Ancestralidade negra é destaque em grafites na Capital

Personalidades negras do Ceará e povos africanos estão entre os temas dos murais trabalhados pelo projeto Negras Raízes, idealizado e promovido por seis grafiteiros do coletivo VTS Crew

Legenda: o Mural Dragão do Mar, pintado em janeiro passado, em homenagem a um dos principais símbolos da luta abolicionista no Estado.
Foto: FOTO: CAMILA LIMA

Identidade manifestada através da arte. Resgate de referências em muros e no concreto da metrópole. À medida que o Grafite se expande como expressão artística e cultural pelo mundo, trabalhos realizados em Fortaleza alcançam, cada vez mais, sentidos, mensagens, tributos e até protestos. No Parque Dois Irmãos, por exemplo, a pintura no muro de uma fábrica, na Avenida Dois, destaca a origem e a ancestralidade negra do Ceará.

Entre o céu tempestuoso e as águas revoltas do oceano, surgem jangadas que levam e trazem o povo negro e escravizado em busca da liberdade, ainda distante. Essa é a referência do Mural Dragão do Mar, pintado em janeiro passado, em homenagem a um dos principais símbolos da luta abolicionista no Estado.

O trabalho, desenvolvido pelo coletivo VTS Crew, integra uma série de produções realizadas desde 2018, como parte do projeto Negras Raízes. Segundo um de seus idealizadores, o artista urbano Emerson Tubarão, a iniciativa partiu da necessidade vista pelo grupo de grafiteiros de trabalhar as raízes negras.

"Somos um grupo composto por negros e negras vindos da cultura hip-hop, sempre com a pauta étnico racial forte, e começamos a nos perguntar por que a gente não estava colocando isso nos muros. A partir dessa percepção, começamos a desenvolver esse trabalho e a ideia é trabalhar essas raízes em diferentes formas. Com o Mural Dragão do Mar, quisemos trabalhar um herói da nossa história, que infelizmente não tem tanta visibilidade, poucas pessoas conhecem a história dele", diz.

Sob essa perspectiva, destaca Tubarão, os trabalhos realizados pelo grupo têm como alcance um resgate das referências históricas, muitas vezes inacessíveis por sua própria população. "A comunidade negra, de uma forma geral, não consegue se enxergar em vários espaços porque não vê suas referências, porque não teve, durante o processo histórico, na escola e em vários espaços, a divulgação dessas histórias. Então, é uma forma de valorizar, para que a população possa se ver e melhorar sua autoestima", analisa.

"A comunidade negra, de uma forma geral, não consegue se enxergar em vários espaços porque não vê suas referências" Emerson Tubarão Artista urbano

Também no Parque Dois Irmãos, estão os primeiros murais realizados por meio do projeto Negras Raízes, tendo como referência os povos africanos. O primeiro, de autoria dos grafiteiros Milson Vieira (Mils), Edi Bruzaca, junto com Tubarão, foi pintado em abril do ano passado, tendo como inspiração a tribo Turkana, do Quênia. Em junho do mesmo ano, a segunda pintura teve como referência a tribo Mursi, da Etiópia. Atualmente, o VTS Crew também conta com trabalhos nos bairros Bom Jardim e Pici, em Fortaleza.

Alcance

Apesar de ainda reunir, em sua grande maioria, trabalhos realizados nas periferias da Capital, o movimento da arte urbana, em especial do Grafite, tem ganhado força e se consolidado em mais territórios. Para Emerson Tubarão, uma expansão que impacta positivamente a cidade, especialmente às comunidades desprovidas de acesso a equipamentos culturais, como museus.

O artista analisa, no entanto, ainda faltar apoio, seja por parte do poder público como de empresas privadas, no fortalecimento ainda maior do cenário. "É uma manifestação cultural que tem se expandido nos últimos 10 anos e, hoje, acho que temos muito mais espaço e abertura para estar em locais diversos da cidade. Quanto mais Grafite, mais cor, mais vida para a cidade. Além da cultura em si, o Grafite traz um sentimento, uma valorização, uma autoestima para a população que passa, diferente do cinza do concreto que a gente sempre teve", fala.



Sérgio Ripardo 23 de Maio de 2020