“Eu me formei aos 66 anos e me realizei atendendo pessoas com dores na alma”

Em entrevista à série “Dona de Si”, a professora, escritora e fundadora da Universidade Sem Fronteiras, Zilma Gurgel Cavalcante, ensina como aprendeu a arte de envelhecer bem

Legenda: Zilma Gurgel: um novo olhar sobre o idoso.
Foto: LC Moreira

Zilma Gurgel Cavalcante, 77 anos, casada, mãe de 3 filhos, avó de 4 netos, casada com Antonio Mourão Cavalcante há 45 anos é uma mulher com uma história de vida que inspira outras mulheres.

Ela não é só Dona de Si, mas é uma pessoa que dá sentido e vida à velhice. Levou para a sociedade um novo olhar sobre o idoso, mostrando que nunca é tarde para conhecer, aprender, amar e realizar sonhos, um lema que carrega no coração e na sua Universidade Sem Fronteiras.

Nessa entrevista repleta de espiritualidade e de lição de vida, Zilma Gurgel conta a sua história e convida para o “bem envelhecer” amando o que faz, amando você mesma e realizando sonhos a qualquer tempo da sua vida!

Legenda: Zilma com o marido e os filhos.
Foto: Divulgação


Quem é Zilma Gurgel?

Uma mulher que sonha e realiza seus sonhos. Portadora de uma espiritualidade profunda, de uma fé inabalável e guiada por Deus, que sempre me deu consciência da minha missão. 

Em que tipo de família foi criada?

Em uma família pequena, onde moravam três idosos (avó paterna e materna e uma tia avó). Este ambiente foi determinante para a construção da minha carreira profissional e realização pessoal. Este ambiente me permitiu enxergar a possibilidade de dar dignidade à pessoa idosa.

Qual a formação profissional?

Meu grande sonho era fazer Psicologia, mas quando terminei o “ensino secundário” não havia este curso em Fortaleza. O que mais se aproximava era “Serviço Social”, onde fiz na UECE. Pouco tempo depois de casar, fomos para a Europa, onde moramos durante 6 anos. Foi lá que fiz mestrado e doutorado em Gerontologia. Como os sonhos nascem dentro de nós para serem realizados, aos 60 anos resolvi fazer psicologia. Voltei aos bancos de uma Universidade como estudante! Entrei para o curso de Psicologia na UNIFOR. Me formei aos 66 anos e me realizei atendendo a pessoas com suas dores na alma. Aos 70 anos me tornei escritora e atualmente exerço não só o ofício de professora, como também o de escritora!

Legenda: Zilma com o marido e os netos
Foto: Divulgação

Em algum momento chegou a imaginar que o seu destino fosse outro que não fosse a Psicologia?

Minha caminhada existencial predominantemente é compromissada com a Gerontologia Social. Os cursos feitos sempre convergiam para este campo e atuação. A psicologia complementou o conhecimento. Estudar os sentimentos, as emoções, as angústias...a existência humana.

E, ao envelhecermos, muitos questionamentos nos atormentam, pois nos deparamos com a finitude e o que fizemos da nossa vida. Qual o legado estamos deixando? 

A monografia no Serviço Social foi sobre idoso. Qual a grande descoberta nesse momento?

A pessoa ao atingir a velhice, sofria/sofre uma progressiva e profunda exclusão social. De repente, em casa, essas pessoas são taxadas de uma pessoa frágil, destituída de autonomia. Outros familiares começam a decidir por eles. Daí que veio o título da minha monografia “Velhice, uma nova marginalidade? ”. Trabalho pesquisado junto aos idosos de Fortaleza. 

O seu momento na França foi dedicado a que área?

Fui beber na fonte! Aproveitar para aprofundar o tema da velhice. A Gerontologia na França já estava difundida há bastante tempo. Foi uma excelente oportunidade de estudar com pessoas reconhecidas (Pierre Vellas, Helene Reboul, etc.) e entender como aconteciam os programas universitários dedicados às pessoas idosas. 

Legenda: Zilma e Antônio Mourão na época que viveram na França.
Foto: Arquivo pessoal

Naquele tempo, a senhora tinha a percepção do caminho que estava criando para o idoso?

Sim. Na França, os idosos sabiam conservar a autonomia – em grande parte – morando sozinhos e resolvendo seus problemas com liberdade. Para esses idosos, as relações afetivas estavam mais próximas dos amigos de mesma idade. Com a família, também guardavam vínculos, mas em menor intensidade.
Diante dessas experiências observadas e vivenciadas, nasceu em mim a vontade de discutir e aprofundar esses temas dentro da universidade onde fosse engajar-me. Isto é, eu pensava que poderíamos ajudar os idosos daqui a preservarem a autonomia e o seu ciclo social. Na perspectiva de continuar sempre aprendendo e de construir uma vida social.

Como era o seu sentimento em relação a isso?

Sentia que os idosos precisavam de um estímulo inicial. Acreditar que podiam continuar aprendendo, integrados socialmente e realizando sonhos.

Qual a melhor maneira de envelhecer?

Trago sempre em minha memória a lembrança das três idosas que povoaram minha infância. Eram três modelos bem distintos de viver a velhice. Uma delas tinha sido professora e amava profundamente literatura. Encaminhou-me para esse mundo extraordinário do imaginário e do encantamento. A outra tinha uma fé profunda. Gostava de ir à missa todos os dias, me levando como companhia. A terceira era uma visita constante à nossa casa. Gostava de visitar amigos e familiares. Elas, pelos comportamentos descritos - constato agora – inspiraram-me a construir os pilares da Universidade Sem Fronteiras, que norteiam a busca de uma velhice bem-sucedida. Claro que os estudos e observações desenvolvidos na França e a observação constante de idosos, com total autonomia, aperfeiçoaram essa formação.

Como a senhora fez para quebrar os paradigmas e fazer as pessoas acreditarem no seu ideal para o idoso?

Não foi fácil. Tivemos que enfrentar muitas dificuldades e resistências. Diziam assim: “Vá cuidar de adolescentes que é melhor! Deixe esses idosos em casa!. “Não adianta mais. Papagaio velho não aprende”. Tantas manifestações de preconceitos! Busquei sentir o desejo dos idosos em Fortaleza e quais tipos de atividade eles estariam interessados a participar. Fizemos os primeiros cursos nessa perspectiva de realizar pesquisa. Deu certo e o sucesso começou a acontecer, sempre a partir de novas pesquisas. Sempre assim.

Como surgiu a ideia da Universidade Sem Fronteiras?

Surgiu da crença que poderia existir um outro modo de viver a velhice. Precisávamos reinventar um projeto de vida: como viver melhor a velhice. Imagine que agora estamos mais longevos. E se não nos programarmos para envelhecer? Não estaremos vivendo, apenas existindo, esperando o dia de partir!

Qual o lema criado a partir da sua vivência para a Universidade Sem Fronteiras?

Aprender para servir, transformar e realizar sonhos.

Que projetos são realizados na Universidade Sem Fronteiras?

Educação permanente para construir a boa velhice. Além dos cursos ofertados na área do corpo, mente, alma, mídias e idiomas, conseguimos criar o setor de entretenimento para nossos alunos, também: desde uma ida para uma caranguejada a uma viagem pra Lisboa. Ir ao cinema, teatro, ver as escolas de samba na Sapucaí.

Foto da turma da Universidade sem Fronteiras
Legenda: As salas de aula da Universidade Sem Fronteiras antes da pandemia.
Foto: Divulgação


Como vocês fizeram com as aulas em 2021?

Esse ano estamos vivendo uma situação difícil e atípica por conta da pandemia. Atinge muito o idoso que não pode sair de casa. Tivemos que nos adaptar às aulas virtuais, maneira de preservarmos o contato social, com a instituição e com os colegas, além de novos aprendizados. 

O que é feito para estimular os idosos que foram convocados para ficarem reclusos em casa reagissem de forma positiva para superar o isolamento e a solidão?

Existiu uma força tarefa para readequar o modo de fazerem seus cursos. Muitos não quiseram participar das aulas online e infelizmente, muitos destes, tiveram um declínio cognitivo.
Mesmo que online, é possível ter contato social, rever amigos, aprender coisas novas e estimular o cérebro. Não estamos ofertando apenas cursos. Promovemos lives especiais, cafés da tarde, tivemos tertúlia online.


Qual o conselho que a senhora oferta para relacionamentos difíceis com idosos, principalmente, no momento da pandemia?

Lembrar que o idoso não é uma criança desorientada. Ele precisa de um espaço para existir. Sua autonomia precisa ser minimamente preservada. Evitar ao máximo que chegue ao nível de confronto. Igualmente, podemos pensar que esse idoso está muito ocioso, e talvez tenha medo e esteja fragilizado. O diálogo é sempre uma fórmula eficaz.

Como a senhora cuida do seu idoso e grande amor?

Estimulando a sonhar, realizar sonhos e a continuar amando. Exercitar a delicadeza e o romantismo como casal. Viajamos online toda semana. A gente escolhe para qual País vai visitar e procuramos no youtube o vídeo e começamos a viajar! Ou, então, assistimos a shows, um filme, procurando ocupar o tempo com ternura e compreensão. 

Legenda: Zilma e Antonio Mourão exercitam o verbo amar todos os dias.
Foto: Divulgação


Qual o grande aprendizado nesse momento?

O amor, a fé, a esperança, a paciência neste difícil percurso da pandemia e, também, haja criatividade para enriquecer a solidão. Confesso que nunca a frase de Tom Jobim fez tanto sentido “É impossível ser feliz sozinho”. Momentos de solidão são essenciais, mas nascemos para conviver em família e comunidade.

Qual a sua esperança?

Que possamos acabar com a pandemia através da Ciência e da cooperação de todos.