48% da população moram a, pelo menos, 300m da malha cicloviária

A população de Fortaleza que usa o modal reconhece os avanços dos últimos anos com o aumento de 306% da estrutura para o uso de bicicletas, mas cobra da Prefeitura manutenção para garantir segurança aos ciclistas

Legenda: Av. Domingos Olímpio é uma das vias com maior movimento de bicicletas
Foto: Foto: José Leomar

Alternativa aos ônibus lotados, aos altos custos para manter um carro e ao estresse do trânsito, usar bicicleta é uma escolha ainda mais atrativa para quem tem visto a rede cicloviária alcançar várias vias de Fortaleza. Este cenário tem avançado e, conforme levantamento do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), 48% da população da capital cearense estão a, pelo menos, 300 metros de algum tipo dessa estrutura.

Em 2012, a cidade tinha 68,2 km de rede cicloviária. Hoje, conta com 277,2 km e a meta até o fim do próximo ano é atingir 400 km de cobertura, como informa a Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP).

Quem está nas ruas percebe o avanço pelo qual Fortaleza passou nos últimos anos, com, por exemplo, o aumento de 306% da malha cicloviária, conforme dados da Prefeitura.

Essa proximidade da população com a estrutura de ciclovias e ciclofaixas tem atendido a quem usa o modal para trabalho, lazer e esporte, mas também chama a atenção para as melhorias que ainda podem ser cobradas: "Tem algumas ciclovias que estão deixando a desejar. Principalmente, essas mais antigas que têm muito buraco, muita árvore no meio do caminho". O relato é do autônomo José Malheiros, 50, que usa a bicicleta diariamente para ir ao trabalho por ser uma opção mais rápida e saudável.

"O espaço é meu, mas eu não tenho direito de usá-lo, porque há infrações que podem causar acidentes. Eu como ciclista conheço mais as normas de trânsito do que alguns motoristas, por isso eu ando sempre prestando atenção"

Dante Rosado, coordenador da Bloomberg Segurança Viária, aponta que é preciso aumentar, melhorar e dar mais segurança à rede cicloviária. "A ideia é que qualquer pessoa se sinta estimulada a andar de bicicleta, e não só aquelas que já têm experiência. Tem de atender todo tipo de usuário". Ele avalia que Fortaleza está na vanguarda do uso da bicicleta, mas que a adaptação é de médio a longo prazos.

"A cidade precisa manter esse mesmo nível de investimento para, de fato, ter uma infraestrutura adequada. É importantíssimo que essa política seja continuada nos próximos anos, que cresça mais e se garanta a segurança viária". O gestor explica que é preciso reconhecer a bicicleta como um modo legítimo de deslocamento da população.

Percurso

Na cidade onde muitos perdem horas no trânsito, o estudante Alan Kennedy, 25, leva apenas 10 minutos para chegar à faculdade. Há três anos, ele faz o percurso diariamente de bicicleta, ainda que perceba certa insegurança. "Por onde eu ando tem ciclofaixa, mas tem via que a gente tem de dividir o espaço com carros e motos. Há falta de educação no trânsito, e como a gente não tem espaço, temos de disputar e ter cuidado com a segurança", acrescenta.

Mas também há quem escolha a bike ainda que o trajeto seja longo, como é o caso de Vagner Cabral, 49, que segue 18 km pela Godofredo Maciel duas vezes por semana para encontrar sua mãe. "Eu moro em Maracanaú e minha mãe mora no Pio XII, o que dá, mais ou menos, 50 minutos. O risco é menor e é mais rápido", avalia.

"Tem uns que respeitam e outros não, mas somos todos iguais. A gente quer que melhore o asfalto e que tampe os buracos", lista o cozinheiro Evandro Mesquita, 41, que também reclama dos buracos. "Eu moro no Mondubim e passo para resolver algumas coisas na Parangaba. É bom e rápido. Os ônibus demoram muito, eu passo meia hora andando de bicicleta e está melhorando muito", considera sobre a situação das vias.

Sobre o convívio no trânsito, Dante Rosado explica que uma regra básica é ter o maior zelo pela segurança do veículo menor "e saber que todo mundo tem direitos e deveres no trânsito". Ele acrescenta que é preciso resguardar as vidas de quem está nas ruas. "A gente tem sempre de pensar que o desenho urbano pode ser pensado para absorver esses erros", aponta.

Questionado sobre a manutenção da malha cicloviária, o engenheiro da Prefeitura Gustavo Pinheiro lembra que algumas estruturas implantadas há muito tempo precisam de manutenção. "A gente vem fazendo a manutenção em algumas já, como a da Av. Godofredo Maciel. Estamos começando a avaliar alguns obstáculos na Av. Bezerra de Menezes também, algumas árvores estão muito grandes lá". Pinheiro acrescentou que têm sido feitas manutenções constantemente como elevação de pavimento, operação tapa-buraco, além de poda de árvores.

O engenheiro ressaltou ainda o aumento de 306% da malha cicloviária. "Fazemos uma análise cicloviária para averiguar quais os pontos fracos e quais os pontos fortes para atender à cidade inteira. A bicicleta tem uma série de benefícios, tanto é econômica, como é sustentável. Não polui e ainda ajuda no movimento, no exercício", disse.

Distribuição

Atualmente, são 108 km de ciclovias, onde as vias são exclusivas para o deslocamento dos ciclistas; 163,1 km de ciclofaixas, onde não há barreiras físicas, mas contém sinalização no asfalto mostrando o espaço para uso da bicicleta. Também há 6 km de ciclorrotas, trecho compartilhado com automóveis e com preferência para os ciclistas; e 0,1 km de passeio compartilhado, quando há um prolongamento da calçada por meio de pintura.

No Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI), é estabelecido que Fortaleza deve ter 524 km de malha cicloviária até 2030. Nos próximos meses, está prevista a implantação de infraestruturas cicloviárias nas vias: Av. Jornalista Thomaz Coelho e Rua Angélica Gurgel, na Messejana; Av. Pompílio Gomes, no Passaré; Av. Duque de Caxias e Av. Padre Ibiapina, no Centro; Av. Mozart Pinheiro de Lucena, entre a Vila Velha e o Quintino Cunha.