Autoestima em tempos de transição capilar

Mulheres contam como lidaram com essa fase de mudanças internas e na aparência

Legenda: Luiza Nara: processo de autoaceitação culminou na transição capilar.
Foto: Denise Marçal/Divulgação

Nem liso, nem crespo. Em transição. Quando a analista financeiro Luiza Nara Melo de Souza, 29 anos, chegou ao salão para cortar os cabelos, da raiz até pouco antes da metade era crespo, do meio para as pontas, alisado. "Eu não lembro como era meu cabelo natural", disse, recordando-se do fato de alisar desde os 10 anos de idade.
 
A transição capilar foi uma decisão tomada por Luiza durante um processo de autoconhecimento em que se viu consciente da ancestralidade negra. "Eu realmente comecei a me ver como mulher negra e comecei a me aceitar, a gostar de mim como eu sou, de me achar bonita e foi a partir desse momento que decidi não alisar mais", conta.


 
A resolução de mudar não vem com uma boa dose de paciência necessária para atravessar essa fase tão importante para a autoestima feminina. É no decorrer dos meses ou até anos de transição capilar que se constrói essa resiliência para lidar com algo novo.

"Existe o medo do novo, porque é um cabelo que, muitas vezes, as mulheres nunca viram", observa a cabeleireira Lu Muriell, proprietária do Salão Flozô.

"Muitas começaram a alisar quando ainda eram crianças, então, não reconhecem o próprio cabelo natural. E mesmo quando se lembram desse cabelo de quando eram crianças, hoje, dez, quinze anos depois, não é o mesmo, porque a gente passa por muitas mudanças hormonais e tudo influencia", explica a profissional.

Legenda: O antes e depois da Rachel Carvalho: "Eu me sinto mais empoderada".
Foto: Arquivo pessoal

 
Apesar dos desafios de lidar com a transição, a mudança capilar se revela um período de redescobertas e transformações internas. “Me fez descobrir mais uma versão minha, mais natural e mais feliz”, considera a publicitária Mariana Marques,39 anos, que resolveu parar com o alisamento por se identificar com um estilo de vida mais natural.

Para a UX/UI Designer Rachel Carvalho, 23 anos, apesar do período difícil, ter o cabelo natural novamente significou uma nova percepção de si. “Eu me sinto uma pessoa mais empoderada quando estou de cabelo solto. É algo que me dá mais confiança”, entrega.

Big Chop: cortar ou não cortar

Ver a raiz crescendo, o volume aumentando e a falta de definição do cabelo pode ser muito desanimador nesse tempo de espera. É preciso tomar alguns cuidados para preservar a saúde dos fios e ter criatividade na hora de arrumar. “Ver a raiz crescendo era difícil, então eu fazia escova sempre que possível. Pensei em desistir várias vezes, fui alvo de muitas piadas, mas estava determinada a continuar”, conta Rachel Carvalho.
 
Quem não quer esperar muito tempo e não tem paciência para ir cortando aos poucos, recorre ao famoso Big Chop, um corte que busca eliminar ao máximo a parte alisada para dar mais forma aos cachos. Esta foi a decisão da Mariana Marques, que decidiu cortar o cabelo bem curtinho e acompanhar o crescimento dos fios naturais. “Eu dei um passo importante para a transição e foi legal cortar o cabelo curto, vê-lo crescendo e tomando lugar”, conta a publicitária.
 
Mariana alisava o cabelo desde os 14 anos e já passou pela transição por três vezes. Nesta terceira e mais recente, pulou a fase mais difícil da transição para o Big Chop e não se arrepende.

“O cabelo já foi crescendo mais saudável, encorpado, viçoso, brilhoso e mais fácil de tratar, porque o produto penetra melhor. Então, eu não sofri, mas já tinha feito outras transições em que meu cabelo não ficava nem liso, nem cacheado, o que foi péssimo pra minha autoestima na época. A melhor coisa que eu fiz foi esse big chop porque não tive que passar por essa fase de viver de coque ou ficar indo no salão tirar as pontas pra ver se o cabelo crescia”, explica.

Legenda: Mariana Marques: O big chop foi a melhor decisão.
Foto: Arquivo pessoal

 
Para a cabeleireira Virgínia Sanchez, visagista e especialista em cabelos crespos e cacheados, o big chop é o início de um novo ciclo. “O que observo nas clientes é que na maioria das vezes representa o fim de um ciclo e a assinatura de um estilo próprio”, afirma. Para Lu Muriell, é um marco na transição. “É um marco de quando a pessoa está finalmente se libertando daquele padrão. Muitas vezes de uma construção de pensamento, de ideais”, reflete.
 
Esse era o pensamento da Luiza Nara quando decidiu fazer o corte quase um ano e meio depois de parar com o alisamento. Ao se ver finalmente com o novo visual, um cabelo mais curtinho, com cachos bem definidos, ela ficou emocionada com o resultado. “Eu estou me sentindo renovada com a realização do processo de transição”, disse. A Sisi acompanhou o Big Chop da Luiza no Salão Flozô e conferiu o antes e o depois do cabelo dela.

Assista ao vídeo

 

Desistir também é uma opção

A transição nem sempre chega ao fim por várias questões e desistir também faz parte do processo. Foi o caso da enfermeira e professora Lorena Bezerra Feijó, 28 anos. Ela conta que durante o primeiro lockdown se sentiu estimulada a deixar o cabelo mais natural, pela influência de outras mulheres e também pelas conveniências do home office.

“Eu não tive muitas dificuldades por conta do momento que a gente estava vivendo, o isolamento, ninguém saía, então eu não estava ligando muito pra estética. Como sou professora, dava aula online e conseguia disfarçar, naturalmente, fazendo um coque no cabelo”, conta.

Legenda: Lorena Bezerra: desistir da transição também faz parte do processo.
Foto: Arquivo pessoal

 
Mas com o retorno das atividades, Lorena confessa que ficou mais desafiador manter os cuidados capilares, tendo uma rotina intensa. “Um dos motivos que me fizeram parar o processo de transição foi porque, como faço musculação, treino crossfit, todo dia eu tinha que lavar o meu cabelo e tinha que ter aquela rotina de trinta, quarenta minutos para finalizar o cabelo. Eu estava perdendo muito tempo do meu dia, que já é muito corrido”, explica Lorena, satisfeita com a escolha e com a aparência, tanto de cabelo liso, como cacheado.

Rede de apoio

Muitas vezes desistir de concluir a transição capilar está relacionado com falta de apoio de familiares e pessoas próximas. “É um processo demorado, porque não existe nada milagroso que vai fazer o cabelo crescer do dia pra noite”, analisa Lu Muriell.

“Então, é um processo que demora um ano, dois anos, principalmente se a pessoa não quer um cabelo muito curto. E nem todo mundo consegue ter essa paciência. Eu diria que é o apoio que falta, de se sentir amparada, desejada e amada durante esse processo”, completa.

Legenda: Lu Muriell: A mulher precisa de uma rede de apoio no período da transição.
Foto: Arquivo pessoal

 
Para Luiza Nara contar com o suporte de familiares foi fundamental para completar a transição capilar. “Foi importante no meu processo de aceitação e de conhecer esse mundo dos cachos, de saber que produtos usar, como cuidar e arrumar. Eu acredito que a rede de apoio para mim foi essencial, porque me ensinou e mostrou que não é uma coisa de outro mundo”, simplifica.


Assuntos Relacionados