Ferroviário comemora 25 anos do bicampeonato cearense de 94-95; relembre a conquista

Potência que batia de frente com Fortaleza e Ceará, em 1995 o Tubarão da Barra levantou seu último troféu estadual. Historiadores, torcedores e atletas da época relembram o título histórico

Legenda: O Ferroviário contou com o apoio maciço da torcida coral, que compareceu em grande número no PV para ver o time bicampeão
Foto: PAULO ROCHA

O dia 10 de dezembro é uma data especial para o futebol cearense, em especial para a torcida do Ferroviário. O dia marca o aniversário da conquista do bicampeonato estadual do Tubarão da Barra do Ceará, o último título coral no Estado antes da hegemonia do Ceará e do Fortaleza. 

Em 1995, o Estádio Presidente Vargas foi palco da decisão diante do Icasa com quase 8 mil torcedores nas arquibancadas. O empate em 0 a 0 garantiu o 9º troféu cearense à equipe coral por ter vencido o 2º e o 3º turno da competição.

O 11 inicial era montado por Jorge Luiz; Biriba, Santos, Batista e João Marcelo; Ricardo Lima, Paulo Adriano, Acássio e Hilton; Robério e Reginaldo. No banco, o treinador Ramon Ramos, ex-atacante coral durante a década de 80 e auxiliar técnico na campanha vitoriosa do Estadual de 1988.

Sem os atacantes Cícero Ramalho e Batistinha, destaques da campanha da temporada anterior, restou apenas Acássio do trio ofensivo. Porém, em 1995, ele faria uma dupla lendária com Robério, artilheiro do ano com 26 gols. A formação da frente coral garantiu o melhor ataque da competição com 95 gols em 47 jogos, perdendo apenas quatro partidas.

Acássio se tornaria o 7º maior goleador da história do clube, com 74 gols em 132 duelos, sendo o atleta que mais vezes balançou as redes em clássicos estaduais com a camisa do Ferroviário: seis tentos contra o Alvinegro e 20 contra o Tricolor do Pici.

Em entrevista ao GloboEsporte, Acássio comentou sobre a decisão de 95 contra um forte Verdão do Cariri.

"Um jogo muito difícil. Fizemos um grande ano, um campeonato perfeito. O Icasa era um time que tinha todas as condições de ser campeão. As duas equipes passaram por Ceará e por Fortaleza e, por merecimento, chegamos à final", lembrou o ex-atleta.

A concentração entre os responsáveis pelo feito foi chacoalhada momentos antes do apito inicial, mas não o suficiente para tirar o foco na taça.

"Tem umas histórias curiosas sobre a partida. Na nossa saída da Barra para o PV, o ônibus quebrou a uns 300 metros do estádio. Algumas pessoas superticiosas acharam que era uma notícia negativa do que poderia acontecer no jogo, mas nada disso influenciou no resultado. Fizemos uma bela partida e fomos campeões. O Ferroviário dominou o campeonato de ponta a ponta. Começava em janeiro e terminava em dezembro e fomos dominantes durante toda a temporada", contou Acássio ao GE.

O caminho para o sucesso

A caminhada que culminou no bicampeonato teve percalços anos antes, como um bom roteiro de superação. Goleado por 9 a 1 pelo Ceará em 1993 e com a renúncia da diretoria do clube no dia seguinte, a crise foi instaurada na Barra. O novo presidente, Clóvis Dias, foi o responsável por recolocar o time nos trilhos.

Com o triunfo no 1º e no 3º turno do estadual, encarou novamente o Vovô na final e, na ocasião, o empate também garantia o título. 0 a 0 na decisão entregou o primeiro campeonato do bi coral.

Ronivaldo Vieira, historiador e professor, acompanhou a grande fase do Tubarão de perto e relembra a sensação da torcida durante aquela época.

"Eu tinha 26 anos. A maior lembrança é de que vínhamos numa boa campanha em 94. O presidente era Clóvis Dias, que montou um boa equipe. Todos os torcedores estavam na expectativa porque a pressão era grande. Achávamos que seria um jogo fácil, por não ser um time da capital, mas foi duro contra o Icasa", relatou Ronivaldo.

Legenda: A torcida coral não conteve a euforia e invadiu o gramado do PV para levantar a taça com os jogadores
Foto: PAULO ROCHA

Seu pai era torcedor fanático e viajava para assistir aos confrontos em Quixadá, em Sobral e outras cidades do Ceará, transmitindo a paixão aos filhos quando os levava ao estádio.

"O Ferroviário não foi tricampeão em 1996 porque o Ceará trouxe o time do Rio Branco, interior do São Paulo, de nível superior, para disputar o Campeonato", lembra o professor à reportagem.

Antes patrocinado pela Rede de Viação Cearense (RVC), o Ferrão recebia dinheiro que era descontado diretamente da folha salarial dos funcionários da empresa. Com sua privatização, em 1997, os recursos para o clube foram diminuindo e, consequentemente, a qualidade da equipe também. 

Legenda: A partida no PV foi muito disputada, com o Icasa fazendo jogo duro com o Ferroviário
Foto: PAULO ROCHA

Um desses profissionais da RVC era o pai de Irlenilda Pereira, hoje com 60 anos, que recorda do peso sentido pelo Ferroviário após o corte do dinheiro. Apesar disso, narra com felicidade o sentimento no PV naquela conquista em 1995.

"Foi uma experiência única. Naquele tempo, podia entrar em campo e foi emoção demais. Era gente gritando, chorando, cercando os jogadores e comemorando com eles", falou a torcedora.

O título brasileiro em 2018 com a Série D foi é o orgulho maior de Irlenilda, que viajou junto com o marido na árdua caminhada rumo à taça inédita. De geração em geração, o amor pelo time chegou ao neto Gustavo, de apenas 3 anos de idade, que já canta o hino coral.

Esperança

As decepções na Série C nos últimos dois anos não extinguem a fé de um novo período de sucesso na Barra do Ceará, como afirma Ronivaldo. "Sentimos frustração, né, mas o torcedor do Ferroviário vive de frustração e de esperanças", acredita o professor.

"Torcemos para que forme um time bom no ano que vem. É um amor para sempre. Que no próximo ano consiga subir para a Série B, ganhar projeção. Estou frustrada porque já tinha feito um calendário com uma amiga de Belém para acompanhar meu time contra o Paysandu em 2020. Meu marido e eu já estamos nos programando para, quando tiver a vacina da Covid-19, voltarmos ao estádio", afirma Irlenilda.

O laço emocional com um clube de futebol pode fraquejar, mas para aqueles de fato apaixonados, não importa o número de troféus na prateleira. O coração vermelho, branco e preto palpita com o mesmo ritmo frenético quando o Ferroviário entra em campo.

O atual presidente do clube, Newton Filho, estava na arquibancada em 95 e sonhava levar o time a um titulo cearense.

“Em 95, estava como torcedor nas arquibancadas. Não fazia parte de diretoria, de nada. Foi um momento muito feliz, marcado na história dos torcedores. E hoje, na posição de presidente, trabalhamos para que um título estadual volte o quanto antes. Mas sabemos que na atual conjuntura, bem diferente de 94/95. Para voltarmos a ser campeões, passa primeiro pelo nosso fortalecimento no Brasileirão. Temos nos estabelecido na Série C, com partipação digna”, disse o mandatário coral.

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