Artigo: Mãe, eu não pedi para nascer!

A convite da Sisi, a psicóloga Wládia Medeiros Amorim escreve sobre como a relação com a mãe afeta a vida adulta e os demais relacionamentos.

Legenda: "A personalidade começa a se formar ainda dentro do útero materno", afirma a psicóloga Wládia Medeiros.
Foto: Banco de Imagens

"Mãe, eu não pedi para nascer!". Quem de nós não disse, ou pensou em dizer, essa frase para nossas mães? Mas qual a origem da mesma? Vamos compreender melhor a complexidade dessa frase repleta de dor e, muitas vezes, transmitida pela raiva.  

Todos os estudiosos da psique humana são unânimes em ressaltar a importância da vivência infantil na formação de uma personalidade saudável. Em especial, na minha fala, irei me deter na vinculação mãe e filho (a) e como esta impacta, de forma geral, os relacionamentos constituídos pelo filho(a) na idade adulta.  

A nossa personalidade começa a se formar ainda dentro do útero materno, isto é, se inicia muito cedo e se remete também ao desejo da mãe por aquela gravidez e tudo que ela envolve: questões familiares, financeiras, conjugais, emocionais, existenciais, físicas, etc. Desse modo, o processo de vinculação mãe-filho representa o elo mais forte que conhecemos. Estamos falando de origem, o princípio de tudo.  

A função da mãe no sistema familiar, independente de sua configuração, é a de acolher, proteger e orientar aquela criança diante de um mundo de prazeres, regras, leis e interdições. Quando esse papel não é cumprido de forma adequada (superproteção, dificuldades de impor limites, abuso de autoridade, inversão de papéis, etc.), a criança se tornará um adulto com dificuldades em tomar, para si, a sua vida e vivê-la de forma prazerosa, responsável e feliz.  

Esse adulto que não se vinculou da forma adequada com sua mãe, tenderá a se colocar no papel de vítima e/ou algoz, em seus relacionamentos. No entanto, o que existe por trás desse adulto é uma criança desamparada. Algumas se tornarão futuras mães, com muitas questões psicoemocionais para resolver em si e já tendo a função de cuidar do outro.  

Se de alguma maneira você se percebe nessa condição, está tudo bem! Afinal, não aprendemos na escola como ser mães, não é verdade? Você já deu o primeiro e importante passo, que é entrar em contato com as suas dificuldades, o próximo passo será cuidar de sua criança interior.

Aliás, você sabia que a criança que você foi um dia, ainda mora dentro de você e é representada pelos seus sentimentos?  

Quando nos tornamos adultos, somente nós podemos nos dar o que precisamos, pois agora só você pode dar a si mesma o que você precisa: amor, aceitação, proteção e orientação.  

Outro passo importante é perdoar seus pais. A sua mãe, assim como você, veio de um sistema familiar que pode ter lhe deixado muitas dores. Ela fez o que pôde. Seja uma “ mãe generosa e curadora” para com você mesma! 

Nesse momento, trago algumas contribuições de Bert Hellinger (criador da Constelação Familiar) que em suma nos diz: “Não importa quem os seus pais foram e o que eles fizeram, porque eles te deram o bem mais precioso: a sua vida!”. Hellinger afirma ainda que o sucesso tem relação com a qualidade da relação que temos com nossa mãe. 

Se o filho(a) não aceita a mãe como ela é, colocando-se numa posição de superioridade, mesmo que inconsciente, ele(a) encontra-se fadado(a) a uma vida desconectada, vazia, procurando substitutos para dar conta dessa “falta” primordial. 

Rejeitar a mãe é como se fosse rejeitar “a felicidade”. Desse modo, o sucesso vem quando honramos nossa mãe.  Quando aprendemos a honrar nossa mãe, somos invadidos (as) por uma completude e não mais tendemos a buscar em objetos, situações e nas pessoas, a conexão tão desejada, fruto da nossa vivência infantil. Ao fazermos isso, estamos abrindo possibilidades para progredir, liberando amarras, percebendo-se merecedores de uma vida abundante e próspera em todos os sentidos.  

Nos permitimos amar e sermos amados (as) na medida certa. Em nossos relacionamentos existe equilíbrio entre o dar e receber. Deixamos de “procurar”, ou “projetar”, no(a) outro(a) a nossa salvação e completude. Não desejamos mais “a nossa cara metade”, porque inteiros já somos! 

Honrar é diferente de amar. É verdade que algumas mães não é possível amar, mas, enquanto não aceitarmos a história dela, suas dificuldades e limitações, não conseguiremos “andar” pela vida de forma fluida. Seguiremos pela vida como uma “criança”, mendigando amor e conexão, ou mesmo querendo controle absoluto desta.  

Enquanto estamos presos (as) no julgamento e condenação de nossas mães, estamos condenando a nós mesmos à vivencia de relacionamentos abusivos, desequilibrados e emocionalmente frágeis onde as emoções raiva, tristeza e medo, predominam nos tirando a alegria de viver.  

É verdade que não pedimos para nascer! Mas é verdade também que estamos vivos e por isso, devemos honrar, agradecer aos nossos pais, à nossa mãe! 

Que tal experimentar trocar o “mãe, não pedi para nascer”, por “gratidão, mãe, pelo meu viver!”?  

  

Legenda: Wládia Medeiros, psicóloga
Foto: Divulgação
 

Wládia Medeiros Amorim (@wladiamedeiros) 

Filha única de Elma Medeiros e Francisco Alves de Amorim, mãe da Marcella Medeiros, psicóloga há 28 anos, com formação em Gestalt terapia, Constelação Familiar, Análise Quântica, Terapia Holística e Psicologia e Yoga. Especialista em Psicologia Cognitiva, Positiva, Transpessoal e em Eneagrama. Mestre em Psicologia. Professora Universitária. Fundadora da ONG de Psicologia e Desenvolvimento Humano- Frequência Positiva.  


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