Apenas 30% da busca pela rede de saúde da Capital são de homens

De aproximadamente 700 mil atendimentos realizados pela rede de atenção primária de Fortaleza, por ano, cerca de 70% são de mulheres. O machismo está entre os fatores de recusa do homem em consultar um médico

Legenda: O psicólogo Airton Correia conseguiu tratar o câncer em estágio inicial descoberto em visitas periódicas
Foto: Foto: José Leomar

Por muitos anos, a saúde foi deixada em segundo plano na vida do comerciante Francisco das Chagas Santos Ribeiro, 67 anos. Longe dos consultórios e procedimentos preventivos, problemas como pressão arterial alta, níveis de colesterol irregulares e diabetes, por exemplo, permaneceram desconhecidos, culminando em uma situação limite: um ataque cardíaco.

Esse comportamento não é exceção entre os homens. Dos aproximados 700 mil atendimentos realizados pela rede de atenção primária de Fortaleza por ano, cerca de 70% são de mulheres e apenas 30% de homens, segundo estimativa da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Os dados acompanham um cenário nacional. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2015 revelou que, em um ano, enquanto 78% das mulheres consultaram o médico, entre os homens o número caiu para 63,9%.

No mês de novembro, o Sistema Verdes Mares abordará a Saúde do Homem em uma série de matérias e ações, envolvendo a população numa reflexão sobre o tema, que tem ajudado a salvar vidas. Mas afinal, por que os homens vão menos ao médico que as mulheres?

Para o coordenador do ambulatório de urologia da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza, Geraldo Munguba, trata-se de um problema educacional. "A mulher é educada para a prevenção. Existe a cultura do autoexame da mama, da prevenção ginecológica, enquanto o homem não tem na nossa cultura essa formação de promoção da saúde. Aliado a isso, existe toda a parte cultural, de preconceito com a prevenção do câncer de próstata, então os homens acabam tendo um pouco de reticências de ir ao urologista, com medo ou com vergonha", aponta.

Nesse contexto, diz, os homens acabam procurando ajuda médica muito mais quando já estão com algum problema aparente, e não para prevenir ou buscar orientação, o que pode acarretar em riscos para a sua saúde.

Segundo explica o médico, os homens devem fazer consultas preventivas com o urologista desde jovens, como por exemplo, para a prevenção de cálculo renal, doenças no rim, colesterol alto, entre outras patologias. "A partir dos 40 anos de idade, ele deve começar a avaliar a parte hormonal. Pela Sociedade Brasileira de Urologia, se o paciente tiver histórico na família, a partir dos 45 anos tem que começar a fazer a prevenção do câncer de próstata com o exame físico e os exames de sangue anuais. Não havendo histórico, a partir dos 50 anos", explica.

Machismo

De acordo com o coordenador das redes de atenção primária e psicossocial de Fortaleza, Rui de Gouveia Soares Neto, a resistência dos homens pelos consultórios também está ligada ao machismo. "Na procura por ajuda de um profissional de saúde, você expõe sua fragilidade como ser humano. Você está se sentindo doente, comprometido e precisando de ajuda. E como nós temos uma cultura extremamente machista, o homem não quer expor sua fragilidade, não quer admitir que está doente, e aí, muitas vezes, vem uma agudização do problema que ficou se arrastando porque ele não se cuidou", avalia o especialista.

As consultas mais procuradas por eles em Fortaleza, conforme acrescenta, se referem, ainda, às condições agudas, como gripes, tosses, doenças diarreicas, e demais situações em que já há um diagnóstico de condição crônica, como hipertensão arterial e diabetes, para acompanhamento.

As mulheres, por sua vez, são maioria quando se trata de transtornos de humor, ansiedade e depressão. "Praticamente, 75% a 80% da procura de transtornos de ansiedade generalizada é do sexo feminino. Os homens, muitas vezes, estão ansiosos e comprometem a vida cotidiana por conta do transtorno de ansiedade, mas não procuram o serviço de saúde", afirma.

Conscientização

Passado o susto com o infarto do miocárdio, o comerciante Francisco Ribeiro declara estar bem e, o melhor, consciente da necessidade de se consultar regularmente com o médico. Hoje, as consultas com profissionais acontecem mensalmente, segundo afirma.

"Não tive mais nenhum sintoma de lá até agora e hoje eu aprendi. No interior do Maranhão, onde eu morava, não havia esse hábito de os homens irem ao médico. Era algo que não me interessava. Eu acreditava ter uma saúde de ferro, mas depois que a gente tem um problema desse, vem o medo. Na idade em que estou, é fundamental viver bem, se alimentar bem para poder durar mais dias", comenta.

Já o fato de sempre ter se consultado periodicamente com o médico, foi a razão para que o psicólogo clínico Airton Andrade Correia, 73, descobrisse um câncer de próstata em estágio inicial, há 10 anos, tendo a oportunidade de tratá-lo com segurança.

O tumor, em uma versão rara e muito mais agressiva, segundo explica, fez com que seus níveis de PSA (Antígeno Prostático Específico) se mantivessem altos mesmo após o procedimento cirúrgico realizado. Por isso, o psicólogo é acompanhado de três em três meses e passa por tratamento até hoje no Hospital Haroldo Juaçaba, que é vinculado ao Grupo Instituto do Câncer do Ceará (ICC). "Durante esses dez anos, estou conseguindo manter os níveis ideais. Continuo tomando a medicação, sem prazos definidos para a conclusão do tratamento. Meu tumor foi tão violento que em um ano ele se desenvolveu o que em circunstâncias normais precisaria de cinco", detalha Airton.

Airton ressalta que o hábito de ir ao médico vem desde jovem, da época de seminarista, e aos 40 anos, já se consultava com o urologista. "Na maioria dos casos de câncer de próstata, os pacientes não têm êxito, porque não se cuidam e quando vão descobrir já estão sentindo dor. Eu, como psicólogo, trato idosos e sempre digo que nós podemos viver essa terceira fase da vida, tão estigmatizada, de uma maneira extremamente saudável, como a melhor fase da vida do ser humano, desde que, para isso, você tenha vivido as demais fases de maneira saudável".

Câncer de próstata

Fatores de risco

Segundo o Ministério da Saúde, as chances de um homem desenvolver a doença aumentam com o avançar da idade, com a condição de sobrepeso e obesidade, e histórico de câncer na família, em pais e avós, por exemplo.

Prevenção

Consultas periódicas são fundamentais para o diagnóstico precoce. Além disso, fatores como alimentação saudável, prática de atividade esportiva, evitar o fumo e bebidas alcoólicas reduzem as chances.

Sintomas

O câncer de próstata pode não apresentar sintomas na fase inicial. As características mais comuns são dificuldade de urinar, sangue na urina e necessidade de urinar mais vezes durante o dia ou a noite.