Ampliação de ciclofaixas e áreas de trânsito calmo são foco para 2020

Com meta de reduzir mortes no trânsito e otimizar fluxos, Fortaleza ainda precisa avançar na integração dos diversos modais que compõem o trânsito

Legenda: A Capital deve receber, no ano que vem, mais 130 estações do sistema Bicicletar. Atualmente, são 80
Foto: Foto: José Leomar

A Avenida Domingos Olímpio é um minilaboratório de ações de mobilidade urbana, em Fortaleza. Por lá, todo o visual colabora para entender: há espaço definido para o carro, para o ônibus (faixas exclusivas), para a bicicleta (ciclofaixas) e para a moto (nas áreas de espera dos semáforos). Medidas que, em maior ou menor escala, são replicadas em dezenas de outras ruas e avenidas da Capital. A cidade coleciona avanços - dentre eles, a redução de mortes no trânsito -, mas ainda tem para onde progredir, em 2020, quando o tema é deslocamento.

O operador de telemarketing Adrinaldo da Silva Barbosa, 34, por exemplo, sabe bem como funciona o transporte coletivo. Afinal, ele pega, pelo menos, quatro ônibus todos os dias, entre os bairros Vila Velha e Dionísio Torres. São até 30 minutos de espera (45, aos fins de semana), mais uma hora e 40 minutos de condução. Em resumo, são cerca de duas horas diárias em trânsito, tempo em que coleciona impressões sobre o serviço prestado na cidade, incluindo conforto e segurança.

"Em questão de estrutura, alguns ônibus, bem poucos, são confortáveis. Creio que, para melhoria, teria que ter uma amplitude maior de espaço para que o passageiro possa se acomodar melhor e evitar lotação, pelo menos um policial em cada veículo, assentos confortáveis e mais ônibus climatizados", enumera ele, que defende ainda melhor capacitação de motoristas no atendimento aos passageiros.

Pelo menos quanto ao trajeto, o secretário-executivo da Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), Luiz Alberto Saboia, destaca que as mudanças são um caminho sem volta. "Faixa exclusiva de ônibus, Bilhete Único, agora o transporte sob demanda? São políticas que, na verdade, acabam pertencendo à sociedade como um todo. A grande garantia que nós temos que elas vão prosseguir é a aceitação da sociedade", analisa, sobre as perspectivas para o futuro.

Conscientização

O estudante Rafael Morais, 17, aprova o ainda recente incentivo ao uso de bicicletas na Capital. Em seu trajeto da Parangaba ao Bairro de Fátima, pedala cerca de 12 km - ou 40 minutos -, contando ida e volta. Parte do percurso conta com ciclovias, que respondem por 108 km dos 281,4 km da atual infraestrutura cicloviária de Fortaleza, conforme a SCSP. A maior parte dela, porém, é formada por ciclofaixas: são 166,4 km.

Para Rafael, o horário mais complicado costuma ser das 17h às 19h, quando o aumento do fluxo traz "muitos motoristas sem o mínimo respeito". O ideal, pensa, seria a maior sensibilização de motoristas e pilotos de motocicletas e carros, mas ainda dos próprios ciclistas. "Alguns acham que, por estarem de bike, podem andar livres em vias contrárias e, muitas das vezes, colocando sua vida em risco", considera, incentivando a ampliação de ciclofaixas em avenidas como João Pessoa e Borges de Melo.

Além de fazerem muitos fortalezenses tirarem as magrelas da garagem, o sistema público facilitou as viagens de bike. Segundo a SCSP, os cinco anos do Bicicletar, neste mês de dezembro, contabilizam mais de 2,8 milhões de viagens e 245.966 cadastros. Embora conte com 80 estações, há previsão de instalação de mais 130 até o fim de 2020 - ampliando, assim, para 210.

Projetos

Luiz Alberto Saboia acredita que, "independentemente de quem sejam os próximos gestores da cidade", a política cicloviária não deve enfrentar retrocesso "porque a cidade abraçou". Mesmo assim, reconhece que ela pode ser "mais qualificada, aperfeiçoada". "Quando você olha para Amsterdã, onde mais de 50% das pessoas se deslocam de bicicleta, foram necessárias várias décadas de políticas sistematizadas, progressivas, contínuas, para dar o resultado que se tem hoje. Nossa mudança também é cultural e não se dá da noite para o dia", pondera.

O representante da SCSP elenca outros três grandes projetos de mobilidade em construção, atualmente. O primeiro é o Plano de Acessibilidade de Fortaleza, que deve receber influências dos quase 23 mil domicílios ouvidos pela Pesquisa Origem-Destino para, por exemplo, orientar melhorias no transporte público.

Outro é o Plano de Caminhabilidade, para pensar "quais calçadas da cidade devem ter uma ação mais forte do Poder Público". A padronização desses espaços, demanda antiga de idosos e pessoas com deficiência, já foi alvo, em novembro, de recomendação de melhorias por representantes do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE).

O último é o Plano de Segurança Viária, para estipular metas anuais de redução de acidentes e definir ações estruturantes na área de tráfego.

O superintendente da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), Arcelino Lima, também considera importante os investimentos na sinalização, já que o aspecto visual influencia no comportamento dos condutores. "O Município é muito amplo. Antes, a gente tinha o uso do automóvel somente nas áreas centrais. Hoje, em qualquer bairro, vai ter muito carro e motocicleta, então vai ter necessidade de semaforização", explica.

Além da infraestrutura, Arcelino Lima indica que devem crescer as campanhas de educação no trânsito, desde as crianças - com a distribuição de material didático nas escolas - aos adultos - com mais fiscalizações e ações em bares e restaurantes. A meta? Atacar "fatores de risco" para mortes no trânsito, como a alcoolemia, o não uso do capacete e o excesso de velocidade.

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