Cancelamento de distribuição de remédio no Brasil pode suspender transplantes de medula óssea no CE

A descontinuidade na distribuição do medicamento Bussulfano foi notificada pelo Laboratório Pierre Fabre para junho de 2021

Escrito por Redação,

Metro
Legenda: Segundo o representante de transplantes do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), não há nenhum medicamento que possa substituir o Bussulfano
Foto: Arquivo SVM

Para os pacientes que necessitam de transplante de medula óssea, o medicamento Busilvex 6mg/mL, conhecido como bussulfano, é essencial para a realização de cirurgias, aponta o médico e diretor da Sociedade Brasileira de Transplantes de Medula Óssea (SBTMO), Fernando Barroso. No entanto, em novembro, o laboratório francês Pierre Fabre, único responsável por distribuir o remédio no Brasil, notificou à SBTMO sobre a suspensão da disponibilização do medicamento em junho de 2021. 

A substância prepara o organismo do paciente antes do procedimento médico. Conforme Fernando, também representante do núclo de transplantes do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), em Fortaleza, não há nenhuma medicação substituta que possa ser utilizada durante as cirurgias.

“A ausência desse remédio inviabiliza o transplante de medula óssea alogênica (quando recebe de doador). Ele atua no condicionamento do corpo do receptor. Quem toma é o paciente para tratar a leucemia”, explica. 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aponta que a descontinuação de fabricação do medicamento não tem a ver com pendências regulatórias, sendo uma “questão comercial”, relacionada ao Laboratório que distribui o produto nos estados brasileiros. O órgão acrescenta ainda que “não possui instrumento legal que impeça os laboratórios farmacêuticos de retirarem seus medicamentos do mercado”. 

Porém, devido à relevância do medicamento, a Anvisa aponta estar estudando medidas que possam facilitar o acesso e o abastecimento do produto no Brasil. “Por exemplo, a possibilidade de via acelerada e prioritária para novos registros, importação facilitada, entre outras ações”, detalha.

O presidente da SBTMO, Nelson Hamerschlak, aponta que a falta do bussulfano deve impactar grande parte dos transplantes do Brasil. "Provavelmente muitos pacientes poderão ter a sua evolução prejudicada em função da interrupção do fornecimento desse medicamento. É extremamente importante que uma saída seja dada a esta situação", afirma.

O Laboratório Pierre Fabre apontou, em nota publicada no dia 17 de dezembro, que a distribuição do medicamento ainda não foi interrompida e que o estoque atual deve atender os pacientes do Brasil até junho do próximo ano. 

“Pelos retornos colhidos nas interações com os públicos envolvidos, estamos trabalhando com todas as partes, incluindo a Anvisa, para garantir que o Busilvex continue disponível para os pacientes brasileiros e comunidade médica após junho de 2021”, reforçam. 

O Ministério da Saúde tem sido procurado pelo Diário do Nordeste desde a última sexta-feira (18), mas até a publicação desta matéria não deu resposta. 

Impactos nas unidades de saúde

No momento, ainda não há previsão definitiva para que o estoque do medicamento bussulfano acabe no HUWC, sendo relativo por depender da quantidade de pacientes. Porém, o Dr. Fernando ressalta que a medicação é essencial para realizar o transplante de medula óssea alogênica, operação em que o paciente recebe medula de outra pessoa, não necessariamente da família.

“Não tem como fazer essa previsão (sobre a partir de quando pode faltar). O que não pode é deixar de existir da noite para o dia. A nossa preocupação é que ele vai deixar de ser produzido no Brasil. Caso aconteça, nós pararemos o transplante alogênico aqui no Ceará”, aponta o médico.

Legenda: Sem o medicamento, a escritora Duda Riedel não teria conseguido realizar o transplante de medula óssea
Foto: Arquivo pessoal

A jornalista e escritora Duda Riedel, 25 anos, vê a possibilidade da interrupção de distribuição do medicamento como “revoltante e estarrecedora". Ela teve que realizar um transplante de medula óssea em novembro de 2019 e recebeu com indignação a notícia de que pacientes na fila de espera talvez não possam efetuar o transplante devido à falta do bussulfano, mesmo tendo doador. 

“Eu não estaria aqui se não tivesse feito o transplante. No meu caso, eu só conseguiria a cura fazendo o transplante. Então, o bussulfano foi essencial para mim, não teria como fazer o transplante se eu não tivesse usado a medicação”, compartilha a escritora. 

Transplantes realizados no Brasil e no Ceará

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) registra expectativa anual de pelo menos 10,8 mil novos casos de leucemia no Brasil durante o triênio 2020-2022. Desse total, cerca de 5.920 casos deve ocorrer em homens e 4.890 em mulheres. “Esses valores correspondem a um risco estimado de 5,67 casos novos a cada 100 mil homens e 4,56 para cada 100 mil mulheres”, especifica o órgão, em nota.

Conforme o Dr. Fernando Barroso, nem todos os casos de leucemia necessitam do transplante, mas a maioria depende da operação. O HUWC, único a realizar esse tipo de procedimento na rede pública do Estado, manteve os transplantes mesmo durante a pandemia. Porém, com a interrupção na produção do remédio, pacientes que necessitam do procedimento serão diretamente afetados pela falta. 
 
Em 2019, foram realizados 3.805 transplantes de medula óssea no Brasil, com 127 concentrados no Ceará, sendo 76 somente na rede pública, conforme dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). Neste ano, até novembro, foram 51 no HUWC, de acordo com o Hospital. 

 

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