8 de março, um dia para ressaltar o quanto as mulheres podem tudo

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a SISI traz depoimentos de mulheres que refletem sobre a figura feminina nos tempos atuais, em meio a uma pandemia e mudanças sociais

8 de março, Dia Internacional da Mulher, uma data foi estabelecida desde 1977 pela ONU (Organização das Nações Unidas). Certamente, caso você seja mulher, já recebeu algum “mimo” ou  felicitações nesse dia, seja no trabalho, na família ou amigos. Mas o que todos precisam ter em mente é a importância dessa data,  que vai muito além desejos rasos de um ‘feliz dia’. 

O dia de hoje tem como principal objetivo retificar o reconhecimento e a importância da mulher perante a sociedade, que há gerações se caracteriza de forma machista. O dia expressa as conquistas realizadas até hoje por diversas mulheres que lutaram pelo voto, pelo direto de trabalhar, por salários igualitários e por reconhecimento de mercado e, principalmente, pelo poder de escolha e de liberdade

Mas, em meio a um ano atípico, com uma pandemia que mudou totalmente o mundo, todos nós estamos, de uma certa forma, cansados de tantas lutas diárias, não é mesmo?

Por isso, a SISI selecionou depoimentos de mulheres que contam o que elas tem feito para combater as dores e desafios desse período tão difícil. Como elas buscam fortalecimento diante de tantas adversidades, o que as motivam a continuar. 

Afinal, como é ser mulher nesse período que estamos passando?

Mirian Lustosa

Mãe de 4 filhos, dois deles diagnosticados dentro do transtorno do espectro do Autismo (TEA), cofundadora da Liquens, projeto de impacto social.  

“Mulher é perseverar, é nunca desistir, mesmo nos momentos mais desafiadores, nunca perder a doçura e a fé, usar os desafios para se reinventar e seguir em frente. O que me motiva a continuar e não desistir são nossos filhos, principalmente os mais novos, gêmeos autistas, e a busca por uma sociedade mais inclusiva! Esse período não foi fácil para ninguém, imagina para quem tem pessoa(s) na família com deficiência. Nesse momento difícil, eu e minha família decidimos promover o bem, contribuindo de várias formas com a Associação Espaço do Autista, com recursos financeiros para manutenção na sede e despesas do cotidiano, distribuição de cestas básicas para as famílias associadas, equipamos as salas de fisioterapia e de atendimento psicológico. Outra ação que fizemos foi promover “vakinha” virtual para aquisição de cadeira anfíbia para projeto de surf adaptado na Praia do Futuro. Promovemos apoio e orientação às familiares e pais, que receberam o diagnóstico de transtorno do espectro do autismo. Nesse momento de incertezas, dúvidas e inseguranças é fundamental encontrar suporte através de conversas com que já vivenciou essa situação, trazendo a essas famílias uma palavra de conforto e os possíveis caminhos a seguir nesse momento difícil”. 

Di Ferreira

Artista, produtora musical e cantora. 

"Ser mulher, nesses últimos tempos, é sobre estar com sangue nos olhos pela própria reparação histórica. Usar qualquer lugar de privilegio em relação a história de outras manas, formar blocos e se ajudar, mover as coisas. É sobre não se conformar. Sair da inércia. Se conectar com a magia do ciclo menstrual. Viver a espiritualidade. É sobre usar todas as munições que adquiri dentro de mim e ocupar os espaços que me foram negados. Sobre amor. O amor das pessoas que formam meu alicerce, sempre aponta pra um lugar onde vale a pena viver, experienciar, se melhorar, tornar a vida de outras pessoas mais viável, reverberar o amor que recebo pro mundo.  Na pandemia tenho tentado sempre andar com alimentos no carro pra dar no sinal, quando tenho grana faço uma transferência para algum artista (abraçando minha classe), compro uma cesta básica pra alguém, etc. No campo da emoções, eu sou uma pessoa meio viciada em processos e profundidades humanas. No meu trabalho falo sobre temas que me abalam, sobre curas, terapia, tento partilhar meus sentimentos com o fim de nos curarmos todes. Falar é cura e ouvir mais ainda!" 

Laura Escóssia

Cardiologista, mãe de dois ainda pequenos e trabalha na linha de frente ao combate do Corona vírus nos hospitais de Fortaleza.

“Eu acho que ser mulher nessas horas é como diz a música: “dizem que a mulher é um sexo frágil, mas que mentira absurda...”. Eu acho que ser mulher é não temer, é a gente saber que hoje pode chorar, mas que amanhã vai vir um dia melhor.  Apesar de tudo que a gente já conquistou, ainda sim, existe muito preconceito principalmente nos ramos de chefia e coordenação. Eu sou coordenadora. Das oito unidades, só duas são coordenadas por mulheres, o resto são todos por homens. A gente precisa se fortalecer de que a gente jamais foi um sexo frágil.  O que me motiva a continuar é a fé. A fé de que as coisas vão melhorar, a perseverança e a vontade de que isso tudo passe e que eu possa fazer diferença na vida dos doentes.  Uma das coisas que eu comecei a fazer foi falar de Deus para os pacientes. Independente da religião eu cantava louvores, eu cantava músicas para eles e eu via que aquilo ali dava um confronto para eles, mesmo longe das famílias era como se aquilo trouxesse um certo conforto. E ver aqueles pacientes saindo foi me enchendo de esperança e de autoconfiança de que eu podia mudar, que eu podia fazer diferente, eu podia mudar a evolução da situação. Foi isso que me fez seguir adiante.”  

Alexsandra Ribeiro (Dinha)

É artista urbana, ilustradora, tatooart, empreendedora, produtora cultural e multiartista. Nasceu em Recife mas mora em Fortaleza desde 2008. 

“Ser mulher, no meu caso, uma mulher negra que sempre esteve as margens e que agora corre dez vezes mais para recuperar algo que não lhe foi oferecido, mas que quer vencer e resgatar todas as informações que lhe foram negados a tanto tempo. Mas, estou há quase 13 anos na arte urbana e se não fosse minha caminhada e a construção de minha trajetória acredito que poderia estar bem pior. Hoje nem reclamo, só agradeço. Mesmo assim ainda é complicado pelo fato de ainda não termos a vacina, não termos um governo de verdade, ainda é difícil acordar querer correr e não poder porque ainda estamos estagnado e não podemos avançar.  O que me motiva é a esperança de dias melhores. Tem um ditado que diz: ‘O choro pode durar uma noite, mas alegria vem pela manhã’. Na pandemia me vi impossibilitada de ocupar as ruas. Porém, no finalzinho de 2020 participei de um evento de grafite realizado em uma comunidade da cidade de Fortaleza e, como sempre, retratei uma mulher negra expressando essa sensação de esperança por dias melhores. Meu trabalho é voltado na questão de representatividade, negritude, espiritualidade. Lembro de, ao concluir este trabalho, ver e ouvir relatos de pessoas, de mulheres e crianças negras pararam para admirar o trabalho. De alguma forma eu vejo meus trabalhos impactando pessoas que há tanto tempo não se sentiam representados pela mídia, pela arte. De certa forma me fez e faz refletir que consigo, através da minha arte, influenciar e impactar de uma forma positiva as pessoas”. 

Iarla Carolina

Radialista de formação, supervisora da programação da TV Diário e locutora publicitária. 

“Ser mulher é simbólico. Engraçado porque eu quando era mais jovem eu queria ser menino, eu não queria ser uma menina, mas era por uma questão de eu olhar e falar assim: ‘Gente, porque os meninos têm tanta liberdade de fazer a coisas que eles querem? Eu quero ser igual a eles’. Eu não entendia ainda o peso que é ser mulher nessa sociedade que a gente vive. Depois eu entendi que isso é uma questão cultural e estrutural. Então, eu fui sendo o oposto do que a sociedade esperava de uma menina recatada e comportada. Para mim, ser mulher é lidar com tudo isso desde sempre e fazer isso com uma sensibilidade, de uma forma sensitiva mesmo. O que me motiva a continuar lutando e acordando todas as manhãs é a minha família, na minha mãe, na fortaleza que ela é para mim. Se a gente vive a vida sem esperança, a gente não tem vida, entende? Então, o meu propósito, além de dar tudo que eu puder oferecer à minha mãe, é me tornar uma mulher melhor todos os dias, de aprender e contribuir mais. O meu trabalho é uma ferramenta disso, é uma ferramenta de como eu posso contribuir para a sociedade de alguma forma”. 

Alí Nacif

Comunicadora e gestora cultural

"Ser mulher é algo que descubro a cada dia. Ser livre, amar meu corpo e suas formas, olhar no espelho todos os dias e se conhecer é realmente desafiador e ao mesmo tempo é mágico. Uma das coisas que sempre me motiva a continuar foi ter aprendido a observar. Passei muito tempo ouvindo clientes no balcão do meu bar e sempre me admirava com as histórias aleatórias dos outros isso foi formando uma capa protetora. Ouvir suas histórias me deu vontade de continuar naquela época e hoje eu tive que ir ressignificando porque não temos mais essa vantagem de estarmos perto um dos outros.  Em 2020, quando descobri meu segundo câncer, a mãe de uma grande amiga, a Mica, também recebeu o mesmo resultado. E foi tão importante poder compartilhar com ela, trocar experiências e tentar ao máximo ajudar aquela mulher aceitar e buscar formas claras de viver e acreditar que é capaz, que a cura é possível. E por sinal ambas estamos curadas, isso é grandioso. Então, posso dizer que uma das coisas que me fazem continuar é saber que não estou só, no meio disso tudo tem outras pessoas que estão também disponíveis para me ouvir e eu a elas".

Mar

Artista urbana, trocou a profissão de arquiteta em São Paulo para viver de arte pelo mundo 

"Mulher é sinônimo de resistência e acho que esse momento é um pouco do que todo mundo tá vivendo, é resistir, é sobreviver. Esse instinto natural de sobrevivência. Essa mulher guerreira que mesmo com todas as condições contra, ela continua, ela está ali forte, ela chora, mas ela não abandona sabe? A arte me mantém focada porque a arte é minha luz mesmo, ela é minha guia, ela é tudo pra mim.  Eu participei de um projeto social, chamado 'spray do bem' que a gente pintou algumas latas de spray e essas latas foram para venda através de galerias de arte urbana em São Paulo. As latas foram vendidas e o dinheiro foi revertido para kits de higiene e cestas básicas para moradores de rua. Desde o início da pandemia eles estão mais invisíveis socialmente, o governo não está nem aí e, querendo ou não, eles são os moradores do nosso espaço, a gente que é artista urbana, a gente pinta na rua então a gente tem uma conexão forte com moradores de rua. Definitivamente, esses últimos tempos tem sido muito difícil. O fato de eu não poder pintar na rua, os festivais de grafite não estarem acontecendo, as coisas tem ficando bem complicadas”. 


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