Tetra mundial, Isabela Sousa teve "dupla quarentena" em Portugal

Bodyboarder conta como fraturou quatro costelas pegando onda e passou dois meses se recuperando enquanto também enfrentava a pandemia de Covid-19

Das ondas do Icaraí para um oceano de vitórias pelo mundo. A cearense Isabela Sousa, tetracampeã mundial de bodyboard, é referência nos esportes radicais aquáticos desde 2010, quando garantiu o título de melhor do planeta pela 1ª vez. Em Lisboa, sua casa desde 2018, a atleta se preparava para disputar o penta, mas enfrentou uma "dupla quarentena" neste ano, com a pandemia de Covid-19 e a lesão mais grave de sua carreira.

Desde os 11 anos de idade, nas praias de Caucaia, a prancha sempre foi sua fiel companheira. Porém, em maio, durante um treino, o instrumento foi um vilão inesperado. "Entrei num tubo, caí, a prancha pegou pressão e subiu na minha costela, como se fosse um muro. Quebrei quatro costelas, duas partiram em quatro lugares. Machucou meu fígado. Tiveram que me tirar da água. Fiquei uma semana de cama direto, depois um mês sem sair de casa. Voltei a surfar tem umas três semanas. Fiquei muito fraca, sem força no core, o grupo muscular mais importante do bodyboard", relatou Isabela, que precisou de fisioterapia na recuperação de dois meses.

A atleta do Estoril Praia se mudou sozinha para Portugal pelas ótimas ondas e precisou enfrentar, além das dificuldades pelo acidente, o isolamento pela pandemia do novo coronavírus. O país europeu tem mais de 42 mil casos e cerca de 1.600 mortes confirmadas pela doença. No fim de junho, após um ensaio de reabertura e um consequente aumento no número de infectados, o governo recuou e impôs novas medidas de restrição. "Alguns bairros foram obrigados a se fecharem mais, pois não estavam seguindo tanto as normas de segurança sanitária. Pessoas estão com máscara e com álcool em gel em todo canto, foram bem compreensivas com o momento. Tenho uma sensação que estou no 'futuro' aqui em relação ao coronavírus", conta Isabela.

A cearense não possui conhecidos que se infectaram e está tranquila com sua família, isolada no Icaraí. Para ela, o modo como seu país natal lidou com a crise na saúde é vergonhoso.

"Como atleta, sei o poder do exemplo e, pra mim, foi surreal ver a atitude do governo do Brasil. A maioria dos meus amigos aqui são portugueses e fiquei com vergonha. Foi uma das coisas que mais me tocaram nessa situação. Você fica abismado", lamenta.

Aos 30 anos, Isabela aguarda definição da Associação de Bodyboarders Profissionais sobre o circuito mundial, que estaria ocorrendo no Chile em julho. Devido à pandemia, a organização estuda fazer a disputa apenas em Portugal e na Espanha, no fim de setembro e no começo de outubro. O maior impasse no momento é a proibição para indivíduos vindos de países onde a doença não esteja controlada de chegar nas terras portuguesas, o que deve restringir a participação brasileira. Quem vier do Brasil, precisará apresentar exame provando que testou negativo.

Porém, em plena recuperação, Isabela está otimista para representar o Brasil e sonha em superar o recorde de Neymara Carvalho, capixaba e maior campeã mundial de bodyboard, com cinco títulos.

"Em três semanas, estarei 150%. Fisicamente e psicologicamente me sinto super bem. Não estou me deixando ficar muito ansiosa porque talvez não aconteça a competição. Quero que os próximos cinco anos sejam os melhores. Quero ser a maior detentora de títulos mundiais", afirma a cearense.