de leituras, trato com plantas, cita Nilin, estiveram entre as estratégias para repaginar o fazer diário.

Em famílias de baixa renda, porém, "a pandemia escancarou mais ainda o quanto nossa desigualdade é grande. Muita dessas coisas os pobres não puderam fazer, tiveram que se adaptar à realidade". "E pra quem mora na rua, mais suscetível ao que a rua traz ou não, a situação foi vivida, de fato, de uma maneira muito pior", comenta a socióloga Danyelle Nilin.

O novo olhar para as pessoas e as coisas, como um exercício, foi forçado pela pandemia. As lições para reinvenção de si mesmos em casa e na rua são únicas para cada sujeito afetado. Antônio de Souza segue em isolamento na rua, adaptando-se, todos os dias, para sobreviver. Os aposentados Lôro e Antoniza voltaram a pescar em um dos principais pontos históricos de Fortaleza e, sem as corridas de táxi dele, têm mais tempo para conversar. "E fazer raiva também", brinca ela.

Os jovens Joislan e Twany, acostumados a vivenciar a cidade, o Estado, enfrentaram dificuldades e buscaram o reequilíbrio. Ele continuou nas ruas e ela voltou às aulas presenciais com novas sementes. "Entrar naquele ambiente ensolarado da escola, pisar no chão, mexer na terra. Ressuscitou algo em mim. Já estou plantando uma horta em casa e, definitivamente, preciso de mais plantas". Reflorescer é uma das principais lições.

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Redação 23 de Setembro de 2020