Aquelas primeiras vezes

Legenda: O movimento das ondas tocando a areia me fez refletir sobre meu contato com a cidade
Foto: Roberta Souza

Logo no começo, foram uns três meses sem pôr os pés na rua. Fiz meu "lockdown" antes mesmo dele ser decretado e até mais rígido que a orientação governamental. Para quem passava pelo menos 14h fora de casa por dia, essa parecia uma ideia muito distante, mas se era a única possibilidade ao meu alcance para salvar vidas na pandemia, não seria capaz de negligenciar.

Quando chegou a hora de sair do casulo que criei para mim nesse período, acabei ativando todas as sensações de uma "primeira vez".

Depois de tanto tempo usando só pijama, abrir o guarda-roupa e redescobrir peças que faziam parte da rotina anterior foi um desafio. Mas não maior do que entrar num veículo e cruzar a cidade para assinar uma documentação. As duas horas que passei longe de casa foram suficientes para perceber que eu precisaria redesenhar minha relação com Fortaleza, porque, definitivamente, não éramos mais as mesmas.

Desse dia, lembro da Praça da Gentilândia ainda vazia, silenciosa, e de umas plantinhas tão vivas, expostas ao vento, que não resisti a fotografá-las. Escolhi guardar a lembrança daquele contato com o natural nos dois meses seguintes de "clausura".

Agosto chegou e os números traziam alguma esperança. Decidi dar mais um passo em direção à redescoberta: hora de ver o mar para além dos vídeos diários que assistia pelo telefone. Se não me falha a memória, era um domingo, 6h30 da manhã.

Saímos eu e uma amiga, cujo isolamento era tão rígido quanto o meu, com o objetivo de olhar para algo que nossa vista não alcançasse o fim. A imensidão azul no Porto das Dunas até cumpriu esse papel. Mas bom mesmo foi ver um casal a alguns metros de nós, dançando à beira-mar. Por alguns instantes, fiquei me perguntando se aquela era a primeira vez que eles saiam do isolamento, e então comemorei por estar na mesma hora e lugar daquela real expressão de infinitude do amor.

Naquela ocasião, mergulhar também me fez perceber que nem tudo estava perdido. O movimento das ondas tocando a areia devagarinho era muito parecido com o meu ao "tocar" novamente a cidade. E nessa sequência de recuos e avanços, conquistávamos a cada segundo um pouco mais.

Aí vieram os primeiros almoços e cafés com amigos em diferentes bairros, aquela ida à cabeleireira do Centro por meses adiada, um banho entre o rio Cocó e o mar da Sabiaguaba, e até uma caminhada ao redor da Lagoa da Messejana - exercício que eu não fazia nem quando estava "tudo bem". A verdade é que, após tantas privações, já não tinha sentido ignorar nenhuma experiência a minha disposição.

Daqui a alguns anos, quando a pandemia for apenas uma má lembrança, essas pequenas conquistas estarão em meio ao que teremos de melhor a recordar.

Registrar as horas em que o sol brilha pela primeira vez entre uma tempestade e outra não deixa de ser, afinal, um jeito simples de criar boas memórias para a eternidade. Se escrevo, é para não deixá-las escapar...

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