XI Conexões Itaú Cultural alarga olhares sobre difusão da literatura brasileira no exterior

Evento aconteceu em São Paulo nos dias 3 e 4 de dezembro, na sede do Itaú Cultural, reunindo expressivos nomes para debater relevantes temáticas

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Mesas, como esta dedicada à tradução, mergulharam o público em diferentes temáticas sobre a literatura Foto: Agência Ophélia

Sempre vasto, o âmbito da literatura há muito deixou de ser encarado como hermético. A abundância de atividades e práticas no setor têm alavancado novas aproximações com diversidade de abordagens, fazendo com que o raio de alcance da produção em letras possa atingir variados públicos, germinando outros olhares.

Nesse sentido, o Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural - que chegou à 11ª edição nos últimos dias 3 e 4 de dezembro, na sede do Itaú Cultural (SP) - continua sendo um dos mais importantes eventos no segmento, ocupando a dianteira no que diz respeito principalmente à discussão e catalogação do alcance da produção literária brasileira no exterior.

A concepção do projeto nasce em 2007 exatamente com esse princípio: mapear a presença das letras nacionais lá fora. O resultado, a partir de diferentes trabalhos e debates - levando em conta o ofício de 347 profissionais de 42 países, ligados a 166 instituições de pesquisa e ensino - traduziu-se no mais completo banco de dados sobre a temática. Neste ano, o cinema também foi incluído como expressão fomentadora de investigação dentro do recorte do programa.

Com um público cativo de dezenas de pessoas em cada encontro, seis mesas de debates foram realizadas durante os dois dias de evento, reunindo mais de 20 especialistas do Brasil e do mundo em acalorados diálogos. Estudantes, professores, editores e pesquisadores também compareceram à Sala Multiuso do equipamento, a partir de inscrição gratuita.

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Primeira mesa do evento contou com a participação de Nadia Battella Gotlib, Gonzalo Aguilar, Carlos Minchillo e mediação de João Cezar de Castro Rocha Foto: Jéssica Mangaba

Além dessa programação, algumas oficinas foram realizadas - sobre o processo de tradução do livro "Grande Sertão: Veredas", com Alison Entrekin; e outra a respeito de estudos e relatos fundadores da cultura brasileira e identidade nacional, com João Cezar de Castro Rocha.

Perspectivas

Foi Castro Rocha também o mediador da primeira mesa do evento deste ano, intitulada "Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Clarice Lispector: Estudos de Caso". O foco da conversa - que contou com a fala de Carlos Minchillo, Gonzalo Aguillar e Nadia Battella Gotlib - girou em torno da repercussão da obra, no exterior, dos três autores mencionados.

Professor de Literatura Brasileira e Portuguesa na Universidade de Buenos Aires, Gonzallo Aguilar transitou entre as distintas perspectivas de críticos literários frente ao ofício de Guimarães Rosa para situar o alcance dos escritos do autor mineiro lá fora.

Por sua vez, mergulhando na produção de Érico Veríssimo, Carlos Minchillo, professor de literatura e cultura brasileiras no Dartmouth College (EUA), fez um passeio pela recepção do escritor fora do Brasil para justificar o porquê de, em termos de autor internacionalizado, ele ser considerado praticamente morto.

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Kathryn Sanchez, em mesa com Leila Lehnen e Richard Gordon, debateu sobre estudos do Cinema Brasileiro no exterior Foto: Agência Ophélia

Nadia Batella Gotlib, ao mencionar Clarice Lispector, trouxe à tona a vastíssima quantidade de traduções pelas quais a obra da ucraniana radicada no Brasil ganhou - são mais de 500. A professora de literatura brasileira da Universidade de São Paulo (USP) também abordou os bastidores das traduções dos livros e como o cinema atuou na divulgação das obras.

Leituras

Ainda no dia 3, "Estudos do Cinema Brasileiro no Exterior" trouxe Kathryn Sanchez, Leila Lehnen e Richard Gordon compartilhando experiências em sala de aula envolvendo o cinema brasileiro.

O consenso no qual os especialistas chegaram é que encontrar filmes do Brasil fora dos limites tupiniquins ainda é bastante difícil, sobretudo considerando as traduções dos longas. Assim, as plataformas digitais de streaming são apontadas como ferramentas oportunas para que estudantes de todo o mundo possam acessar o que estamos fazendo na telona.

Sob outro aspecto, a última mesa do dia contou com a participação de Kenneth David Jackson, Leonardo Tonus e Šárka Grauová para discutir "Estudos de Literatura Brasileira no Exterior". Mediado por Veronica Stigger, o diálogo abrangeu várias perspectivas acerca do assunto, como, por exemplo, o fato de, na República Tcheca, o português ser encarado como "língua-orquídea": bela, mas custa caro; e a ideia de que é impossível pensar a literatura sem interdisciplinaridade, nos convocando a encarar o âmbito do trans nas letras.

Mergulhos

No último dia de evento, a mesa "A Tarefa da Tradução" trouxe Rita Palmeira mediando o debate entre Alison Entrekin, Chika Takeda e Flora Thomson-DeVeaux. Elas comentaram, respectivamente, sobre o processo de tradução da obra-prima de Guimarães Rosa; como a leitura de clássicos brasileiros vertidas para o japonês, feito "Memórias Póstumas de Brás Cubas", resgataram o lado humano dos orientais; e os caminhos de entendimento para as ambiguidades de Machado de Assis.

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O premiado escritor mineiro Luiz Ruffato participou de mesa mediada por João Cezar de Castro Rocha Foto: Agência Ophélia

A segunda mesa do dia, "Literatura Brasileira no Exterior: Edições Hoje", contou com a fala de John Naranjo sobre o trabalho realizado por ele com a literatura do Brasil na Colômbia. O gestor também situou aspectos relacionados à formação de um ecossistema editorial favorável à circulação de autores nacionais e estrangeiros.

Além de Jonh, Luiz Ruffato também apresentou impressões sobre a temática na mesa. Assumindo visão pessimista, o premiado escritor mineiro afirmou que quanto menos o Brasil tiver importância na geopolítica mundial, menos a literatura ganhará importância, e vice-versa.

O diálogo foi endossado pela tradutora e escritora Paula Anacaona, que, em 2009, criou a editora Anacaona para divulgar a literatura brasileira na França. Segundo ela, o trabalho é árduo, tendo em vista que há ainda muitas pessoas do hemisfério norte que desconhecem a cultura do Brasil.

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O escritor e palestrante Olívio Jekupe participou do evento levantando reflexões acerca do difícil convívio entre as línguas brasileiras originais e a língua portuguesa Foto: Jéssica Mangaba

O ciclo de debates finalizou de forma a compreender como povos preservam línguas autóctones num cenário em que o idioma português se tornou hegemônico após a colonização. A mesa "A Contaminação da Cultura no País e a Diáspora como Declínio da Língua" - parceria entre o Itaú Cultural e o Prêmio Oceanos - contou com a presença de Olívio Jekupe (Brasil), Adelaide Monteiro (Cabo Verde) e Nataniel Ngomane (Moçambique).

Na conversa, ficou marcada a força do registro oral em cada nação e a necessidade de valorizá-lo; a imersão no termo transculturação como maneira de denominar processos de perda, ganho e/ou invenções linguísticas quando do encontro de idiomas; e a conclusão de que as línguas denotam realidades, sendo necessário pensá-las de modo consciente e crítico.

*O jornalista viajou a São Paulo a convite do Itaú Cultural