BR-116 e Raul Barbosa lideram ranking de engarrafamentos na Capital em um ano

As duas vias são as mais congestionadas de Fortaleza no período de um ano, de acordo com o aplicativo de trânsito Waze, que leva em conta alertas enviados por motoristas. Órgãos dizem monitorar pontos com impacto na fluidez

Legenda: Avenida Raul Barbosa, no bairro Aerolândia, é uma das vias com maior número de alertas para engarrafamentos, segundo o aplicativo Waze
Foto: Foto: José Leomar

Perder tempo no trânsito de Fortaleza faz parte da rotina de milhares de pessoas. Sobretudo, das que trafegam na BR-116 e na Avenida Raul Barbosa, as duas vias com maior número de alertas de trânsito intenso ou moderado no período de um ano, de acordo com o aplicativo de navegação Waze. As duas concentraram mais de 30 mil avisos do tipo. Na linguagem da plataforma, trânsito moderado indica congestionamentos começando a aumentar visivelmente, enquanto o trânsito intenso se refere a velocidades reduzidas e possíveis atrasos.

De março de 2019 a março de 2020, a BR-116 recebeu 16,6 mil alertas, sendo 7,5 mil (45%) de trânsito intenso. Já a Av. Raul Barbosa teve 14,1 mil informes - 6,4 mil na mesma categoria, também correspondendo a 45% do total. O ranking das cinco vias mais congestionadas tem ainda a Av. Washington Soares (13,4 mil), a Av. 13 de Maio (10,5 mil) e a Av. Antônio Sales (10 mil). O Waze não contabilizou alertas de acidentes, clima e buraco nas vias.

Os dados de congestionamento levam em consideração informações enviadas pelos próprios usuários da ferramenta. No mesmo intervalo, os motoristas de Fortaleza notificaram, no total, mais de 561 mil alertas de trânsito. Destes, quase metade foi por trânsito intenso. O dia 11 de dezembro foi o que mais recebeu picos de alertas: quase 5 mil. Na ocasião, a cidade foi afetada por chuva e uma série de alagamentos.

Da relação de vias com mais alertas, três também aparecem na lista de vias críticas de acidentes de 2019, da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC). Nela, a BR-116 também lidera, com 434 acidentes - 14 deles com mortes. A Presidente Castelo Branco, conhecida como Leste-Oeste, teve 232 acidentes no mesmo período; já a Silas Munguba, 182.

Na observação diária do motorista profissional Antônio José Gomes, de 45 anos, mais congestionamento pode mesmo significar mais acidentes. “Aqui na BR, tem muitos acidentes por colisões traseiras, engavetamento”, lista. O último de que teve notícia seguiu esse modelo, ainda na sexta-feira (6). Contudo, para ele, outro ponto que merece cuidado são os atropelamentos de pedestres.

“As placas de controle de velocidade são colocadas no passeio onde os pedestres deveriam passar. Elas são enormes, de forma que eles não têm acesso e precisam se deslocar para a pista para fazer o contorno. Tem várias delas no trecho do Km 1 ao 3, mas as pessoas não vão andar 1 km até a passarela”, conta. Segundo ele, os mais afetados são idosos e pessoas vindas do interior, que desconhecem a dinâmica da via.

Sobre a BR-116, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) informou que “tem identificado alguns pontos que, em razão das obras, têm impacto na fluidez, gerando lentidão no trânsito e engarrafamento”. O órgão diz que um relatório está sendo elaborado pelo Setor de Segurança Viária com propostas de modificações na engenharia nos quilômetros iniciais da via. O documento será discutido com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), de quem é a responsabilidade da engenharia nas vias federais.

Comportamento

O Waze analisa, em tempo real, as informações compartilhadas pelos usuários e sugere rotas mais rápidas. Com o tempo, o aplicativo “percebe as vias que as pessoas evitam e também as estradas que são mais lentas e as evitam no mapa”. A empresa acredita que o compartilhamento de caronas é uma alternativa para tirar carros das vias e combater o congestionamento, “tornando trajetos melhor para todos”.

Para o advogado Antunes Filho, membro da Comissão de Trânsito, Tráfego e Mobilidade Urbana da Ordem dos Advogados do Brasil do Ceará (OAB-CE), a insistência no uso do carro próprio, mesmo com a cidade dispondo de uma rede abastecida de transportes alternativos, como ônibus e bicicletas, ajuda a complicar o trânsito. Acidentes e falta de manutenção nos veículos são outros fatores que desenvolvem congestionamentos.

Antunes observa que, com o trânsito mais lento, qualquer distração, principalmente com celulares, pode levar a acidentes - e, no entendimento jurídico, quem está atrás tem a culpa. Por isso, ele recomenda apenas o uso de aplicativos de navegação acoplados ao painel. “Claro, se possível, morar mais perto do trabalho diminui o deslocamento com carros. Usar a carona amiga com pessoas que moram perto de você é outro ponto para tirar esses veículos das ruas”, sugere o advogado.

Inteligentes

A Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) informou que monitora as vias 24 horas e “está sempre acompanhando, atuando de forma imediata para que interferências sejam solucionadas”. Casos de colisões, panes mecânicas, obras e outras obstruções que prejudicam a fluidez “são informadas através do aplicativo AMC Móvel e ainda nas redes sociais do órgão”.

A AMC reforça que as vias municipais mencionadas pelo Waze possuem “semáforos inteligentes”, capazes de otimizar o fluxo de veículos “em tempo real”. Os tempos de “verde” dos aparelhos mudam de acordo com a quantidade de veículos em tráfego, a fim de minimizar os efeitos de congestionamentos nos horários de pico. Dos cerca de mil semáforos da Capital, 57% são inteligentes, afirma a Autarquia Municipal.

O Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE), responsável pela Avenida Washington Soares, diante do fluxo diário de 120 mil veículos, em média, informou que, em razão de engarrafamentos, modifica os tempos dos semáforos próximos ao local do incidente. “Também foram adotadas medidas de infraestrutura para melhorar o fluxo e garantir segurança aos pedestres e motoristas, como implantação de passarelas para travessia segura e que evitaram a implantação de semáforos”, afirma, em nota. O órgão destacou, ainda, a construção de vias alternativas, como a CE-010, que será uma rota opcional para os motoristas.