'Ai não, é de autoatendimento!'

São 7h30... 7h40... 7h50... 8h da manhã. Esse período de meia hora poderia ser apenas o relógio passando enquanto fazia minha prova de espanhol. Poderia ser. Não foi. Quando a gente está entretido, nem lembra de reparar no tempo ou questionar porque 30 minutos duram uma eternidade. Sabe onde é que eu tava? Na parada do busão, abaixo daquele sol quente que todo bom morador da Capital sabe como é - e olha que ainda era cedinho.

Até passaram alguns ônibus, e tal, não vou ser injusto, mas eram daqueles com a maldita plaquinha verde na frente. A galera os chama de ônibus de autoatendimento; eu prefiro apelidá-los de "dose diária de azar".

Dose esta, inclusive, que nem era só minha. A parada começou a se avolumar e, como todo fortalezense raiz, os assuntos entre os usuários surgem a partir de alguma reclamação. "Lá vem o Pici/Unifor, ó", constata, de sobressalto, uma mulher sem avistar a famigerada plaquinha verde. "Ai não, é de autoatendimento! Diaaaaabo, só tem esses ônibus agora, é?", completa, desolada. E eu me desolo junto a ela, obviamente.

É praticamente impossível andar de transporte público na Capital sem escutar comentários desse tipo das mais variadas pessoas. O sistema de autoatendimento, questionável em diversas esferas, começou a ser implantado em outubro do ano passado e, desde então, só me ajudou em duas coisas: a ter raiva e a preferir pegar logo uma topique - vai que o outro que vem também é de autoatendimento, né?

Naquela manhã, ainda passava por um período em que não era tão privilegiado assim. Sem carteirinha e na iminência de receber a deste ano, era uma tristeza ir até a parada e dar de cara com esse novo formato de transporte urbano, que automatiza profissões e segrega quem é mais pobre.

Lá no meu Pirambu, conto nos dedos quem gosta. Até porque para conseguir fazer a recarga é preciso de quê? Pegar um ônibus, claro, e ir até uma farmácia, um terminal ou ao Centro da cidade. Duvido que essa problemática se restrinja à comunidade que me fez gente grande. Certamente não é a preferência de diaristas, pessoas em situação de rua e gente que mora em um bairro tão distante do centro das decisões que só pode dizer amém para as deliberações que vêm de cima.

Desde que recebi minha carteirinha - privilégio de quem tem como estudar em uma cidade como Fortaleza -, ainda vejo pessoas descendo dos ônibus e reclamando, como é de praxe do povo de cá. E não acho ruim, não. Junto-me a eles e elas intentando imaginar como seria se no dia a dia pensássemos nos outros.

Para se viver, deveria ser imprescindível a ideia da alteridade, como se as pessoas -desconhecidas urbanas que passam por nós montando o cenário visual da cidade - estivessem sempre a ponto de nos ensinar como aprender com elas. E quem disse que não posso aprender com o trocador que fora substituído por uma máquina? Ou com a reclamação de quem pena todos os dias para sair e chegar ao seu lar com segurança? Ou da mulher que cuida da casa, dos filhos, do lar alheio e só pensa em voltar para dormir suas cinco horinhas diárias antes de voltar à labuta?

E quem disse que andar de ônibus é para todo mundo? Em Fortaleza, pelo menos, parece que não.


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