Desabafo de João no BBB21 expõe a dor do racismo direcionado ao cabelo

Mulheres relatam experiências semelhantes e refletem a importância de tratar o tema com respeito

Montagem de fotos Camilla, João e Rodolfo, do BBB21
Legenda: Camilla e João confrontam atitude racista de Rodolfo no Jogo da Discórdia do BBB21.
Foto: Reprodução/Globoplay

“Eu estou cansado de ouvir isso e não é só aqui dentro, lá fora também. Nunca ninguém tem a intenção de machucar”. O desabafo de João Luiz na edição ao vivo do BBB21 desta segunda-feira (5) expôs o sofrimento de quem é alvo de piadas e ofensas racistas direcionadas ao cabelo. O professor mineiro manifestou aos colegas que o cantor sertanejo Rodolffo comparou o cabelo black power dele ao da peruca do Castigo do Monstro. “Seu cabelo não é julgado como o cabelo crespo. Pesquisem, estamos cansados de ter que explicar sobre nossa cor de pele e nosso cabelo”, disse a participante Camilla de Lucas, em apoio a João Luiz.

 

Do lado de fora da casa, o assunto continuou ecoando pelas vozes de artistas, influencers e por quem já viveu e vive na pele este tipo de racismo. “Durante a seletiva para uma entrevista de emprego, já me sugeriram que se eu não amarrasse o cabelo não passaria na entrevista”, relata a professora Danielle Almeida Lopes, 29 anos.  

Ela conta que desde criança sofre preconceito com os crespos. “Me apelidavam de espantalho, cabelo bombril, tia Anastácia. Teve um episódio que me marcou muito: um colega derramou algo no chão e outros colegas da sala correram atrás de mim com uma tesoura para cortar um pouco do meu cabelo para limpar o chão. Na época, a escola tentou me explicar que era brincadeira de criança, mas isso marcou minha infância. Atitudes como essa me marcaram e eu detestava”, relata Danielle. 

Imagem de mulher negra, cabelos crespos, blusa colorida
Legenda: Danielle Almeida relata experiências marcantes de racismo direcionado ao cabelo desde a infância.
Foto: Divulgação

Para fugir dos comentários preconceituosos, a estratégia da professora, assim como de muitas mulheres negras, foi recorrer aos métodos de alisamento químico. “Comecei a alisar meu cabelo muito cedo por conta dos comentários na escola. Mantive meu cabelo alisado dos 8 aos 18 anos. Teve uma época que caiu quase tudo por conta da química constante”, lembra. 

Não foi diferente também com a estudante de Ciências Sociais Lilian Mello, 24 anos, que passou 10 anos alisando o cabelo para não sofrer racismo.  Ela conta que desde criança sofre o preconceito. “Aconteceu comigo quando estava na escola. Um grupo de adolescentes riu, apontando para o meu cabelo. Outra vez foi em fevereiro deste ano, quando tirei as tranças e passei pelo processo de transição. Duas meninas ficaram olhando e rindo em direção a mim”, recorda Lilian.

Foto em preto e branco de mulher negra
Legenda: Lilian Mello: dez anos alisando o cabelo para fugir do racismo.
Foto: Alex Paiva/Divulgação


Coragem para falar 

"...tô dizendo isso aqui agora porque pra mim, é um momento de muita coragem de poder estar falando isso agora". (João Luiz) 

Com a voz embargada pelo choro, o brother João Luiz deixou bem claro que não, não está tudo bem tratar racismo estrutural como uma brincadeira. Para a estudante Lilian Mello, falar sobre o assunto ainda é doloroso para as pessoas negras, mas necessário. “Infelizmente, vivenciamos isso desde a infância e nos ensinam a odiar nossos traços. Poder abordar o assunto e fazer com que a branquitude reconheça os seus privilégios inseridos socialmente e a maneira como propagam o racismo é válido para que entendam a proporção que esse ato toma e a dor que ele causa. As pessoas não nascem racistas, elas são ensinadas”, avalia. 

Foto colorida de Lilian Mello
Legenda: Lilian Mello: "Não posso admitir que sejam preconceituosos por conta do meu cabelo".
Foto: Alex Paiva/Divulgação

Para a professora Danielle Almeida, o episódio no programa deu voz e espaço para se falar sobre um problema que machuca. “Somos um país racista e ignorar isso ou resumir toda essa luta e causa em ‘mimimi’ é continuar colaborando para a exclusão e massacre da nossa comunidade. É importante trazer esse assunto para a pauta porque falar e expor conscientiza e educa. É disto que estamos precisando”, pontua Danielle. “Mimimi é uma forma bem superficial de querer se livrar do peso de culpa ou de não querer refletir e compreender que o racismo é presente em nossa sociedade. É uma expressão triste”, opina a professora.   

Crespas e mais fortes 

Assumir a identidade do cabelo crespo é um processo árduo, especialmente para quem passou anos alisando para fugir dos comentários preconceituosos. Nessa jornada de autoaceitação, o apoio de outras mulheres é fundamental. “Minha mãe e minhas tias assumiram seus crespos e me ajudaram a assumir o meu. A gente aprendeu a cuidar, entender os melhores produtos para o crespo, buscar produtos quando o mercado não oferecia, os penteados que mais gostávamos. Foram minha maior força e inspiração e ainda são”, reconhece Danielle Almeida.

Para a professora, a relação com os crespos é de muito mais amor e cuidado, o que se reflete na autoimagem. “Eu me vejo mais forte, me vejo mais firme e com ainda mais vontade de defender as características das minhas raízes. Hoje olho para o meu cabelo com muito orgulho e isso foi uma construção profunda. Amo fazer vídeos e fotos que valorizem meus cachos, acho lindo no espelho e em mim. Faz parte da minha personalidade, um traço que me identifica no meio da multidão”, reflete. 

Imagem em preto e branco de Danielle Almeida e mulheres da família
Legenda: Danielle Almeida: Assumir os crespos foi encorajado e inspirado por mãe e tias.
Foto: Divulgação

Para Lilian Mello, a aceitação é um processo doloroso que faz parte da história. “No início foi bem difícil e até hoje é. Eu me tornei dependente das tranças por me achar bonita somente assim. Acabei me acostumando e admirando que usar tranças me tornaria mais bonita. Mas entrei em um processo e estou até hoje para aprender a amar meu cabelo do jeito que ele é e que não preciso diminuir o tamanho dele para ser aceita socialmente”, afirma a jovem que decidiu não só assumir a identidade do cabelo, como soltar a voz contra o preconceito. “Hoje em dia eu sou uma mulher que defende aquela criança que não soube se defender. Falo alto, bato de frente e aprendi a não me calar mais. Não posso admitir que sejam preconceituosos por conta do meu cabelo”, afirma a estudante.


Artistas reagem exaltando os crespos 

No Instagram, famosos como as atrizes Taís Araújo e Aline Borges e o ator Lázaro Ramos postaram fotos inspirando o amor aos crespos.


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