Como a síndrome do impostor atrasa o crescimento profissional de mulheres

Sentir-se uma fraude é comum entre as profissionais em ascensão; saiba o que diz a psicologia e como tratar

Mulher se vê com dúvidas no espelho, na representação da Síndrome do Impostor
Legenda: A síndrome afeta principalmente mulheres e, em um elevado percentual, as profissionais bem-sucedidas.
Foto: Banco de Imagens

Você pode ter um currículo brilhante, ter sido aprovada em vários concursos e ter escutado que é boa no que faz. Mas ainda assim ouve aquela voz lá de dentro que duvida: "O que está fazendo neste lugar se você nem é tudo isso que dizem?" ou "A qualquer momento, vão descobrir que você não é tão boa assim para o que foi chamada a fazer".

Quem sofre da síndrome do impostor conhece muito bem esse tipo de avaliação distorcida si. O problema pode afetar qualquer pessoa, mas atinge principalmente as mulheres, tornando-se um grande entrave para o crescimento profissional delas. 

Para a Psicologia, a síndrome da impostora é uma desordem psicológica que, apesar de não ser classificada como doença mental pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é bastante estudada. Caracteriza-se pelo sentimento de ser uma fraude. "É interessante apontar que esta síndrome afeta principalmente mulheres e que foi percebida em um elevado percentual de profissionais bem-sucedidas", explica a psicóloga Fernanda Carvalho, mestra em Psicologia Social pela Universidade Federal do Ceará e escritora. 

O termo surgiu a primeira vez na década de 70, quando duas psicólogas norte-americanas, Pauline Clance e Suzanne Imes, da Universidade Estadual da Geórgia, fizeram uma pesquisa com cerca de 150 mulheres com bons títulos acadêmicos, que já eram profissionais em suas áreas ou estudantes do ensino superior com excelente histórico escolar. O resultado mostrou que quanto mais respeitadas e bem-sucedidas, mas inseguras e impostoras se sentiam. 

Legenda: A síndrome se caracteriza pelo sentimento de ser uma fraude, uma impostora, e um pavor de que alguém descubra isso.
Foto: Banco de imagens

Quais os sinais da Síndrome de impostora 

De acordo com Fernanda Carvalho, a síndrome do impostor costuma surgir em momentos de transição ou quando se encara grandes desafios. A atriz Rafa Brites, uma das celebridades que assumiu ter a síndrome, já contou no TEDxSP que abriu mão de uma vaga de trainee de uma multinacional, mesmo tendo passado em todas as fases da concorrida seleção, por se sentir inadequada para o cargo.  

“Quase todos os sinais e formas de sentir e agir giram em torno de uma aguda consciência de ser impostora e de evitar que o outro perceba isto. Obviamente, estes têm grande carga emocional, são cheios de ansiedade e desconforto”
Fernanda Carvalho
Psicóloga

Assim como Rafa Brites, outras celebridades como a advogada e apresentadora Gabriela Prioli, a cantora Jenifer Lopes, a atriz Kate Winslet e a ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, também assumiram publicamente que sofrem com a síndrome, mesmo com todo o reconhecimento público e conquistas que já tiveram. 

Legenda: Ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, já declarou em entrevista que sofreu por anos com a Síndrome do Impostor.
Foto: Divulgação

Débora Figueiredo, 32 anos, professora universitária e terapeuta holística, conta que desde criança conhece a sensação de que nada parece ser suficiente para que se sinta merecedora do seu lugar no mundo. “Quando passei no mestrado em Psicologia na UFC, por ter a formação em Filosofia, alguns colegas da turma do mestrado gostavam de puxar conversa sobre estudos da filosofia que eu não me sentia boa o suficiente para comentar e aquilo me incomodava bastante. Eu me perguntava com frequência o que eu estava fazendo ali”, relata a profissional. 

Yvonne Miller, 36 anos, redatora e escritora, sentiu, ao longo da carreira na escrita, as dores de quem quer expor sua obra para o mundo, mas sofre com a síndrome da impostora. “Fiz vários cursos e sempre recebia um feedback positivo, tanto dos outros participantes quanto dos professores. Nesses cursos, também percebi que tinha muita gente que escrevia bem, mas que sentia vergonha na hora de mostrar seus textos, achavam bobos, pensavam que nenhuma editora ia querer publicar aquilo, enfim, o mesmo que eu também pensava. Parecíamos sofrer de um tipo de ‘baixa autoestima literária’”, relata.  

Procrastinação e autossabotagem 

Com as crenças internalizadas, a tendência é que quem sofre com a síndrome da impostora acabe não expandindo a carreira e as possibilidades profissionais. “Há uma tendência a deixar projetos incompletos e a evitar feedbacks para evitar a atenção alheia”, afirma Fernanda Carvalho. Além disso, completa a psicóloga, é possível um comportamento de procrastinação, “evitando o desprazer de um fracasso, já que isto parece o mais certo que aconteça aos olhos da pessoa vivendo a síndrome. Também é uma espécie de desculpa, pois se as coisas não derem certo, é possível atribuir o fracasso à gestão do tempo e não à ‘total inabilidade’ da ‘impostora’”, explica. 

Legenda: Psicóloga Fernanda Carvalho: a síndrome da impostora pode contribuir para desencadear depressões, burn out, distúrbios no sono ou transtornos de ansiedade.
Foto: Arquivo pessoal

Nesse caminho, entram em cena formas de autossabotagem clássicas, como chegar atrasado e despreparado para reuniões, procrastinar o início de projetos, beber na noite anterior de uma apresentação etc. Numa versão oposta, a pessoa pode se tornar uma workaholic compulsiva, preparando-se obsessivamente em seus projetos, por considerar que os outros são muito mais habilitados, ao contrário de si.  

Seja qual for a tendência de comportamentos, a síndrome da impostora pode contribuir para desencadear depressões, burn out, distúrbios no sono ou transtornos de ansiedade. “Torna a caminhada em direção a um objetivo absurdamente mais pesada e desconfortável do que poderia ser. Pode até silenciar grandes talentos e fazer definhar grandes futuros. Considero todas estas formas de sofrimento e mordaças do ser como muito graves”, analisa Fernanda Carvalho. 

Raízes sociais 

Fernanda Carvalho explica que a crença que fortalece a sensação de impostora, bem como o motivo pelo qual esta síndrome afete mais mulheres tem raízes sociais. “Somos constituídos sujeitos a partir de nossas experiências individuais dentro de um sistema social que carrega valores e crenças que enviesarão nossa percepção, nossa forma de sentir e de agir.

Se atentarmos para os discursos sociais que atravessam o feminino em nossa sociedade, perceberemos que estes ainda rechaçam a mulher de lugares de poder. Ainda há pouca representatividade do feminino em lugares de decisão. O discurso feminino nem sempre é dado como relevante, muitas vezes sendo editado ou silenciado para servir a narrativas vigentes”, analisa a psicóloga. 

A geógrafa cearense Sharon Dias, premiada internacionalmente por uma pesquisa sobre Covid-19 e habitação, pontua a necessidade de se questionar o sistema machista e opressor que contextualiza a atuação de mulheres no mercado de trabalho. “A síndrome do impostor, essa vozinha que fica dentro da cabeça das mulheres, tem nome: é o chefe que é machista, o professor que não respeita, a família que coloca muita pressão nos ombros das mulheres. Não é só uma vozinha que fica do nada na nossa cabeça dizendo que a gente não é boa. Ela é um porta voz da sociedade machista, consumidora, que se internaliza na gente”, disse em entrevista para série Dona de Si, que a Sisi traz com histórias e narrativas de mulheres protagonistas na sociedade. 

Como observa a psicóloga Fernanda Carvalho, encontrar relatos sociais alternativos que colocam mulheres no centro do protagonismo é um dos caminhos para enfraquecer as crenças da "impostora". “As coisas não são como se apresenta de início nos corpos de história e discursos vigentes. Se buscar, encontrará relatos de grandes mulheres escritoras, empresárias, médicas, ativistas etc ao longo da história que contribuíram para a consolidação deste país desde seu início”, destaca. 

Foto: Arte: Danilo Florentino

Ter consciência de si é um caminho para superar 

Para a professora universitária Débora Figueiredo, ficou bem mais fácil perceber os sinais da síndrome da impostora quando começou a trabalhar como terapeuta holística, tendo mais consciência dos bloqueios e das origens deles. Ela conta uma experiência recente, em que se viu diante de um desafio profissional. “Estou nesse momento criando um curso de tarot que vai ser lançado em julho. É muito comum aparecerem propagandas de outras pessoas vendendo seus cursos com as mais diversas abordagens, sendo muito comum as pessoas usarem argumento de autoridade como ‘eu sou o melhor tarólogo do planeta e somente comigo você vai aprender corretamente’. Quando comecei a ver essas propagandas, me incomodou e me fez me sentir incapaz”, relata. 

Legenda: Débora Figueiredo: Lembrar das experiências positivas ajudou a desbancar a síndrome da impostora.
Foto: Arquivo pessoal

A estratégia de Débora foi lembrar de todas as vezes em que deu o melhor de si e obteve resultados maravilhosos. “Depois me desafiei: ensinei tarot a um grupo de 17 pessoas com um método criado por mim e recebi muitos elogios sobre minha forma de ensinar e o método em si. Isso me deu força e me lembrou que eu sou, sim, boa no que me proponho a fazer”, destaca.  

Para ela, uma das formas de lidar com a síndrome é fazer perguntas sobre a situação e como o que está prestes a fazer pode contribuir.

“Posso contribuir com o mundo sendo exatamente quem eu sou hoje? A resposta é sempre sim, porque do meu ponto de vista todos nós somos contribuição exatamente com o que temos hoje. Isso não nos impede de melhorar, mas não nos impede também de reconhecermos nosso valor no presente, com o que temos”, reflete a terapeuta. 

Você não está sozinha 

A escritora Yvonne Miller tem vários contos e crônicas publicados, escreve em coletivos literários e está prestes a lançar um livro de contos cearenses que organizou junto com as escritoras Beatriz França e Josi Siqueira. Na jornada de colocar sua voz no mundo por meio da escrita, já jogou um romance fora, quando era adolescente, já ficou de fora de concursos e de oportunidades com editoras. Mas aprendeu a lidar com a voz da autossabotagem. 

Legenda: Yvonne Miller: "ajuda pensar que não podemos nos superar o tempo todo".
Foto: Arquivo pessoal

“Em primeiro lugar, ajuda pensar que não podemos nos superar o tempo todo. Alguns textos são melhores que outros, é normal. Isso não significa que esses últimos sejam ruins. E outra coisa: que a gente ache que um texto não é tão bom, não significa que o público pense igual. Já aconteceu várias vezes de eu publicar uma crônica mais ou menos (para mim) nas redes sociais e lá vem alguma leitora, algum leitor e me diz que foi o melhor texto que já escrevi. E tem outras crônicas minhas que acho dignas de um Jabuti e mal recebo feedback. É curioso, mas no fim das contas literatura também é uma questão de gostos”, analisa. 

Para a artista, estar em coletivos literários, fazendo trocas com outras escritoras e escritores também ajuda a diminuir a sensação de insegurança, afinal, muitas mulheres também sentem a síndrome. Não é um problema apenas individual, mas coletivo. “Muita gente conhece essa síndrome, inclusive autoras conhecidíssimas como Clarice Lispector. Então ter um grupo de apoio como o Coletivo Bora Cronicar, que nos incentiva a continuar, a escrever e a publicar é essencial para mim”, considera. 

Seja de forma coletiva ou individual, construir uma nova forma de pensar e de compreender a si mesmo é um caminho para quem sofre com a Síndrome do Impostor e para enfraquecer as crenças que paralisam o crescimento feminino. Mas é preciso fazer frente aos discursos vigentes que despotencializam as mulheres e suas criações, como observa a psicóloga Fernanda Carvalho.

“Representatividade e discursos sociais que deem espaço ao feminino em suas potencialidades, diferenças e contribuições seriam nutridoras de uma avaliação de si mais potente para mulheres. O simples fato de saber que algo é possível é um adubo poderoso à ação e à criação”, arremata.  


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