3º Estado em taxa de doadores, Ceará atinge meta de transplantes

O índice estipulado para 2019 no Ceará era de 27 doadores efetivos a cada milhão de habitantes. O Estado chegou à taxa de 28,3. No Brasil, somente Santa Catarina e Paraná tiveram resultados mais expressivos

Legenda: O cearense Antônio Clemente, 51 anos, há cinco meses recebeu um novo coração
Foto: Foto: Camila Lima

A solidariedade de, pelo menos, 257 famílias garantiu essa mesma quantidade de doadores efetivos de órgãos no Ceará no ano passado. Com isso, a meta anual, que em 2019 era de 27 doadores a cada milhão de habitantes no Estado, conforme a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, foi superada. O Ceará alcançou o índice 28,3 de doadores. Esse resultado faz o estado ocupar o terceiro lugar nacional, sendo superado apenas por Santa Catarina e Paraná.

Os dados constam no relatório do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT) divulgado ontem pela Associação. O resultado, segundo o médico e editor do RBT, Valter Duro Garcia, evidencia tanto um crescimento de doadores efetivos no País, como também o destaque do Ceará. "Temos as metas para o Brasil e meta para cada estado. E o Ceará vem subindo e vem mantendo. O Ceará é o Estado que vem depois de Santa Catarina e Paraná. Ele disputa com São Paulo. É o terceiro Estado que mais tem doadores efetivos por milhão de população. O Ceará, com as mesmas condições que Recife, tem muito mais doadores. Muito mais doadores também do que a Bahia", ressalta.

No Brasil, a meta para 2019 era de 20 doadores a cada milhão de pessoas. Mas esse índice não foi atingido e ficou em 18 doadores a cada milhão. Dentre órgãos e tecidos, as córneas, com 899 transplantes, lideram a lista de procedimentos em 2019 no Estado. Além disso, os transplantes de rins bateram recorde histórico, totalizando 293 procedimentos - o melhor desde 2012 e 33% superior a 2018.

Conforme o médico, rins e fígado são "naturalmente" órgãos que "mais se transplanta rotineiramente", tanto por terem mais equipes médicas capacitadas no País para realizarem esses tipos de procedimento, como pela capacidade de conservação desses órgãos fora do corpo.

Já os transplantes envolvendo coração, pulmão e pâncreas são mais complexos, relata ele. "Se eu tirar um pulmão em Fortaleza, só posso implantar em Fortaleza. Porque o outro centro de pulmão é em São Paulo. É muito longe. Para se ter uma ideia, no caso dos rins, vem rim de Roraima para Porto Alegre, e eu porque posso usá-lo horas depois de ter sido tirado", detalha. Em 2019, foram feitos 25 transplantes de coração, 4 de pulmão e 4 de pâncreas no Ceará, segundo o relatório.

Trajetória

Entre os pacientes está o cearense Antônio Clemente, de 51 anos, que há 5 meses recebeu um novo coração. Natural de Tauá, Antônio morava em São Paulo em 2015 quando voltou para o Ceará com diagnóstico de problema no coração. "Lá, os médicos me internaram, fiz alguns exames e deu já um problema no coração. Isso foi em 2015, quando eu comecei a me sentir mal por causa da pressão alta. Aí, eu vim pra Tauá, achei melhor. Me internei em Tauá e, logo em seguida, já em 2016, fui pro Hospital das Clínicas em Fortaleza. Foi onde eu fiz o cateterismo e descobri a isquemia cardíaca. Depois, me encaminharam pro Hospital do Coração, mais ou menos em julho de 2016", conta o paciente.

Em 2016, ele seguiu sendo acompanhado em duas unidades hospitalares de Fortaleza. A situação se agravou. Antônio piorou e, além de realizar um cateterismo, careceu de internação. Em 2019, entrou na fila de espera por transplante. Junto a ele, outras 1.846 pessoas também ingressaram nessa lista no Estado. Em outubro, foi submetido à cirurgia. "Agora estou esperando pela biópsia dos 6 meses, para realmente confirmar que está tudo normal. Atualmente, estou na Associação dos Transplantados Cardíacos do Estado do Ceará. Me sinto muito feliz aqui, de coração novo. Agora, estou bem tranquilo, relaxado", garante.

Outro aspecto em que o Ceará também se destaca é na redução das recusas familiares. Das 406 entrevistas realizadas com as famílias no Ceará sobre a possibilidade de doação de órgãos de parentes mortos, em 148 casos houve negação. A taxa de não aceitação da doação por parte dos parentes é de 36%. Somente o Paraná, Santa Catarina e Rio de Janeiro têm índices mais satisfatórios que o Estado. "O ideal seria chegar em 25%, porque a gente faz pesquisa de opinião e 25% das famílias dizem que não doariam", esclarece o médico Valter Duro Garcia.

Ele também acrescenta que o transplante de órgãos e tecidos é a única atividade da área da saúde que depende completamente da sociedade. "Se você precisar de uma cirurgia de coração, cirurgia de fígado, tratar um câncer, você tem plano de saúde e tem o SUS, vai ao hospital, marca e faz. Mas, agora, se você precisar do transplante, só vai fazer se alguém da sociedade for lá e doar esse órgão. Por isso, a gente fala que o transplante é o mais social de todos os procedimentos médicos. Ele beneficia e depende da sociedade". Outros fatores que inviabilizaram as doações: 102 contraindicações médicas, 62 paradas cardíacas e 10 mortes encefálicas não confirmadas.

Além disso, outro procedimento complexo, mas que vem tendo bons índices no Estado são os transplantes pediátricos. Em 2019, o Ceará realizou 27 transplantes de rins, 12 de fígado e um de medula óssea em pessoas que têm menos de 18 anos. "Quando são pessoas entre 14 e 18 anos, ainda é semelhante aos adultos, então, o procedimento não é tão complicado. Mas quando se trata de crianças com menos de 10 quilos, é sensível. Um exemplo é o coração, que o paciente infantil só pode receber se tiver de 20% a 30% do peso do doador para cima ou para baixo".

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