Daiane dos Santos fala sobre racismo e os desafios da ginástica no Brasil

Gaúcha, que levou o Brasil ao topo da ginástica artística nos anos 2000, agora é comentarista no SporTV. Em entrevista ao Sistema Verdes Mares, ela contou ainda sobre sua nova posição na TV e na gestão de seu projeto social

Legenda: Daiane dos Santos tem carreira vitoriosa no esporte brasileiro
Foto: Lluis Gene/AFP

A admiração que muitos brasileiros possuem hoje pela ginástica artística tem forte influência de um nome que já deixou os tablados, mas nunca a memória daqueles que a aplaudiram. Daiane dos Santos marcou uma geração de atletas na década de 2000 pelo seu carisma e pelas habilidades durante as performances.

Em seu vasto currículo, estão cinco medalhas (duas de prata e três de bronze) em Jogos Pan-americanos e 16 medalhas em etapas da Copa do Mundo de Ginástica, sendo nove delas de ouro. Daiane também foi a primeira brasileira a conquistar o Ouro em uma edição do Campeonato Mundial, aos 20 anos de idade. Pela seleção brasileira, disputou os Jogos Olímpicos de Atenas (2004), Pequim (2008) e de Londres (2012).

Atualmente, é comentarista dos canais SporTV, trazendo a voz da experiência de quem se destacou principalmente no estilo solo. Antes da Olimpíada de 2012, anunciou que encerraria sua carreira ao fim da competição, passando então a desenvolver outros projetos.

Em entrevista ao Sistema Verdes Mares, a ginasta comentou sobre sua trajetória no esporte, analisou o cenário de sua modalidade no Brasil, os desafios que a pandemia trouxe para os atletas, seu projeto social para crianças e adolescentes, assim como o racismo no esporte.

Hoje você tem um olhar especial para a ginástica artística. Ser comentarista está sendo mais fácil ou mais difícil?

É um pouco diferente. A gente tem uma missão de passar a emoção de quem viveu aquele esporte e fazer com que as pessoas se apaixonem. Tem sido um período muito gratificante e de grande aprendizado, muito especial, que eu nem imaginei que iria viver. Hoje, levo o esporte de uma forma diferente, mas com a mesma paixão que tinha como atleta.

Legenda: Agora, após deixar as competições, Daiane é comentarista esportiva de TV
Foto: Divulgação

Como você analisa o cenário da ginástica artística brasileira? O que precisa melhorar?

O esporte brasileiro vem numa crescente, principalmente o feminino. Tudo isso requer várias situações pra continuar acontecendo, como investimento. E não só dinheiro, mas também como usar esse investimento. Dar condições adequadas pra o esporte feminino se desenvolver, trazendo bons profissionais, investindo em todo o departamento técnico, em ginásios e em equipamentos e, claro oportunidades de inserção. Só dessa forma vamos garantir com que o Brasil consiga ter novos talentos surgindo e mantendo a qualidade. Na ginástica, vemos um resultado muito grande hoje na categoria masculina, com o campeão de argolas, o Arthur.

Você está cultivando seu projeto Brasileirinhos para vermos mais nomes de atletas brasileiros no cenário internacional. Explica como funciona o projeto.

Foi um sonho realizado, uma bênção. Quando atleta, via no Brasil que não tínhamos oportunidade, que a ginástica era pra um certo tipo de público ou de região. Sempre fiquei com a memórias das crianças pedindo pela oportunidade de praticar. Me deu memória de como me senti quando eu tive a oportunidade de começar a fazer esse esporte tão diferente que eu não conhecia até então. Isso me deu ainda mais vontade de ter meu próprio projeto. Construí o Brasileirinhos com a ajuda de muitas pessoas. E esse sonho virou uma realidade em Paraisópolis (SP). Nós atendemos até 250 crianças, de 6 a 17 anos, porque a intenção é pegar a criança em toda a fase escolar e transmitir o que o esporte tem de mais rico, como ferramenta educacional. O projeto é via Lei do Incentivo, como a grande maioria, que veio nos ajudar.

A tendência é estender esse projeto por todo o Brasil? No Ceará, será muito bem-vindo.

Olha que a gente vai, hein! Nosso sonho é justamente poder levar o Brasileirinhos a todos os cantos, do Oiapoque ao Chuí. Sou apaixonada pelo Ceará. Quero muito que as crianças se apaixonem pela ginástica e, se for pelas mãos do projeto, vou ficar ainda mais feliz. Hoje estamos também com um projeto pela Lei do Incentivo Federal, e isso abre nosso leque de atendimentos em todas as regiões do Brasil. Tenho a esperança de estar em Fortaleza praticando essa ação do esporte para as crianças.

Estamos vivendo uma situação complicada por causa do coronavírus. Qual o seu olhar em relação ao adiamento das Olimpíadas, em especial os atletas de ginástica rítmica?

Hoje nós temos uma edição adiada pela 1ª vez por conta desse inimigo invisível. Acho que foi uma decisão acertada do COI (Comitê Olímpico Internacional), mas temos que pensar também no tempo de preparação dos atletas. Até agora, os participantes não foram liberados para os treinos, todos estão se adaptando dentro de casa, no caso da ginástica artística ainda tinham vagas em aberto a serem preenchidas, o que interferiu diretamente. Espero que a situação possa se normalizar o mais rápido possível. Tudo precisa ser feito com muita cautela e responsabilidade de todos os envolvidos.

Tem outro adversário que vivemos, infelizmente, por questões de educação: o racismo. Acompanhamos o caso de George Floyd nos EUA, que acarretaram manifestações pelo mundo. Você sofreu algum tipo de racismo ou uma situação indelicada?

Esse tipo de preconceito, além de outros como os homofóbicos, acontecem pela falta de educação e empatia. Infelizmente acontece todos os dias, não só no esporte, por situações que eu passei, como ser perseguida, mas em todos os casos. Algumas pessoas veem e não fazem nada. O preconceito racial é uma responsabilidade de todos nós, parte do princípio da educação, precisamos educar melhor os nossos filhos. O mesmo respeito que você quer, tem que querer para o próximo também. Essa luta não é só dos negros, ou dos LGBTs. É um dever de todo ser humano. Estamos num momento de isolamento onde vemos que só vamos ficar bem se o outro estiver bem. Agora, conseguimos olhar mais para o outro, compreender e sentir empatia.

Você foi a 1ª que subiu ao pódio na sua categoria. Como você se vê hoje depois de tantos títulos que conquistou e agora como comentarista?

Fico muito contente em como pude colaborar com o esporte no Brasil, mas acho que minha missão ainda não terminou. Não só com o esporte, mas com educação para construir uma sociedade melhor. E hoje posso fazer isso através do Brasileirinhos. Os feitos que tive como atleta, quero ter os mesmos como pessoa. Quero transmitir isso nessa nova fase como comentarista, gestora, amiga, filha, como uma boa mãe, espero. Me preocupo com o legado que vou deixar, com o que posso fazer de diferente para o Brasil.

E tem um desejo próximo de ser mamãe?

Ainda estou trabalhando (risos). Maior desejo agora é ser mãe, sou apaixonada por crianças. Tenho oito sobrinhos e pude acompanhar a educação deles. Que Deus possa me abençoar para que eu consiga construir uma família logo, logo e ter, quem sabe, dois filhos, ou mais.

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