A empatia começa em casa: um jeito de lidar com os desafios da pandemia

Exercitar a habilidade traz uma melhora na capacidade de controlar as emoções durante momentos de estresse

Legenda: Um dos pilares para lidar com as adversidades pode ser cultivado diariamente: a empatia.
Foto: shutterstock

Há um ano a pandemia do novo coronavírus mudou a rotina das pessoas no mundo todo. Diante da série de restrições impostas devido à doença, os cuidados com a prevenção do vírus tiveram que fazer parte do dia a dia de todos. Com as várias adaptações estruturais e até pessoais que o momento exige, mais do que nunca, ter controle emocional, aliado com a empatia, se tornou essencial para superar esse período de grandes desafios. 

Mas como vivenciar essa realidade e no meio de tudo isso conseguir cumprir as obrigações profissionais, pessoais e estudos? Um dos pilares para lidar com as adversidades pode ser cultivado diariamente: a empatia. Colocar-se no lugar do outro, cuidar melhor do outro e também de si próprio pode ser o caminho para viver de forma saudável durante esses dias nada normais. 

Antes da pandemia ser decretada, em março de 2020, a professora de educação física Neyla Doroth, 32, viu sua rotina mudar após ter tido contato com um aluno que testou positivo. Em meio ao isolamento social, os seus familiares também tiveram que mudar os hábitos. “Na minha casa moram cinco pessoas e cada uma tinha uma rotina diferente. E por conta do meu isolamento a rotina de todos mudou. Depois de me adaptar às aulas on-line, as dificuldades de conexão, ao ritmo de aulas do meu filho que aconteciam no mesmo momento, ao trabalho do meu pai e do meu irmão e a todo mundo em casa, foi difícil. Em determinado momento, me dei conta que a sala parecia mais um laboratório de informática”, conta a educadora.  

Legenda: Neyla Doroth: autoconhecimento e empatia para atravessar os desafios da pandemia
Foto: Arquivo pessoal

Com o passar dos dias, Neyla foi se moldando às novas maneiras de trabalho e ao novo jeito de convivência domiciliar. “Eu confesso que o processo de autoconhecimento durante a pandemia se intensificou. Foi bem pesado. Era como estar numa montanha russa em que a maior parte do tempo eu estava ladeira abaixo. No início não consegui assimilar muita coisa de primeira. No meio da primeira onda da pandemia minha avó veio do interior para minha casa. Foi mais uma necessidade de se adaptar aos espaços da casa com ela. Cada pessoa tinha uma necessidade diferente e nós precisávamos nos comunicar de uma forma distinta. Eu percebi que eu precisava entender muito bem como era que eu iria funcionar, para que pudesse interagir com as pessoas da minha casa e com as que estavam ali esperando por mim do outro lado da tela”, explica a profissional de educação física. 

 Da mesma forma, a mãe de Neyla, a dona de casa Antônia Araújo, 57, relata as mudanças que também teve de passar para manter-se saudável física e mentalmente. “A parte ruim foi não poder mais receber amigos, ver gente querida. Deixei de ter a liberdade de fazer uma caminhada, de sair até a uma padaria ou mercado. Eu tive que aprender a pedir as compras por delivery e me adaptar para treinar em casa, coisa que antes não fazia, mas passou a ser um momento com meus filhos e meu neto. Todo mundo vivia muito isolado nos seus quartos, agora tem uma hora que todo mundo se reúne pra fazer atividade e rir. É uma situação difícil, mas eu vejo as ações de solidariedade, a gente pode ficar em casa esse tempo todo, a gente vai contornando como pode”, afirma a dona de casa. 

Exercitando a empatia 

Em meio ao momento de turbulência causado pela pandemia, Neyla encontrou uma válvula de escape para praticar a empatia. “Eu faço parte de um coletivo que se chama Mutirão do Bem Viver. Nós estruturamos ações de assistência alimentar, e como eu estudo dentro da educação física políticas de saúde, eu consegui juntar um pouco da pesquisa que estava produzindo, e aliar a uma causa social. Por mais que fosse uma ação em uma comunidade, de entregar as cestas de longe, de ver outras pessoas, outras realidades, como elas estavam lidando com a pandemia também, poder ter um mínimo de impacto na vida daquelas pessoas me ajudou muito”, finalizou. 

Legenda: Sara Lavor: O diálogo é a ferramenta mais potente para auxiliar a dinâmica de cada família.
Foto: Arquivo pessoal

Para a psicóloga do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Trairi-CE, Sara Lavor, talvez este seja um momento ideal para trazer o conceito de empatia para rodas de conversa com a seriedade e generosidade necessárias ao tema, especialmente pelo fato de ser uma palavra muito conhecida, com amplo espaço de visibilidade, porém, com uma discrepância importante entre discursos e comportamentos. 

“Não há uma receita pronta. É importante ressaltar isso, pois mesmo que o núcleo familiar já tenha um mapa este não pode ser maior que a estrada, pois esta muda, a prova disso são as rupturas engendradas pela pandemia da Covid-19 em nossa rotina e noção de previsibilidade. O diálogo é a ferramenta mais potente no processo de aquisição desta resposta que será única para cada dinâmica familiar respeitando suas singularidades e os movimentos possíveis desse coletivo neste recorte histórico”, esclarece a psicóloga.  

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