Acesso de ricos a empregos em Fortaleza é 3 vezes maior do que o de pobres

Estudo do Ipea aponta desigualdade de acesso físico a oportunidades de emprego. Fortaleza é a 9ª cidade mais desigual dentre as 20 maiores do Brasil no acesso a pé a locais de trabalho em uma caminhada de até 30 minutos

Foto: FOTO: NATINHO RODRIGUES

Não apenas pela fonte de renda, o problema da desigualdade social no Brasil passa, também, pelos meios de transporte e tempo de deslocamento, afetando diretamente as oportunidades de acesso à saúde, emprego e educação. Fortaleza, por exemplo, está entre as 10 cidades brasileiras consideradas mais desiguais no acesso a emprego, se levado em consideração uma caminhada de até 30 minutos. Os dados são do projeto Acesso a Oportunidades, calculados em outubro de 2019, e lançados quinta-feira (16) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Conforme o estudo, os 10% mais ricos da capital cearense têm três vezes mais facilidade de deslocamento para acessar oportunidades de emprego em relação aos 40% mais pobres. Conforme estimativa do IBGE, Fortaleza possui 2.643.247 habitantes.

Na análise das 20 maiores cidades do País, Fortaleza ocupa a 9ª posição do ranking, atrás de Campinas, Curitiba, Brasília, Porto Alegre, Goiânia, Campo Grande, Belo Horizonte e São Paulo. Nessas cidades, a chance dos 10% mais ricos terem acesso a uma vaga de emprego em até 30 minutos de caminhada, é nove vezes maior que os 40% mais pobres.

Para o Ipea, isso pode ser explicado pela dimensão das cidades, assim como a distribuição socioespacial de renda e oportunidades. Isto reflete a concentração da população mais pobre longe das principais zonas de emprego e os ricos mais próximos.

A desigualdade espacial de Fortaleza é evidenciada também quando se analisa o deslocamento por bicicleta. Conforme o estudo, se uma pessoa pedalar 30 minutos fora da região central de Fortaleza, ela terá cerca de 50% de todos os empregos acessíveis. Já se o deslocamento for de apenas 15 minutos, somente o Centro é capaz de garantir uma acessibilidade para cerca de 25% dos empregos, enquanto nos bairros periféricos os níveis de acesso físico às oportunidades de trabalho são ainda menores.

Saúde
Além do emprego, a desigualdade se mostra ainda no contato com outras dimensões. Uma delas é a locomoção às unidades de saúde, especialmente no aspecto cor/raça. Em uma escala de 20 cidades brasileiras avaliadas, Fortaleza é a nona mais desigual. Na prática, isso quer dizer que o número de hospitais de alta complexidade acessíveis a pé em até 60 minutos é 40% maior para a população branca em relação à negra.

Considerando a organização territorial da cidade e a localização residencial dos moradores das duas etnias, o levantamento conclui que, em 1 hora, os brancos conseguem ter acesso a 140 hospitais diferentes caminhando, e os negros têm 100 unidades como opções. 

Na Capital, são exemplos de unidades de alta complexidade Hospital Geral de Fortaleza (HGF), no Papicu; Hospital Geral Dr. César Cals, no Centro; Hospital Infantil Albert Sabin, no Vila União; Hospital São José de Doenças Infecciosas, na Parquelândia; Hospital Dr. Alberto Studart Gomes e Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto, ambos em Messejana.
 
O estudo justifica que os equipamentos de saúde tendem a ser mais concentrados em regiões centrais da cidade, dificultando o acesso da população negra, geralmente moradora da periferia. “Esses resultados mostram como as desigualdades e a segregação racial também se manifestam territorialmente nas desigualdades de acesso”, aponta a pesquisa. 

De acordo com o gerente de Políticas Públicas do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), Bernardo Serra,parceiro do Ipea na pesquisa, a discrepância no acesso da população às unidades de Fortaleza reflete um modelo nacional. 

“O que a gente vê como padrão geral é que a possibilidade de acesso pela população branca é sempre maior, eles conseguem acessar mais oportunidades que os negros, o que reforça muito a desigualdade”, destaca. 

Por outro lado, o acesso a essas unidades se considerado apenas o tráfego por meio de ônibus/coletivos, cai 20% para os brancos. Nesse caso, se em 60 minutos, o negro pode ter acesso a 100 hospitais, a população branca tem a 120. Dessa forma, entre sete cidades analisadas, Fortaleza ocupa a penúltima colocação, à frente apenas de Porto Alegre. Bernardo Serra ressalta que o transporte público “consegue vencer mais distâncias geográficas, e apesar dos problemas, é um vetor de desigualdade muito grande”. 

 

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