Auxílios do INSS por doenças mentais crescem 34% em Fortaleza

Quase 11 mil auxílios-doença, auxílios-acidente e aposentadorias por invalidez foram concedidos pelo INSS na capital cearense em quatro anos; depressão e dependência química lideram lista de transtornos à saúde mental

Legenda: Auxílios doença, acidente ou aposentadoria foram solicitados por pessoas com doenças mentais

Os imperativos, hoje, são produzir, correr contra o tempo, atingir metas e, em seguida, dobrá-las. Fazer muito, estar "on-line" e "alto astral" sempre. O reflexo é adoecedor e se exibe em números: entre 2016 e o ano passado, 10.990 pessoas pediram auxílios-doença, acidente ou aposentadoria por invalidez em decorrência de doenças mentais, em Fortaleza. No Ceará, foram mais de 23 mil. Os dados são do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), em pleno Janeiro Branco, dão um alerta claro: é tempo de parar.

Em 2019, transtornos como depressão, ansiedade e síndrome do pânico atingiram picos e motivaram 3.047 concessões de benefícios do INSS em Fortaleza, 34% a mais que em 2016, ano que contabilizou 2.274 medidas deste tipo. Os pedidos de auxílio-doença lideram a lista (2.823 concedidos no ano passado), seguidos pelas aposentadorias por invalidez (134) e auxílios por acidente de trabalho (90). Em todo o Estado, a soma deles passou de 4.856, em 2016, para 6.386, em 2019.

A gravidade do uso de álcool e drogas e a escalada dos episódios depressivos entre as doenças também se evidenciam. Há quatro anos, os transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de múltiplas substâncias psicoativas ocupavam isoladamente o primeiro lugar entre causas mentais de afastamento do trabalho, na Capital, com quase o dobro de casos de depressão e ansiedade. Em 2017 e 2018, a diferença diminuiu: até que em 2019, pela primeira vez no período, a depressão passou a encabeçar a lista de doenças mentais mais incapacitantes.

Além disso, em 2018, os episódios depressivos entraram na lista das dez doenças em geral que mais demandam concessão de auxílios-doença, auxílios-acidente e aposentadoria por invalidez em Fortaleza, e no ano passado se tornaram a quinta mais frequente - afastando mais pessoas do trabalho do que enfermidades como dor nas costas, hérnias abdominais e até fraturas de perna e punho.

Alertas

A administradora Juliana (nome fictício, para preservar identidade), 32, entrou para as estatísticas do INSS após solicitar afastamento do trabalho, em 2018, para tratar a ansiedade generalizada, diagnosticada depois que ela foi promovida na empresa em que atuou por cinco anos. "Eu saía do trabalho, mas era como se eu continuasse lá. Chegava em casa e ficava tão tensa com o tanto de coisa que tinha pra fazer no outro dia, respondendo e mandando mensagem direto, que batia logo a ansiedade, o coração acelerado, aquela dor de cabeça, e eu suando. Até que chegou um dia que eu tive uma crise de pânico durante o expediente, precisei bater no hospital", relembra.

Depois dos sinais de alerta, Juliana "caiu na real" e iniciou tratamento psiquiátrico e psicológico, de modo que a terapia uma vez durante a semana "virou religião". "As pessoas dizem que a gente tem que agradecer por ter um emprego, uma família, e tá certo. Mas não tem dinheiro que compre o tempo que fiquei longe da família e dos meus amigos simplesmente porque estava esgotada e doente demais", alerta a administradora, celebrando a "grande melhora" que os cuidados à saúde mental têm trazido.

Para Noália Aráujo, professora do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza e pesquisadora do Laboratório de Estudos do Trabalho (LET), o trabalho tem assumido "novas configurações" na vida das pessoas e, unido a fatores sociais, políticos e familiares, potencializado as doenças. "As queixas vêm da sobrecarga, do estresse, do contexto de crise do País, das condições de trabalho precárias, do medo de perder o emprego se não atingir metas. Essa instabilidade tem ocasionado o processo de adoecimento, gerado um tensionamento constante, uma sensação de pressão o tempo todo", avalia.

Riscos

Reconhecida como doença em 2019 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a Síndrome de Burnout também é destacada por Noália como "tipicamente laboral" e crescente entre cearenses. "Decorre das pressões excessivas do mercado. É esgotamento, exaustão emocional, e tem fases. O trabalhador vai desde a dedicação intensiva às atividades até o processo depressivo, de apatia, e o colapso - que pode levar ao suicídio. Foi um processo longo até se reconhecer que as relações do trabalho podem levar a isso", afirma a psicóloga.

Algumas ocupações, aponta a especialista, são mais expostas a fatores de risco, como trabalhadores de transportes e agentes de segurança pública - mas todas estão vulneráveis. "Muitas pessoas dizem: 'Ah, mas depressão é uma doença comum da vida, não do trabalho'. OK. Mas existem alguns contextos do mercado de trabalho que podem intensificar ou até mesmo serem responsáveis por desencadear o processo de adoecimento. É um ponto-chave", frisa Noália.

De acordo com o psiquiatra e diretor clínico do Hospital de Saúde Mental de Messejana (HSM), Raimundo Melo, "tem sido crescente o número de pacientes que chegam ao hospital solicitando laudos, atestados e cópias de prontuários para dar entrada em algum tipo de benefício ou auxílio-doença". Os principais transtornos identificados entre os pacientes da unidade são dependência química (álcool e drogas), psicoses e distúrbios de humor, como depressão e bipolaridade.

Amparo

Em nota, a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) informou que "o Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) acompanha as notificações de afastamento do trabalho em decorrência de adoecimento psíquico e atua na formação de profissionais do SUS para reconhecimento de transtornos mentais relacionados ao trabalho", no intuito de fomentar o registro de dados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). A Pasta, contudo, não dispõe de contabilização de casos.

Já em Fortaleza, a rede municipal dispõe de 15 Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Desse número, seis são do perfil geral, que atendem transtorno mental moderado e grave, como esquizofrenia, depressão e ansiedade; outros sete unidades AD - Álcool e Drogas para acolhimento de dependentes químicos, além de dois Caps Infantil, que recebem pacientes de 4 a 17 anos e 11 meses.

"Os usuários que tenham problemas com alguma doença, um estado emocional relacionado ao trabalho, ao ambiente ocupacional, podem buscar ajuda na atenção primária, onde ele é visto pelo profissional e encaminhado. Ele também pode buscar o Caps por demanda espontânea, o serviço funciona com porta aberta", assegura a gerente da Célula de Saúde Mental da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Harismana Andrade.

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Redação 04 de Dezembro de 2020