“Se escrevo, é para derrubar muros”, afirma escritor angolano Eduardo Agualusa durante Bienal

Em entrevista ao Verso, um dos autores integrantes da XIII Bienal do Livro do Ceará fala sobre projetos, processo criativo, fronteiras e visão do Brasil atual

Image-0-Artigo-2571166-1
Um dos grandes escritores em língua portuguesa, Agualusa fez fala inspirada na Bienal do Livro Foto: Felipe Abud

José Eduardo Agualusa é contido em gestos e palavras. Mas se agiganta toda vez que fala sobre a matéria-prima que escolheu trabalhar, a literatura. Angolano de Huambo, mudou-se ainda jovem para Portugal a fim de estudar Agronomia e Silvicultura. Rumou tempos depois, contudo, para o jornalismo e a escrita literária, terreno este em que se destaca internacionalmente.

Entre outros reconhecimentos, tem livros traduzidos para mais de 25 idiomas e, em 2016, foi um dos finalistas do Prêmio Man Brooker, pelo romance "Teoria geral do esquecimento". Ocupa, assim, importante lugar no time dos grandes escritores em língua portuguesa.

A obra em questão foi a escolhida por ele para leitura no início da mesa "Viajantes: lugares do mundo", na qual participou ao lado de Tércia Montenegro, com mediação de Cleudene Aragão, no último sábado (17), na Sala Terreiro em Sonho, no Centro de Eventos. O momento integrou a programação da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará e reservou ao público instantes de mergulho nas cartografias artísticas dos autores.

Após o diálogo e sessão de autógrafos da qual participou, Agualusa - cujo sobrenome significa "água calma e limpa", em sintonia com o semblante sereno que carrega - conversou com o Verso sobre como as cidades atravessam suas obras, a sintonia entre as literaturas africanas e nordestinas, e sobre o Brasil de hoje.

Verso: A partir do tema da Bienal do Livro do Ceará deste ano, como as cidades integram seus livros?

José Eduardo Agualusa: Eu viajo muito. E essas viagens me ajudam a escrever. A cidade na qual mais situo minhas obras é a capital da Angola, Luanda. Mas tenho, por exemplo, um romance cuja ação ocorre no Rio de Janeiro, outro que se passa em Goa, na Índia. Então, para mim, são sempre lugares de descobertas, bem como de surpresas.

Verso: Você escreve romances, contos, poesias. Como é o processo criativo para trabalhar com esses distintos gêneros?

Agualusa: Não é muito diferente. Simplesmente o romance é um lugar onde tudo cabe. Ele respira de uma outra maneira. É isso, é uma questão de respiração. Quando você escreve um conto, ela é outra, bem como a experiência de desenvolver o processo. Não posso dizer que um é mais fácil do que outro. São experiências distintas.

Verso: Talvez uma das maiores grandezas da literatura seja não se limitar somente ao papel escrito. Ela é plural e abarca um universo de expressões. Para você, o que é literatura?

Agualusa: Para mim, a literatura é pensamento, diálogo. É a possibilidade de você conversar com alguém. A grandeza do livro é justamente essa. O livro é um diálogo condensado. De repente, você tem a possibilidade de conversar com alguém que está distante, que escreveu aquilo estando em outro continente, e basta abrir o livro e começar a ler e começar a dialogar com aquela pessoa. E isso é o mais extraordinário, essa possibilidade.

img2
Agualusa e cearense Tércia Montenegro dividiram experiências em mesa mediada por Cleudene Aragão Foto: Felipe Abud

Verso: A Bienal tem um caráter de abrir os caminhos para que novos passos sejam dados na apreciação da leitura e do humano em si. A configuração global, contudo, tem reforçado as fronteiras. Dividido, separado. Como observa isso?

Agualusa: Vivemos num tempo estranho, de construção de muros, de pessoas que se orgulham em construir barreiras, o que é uma coisa que imobiliza. Se eu escrevo, é para derrubar muros. E acho que é isso que fazem os livros de uma maneira geral. Eles constroem pontes, conexões entre as pessoas, as aproximam, enquanto os muros as afastam. E todo o nosso trabalho deve ser com o intuito de aproximar as gentes. O meu grande combate é contra as fronteiras, contra os criadores de muro.

Verso: Tendo dividido a mesa com Tércia Montenegro, uma das mais importantes escritoras cearenses da safra contemporânea, como observa a literatura feita em nossa terra?

Agualusa: Com muita curiosidade. Acho que a literatura feita acima do Rio de Janeiro, a partir de Salvador, tem muito a ver com literaturas de origem africana. Você vê na alegria, por exemplo. Quando lemos uma obra escrita em São Paulo, a mim sempre me lembra a literatura portuguesa, bem mais pessimista e sem tanto humor. A literatura que se pratica em todo o Nordeste brasileiro é algo com muito mais humor, alegria, voltada para a vida, e isso é o que a literatura africana também faz.

Verso: Em abril deste ano, foi lançado no Brasil seu novo livro, em parceria com Mia Couto, "O Terrorista Elegante e Outras Histórias". Que outros projetos está desenvolvendo no momento?

Agualusa: Estou terminando um livro, um novo romance, que se passa em Moçambique, durante um festival de literatura. Então, estou mais focado nisso agora.

Verso: Estando no País para participar de um evento cultural, como observa o cenário dedicado a esse setor por aqui atualmente?

Agualusa: Acho que o cenário cultural do Brasil está dependente de todo o resto - que, sem surpresa, está em decrescimento. Você nota como os festivais literários estão com grandes dificuldades hoje para acontecer. Logo eles, que são de extrema importância para a divulgação do livro e para a sofisticação do leitor. Tudo devido à situação política e ao pouco interesse do Governo atual em apoiar tudo o que diz respeito à literatura e às artes, de um modo geral.

Eventos literários são muito importantes porque formam leitores. Tenho visto isso ao longo de 15, 20 anos no Brasil. A multiplicação de festivais literários foi formando novos leitores. Isso é inegável, esses festivais têm uma importância enorme nessa formação. O que eu sinto que a situação está mudando agora. Não sei o que teremos no futuro, mas é muito preocupante porque há um corte grande em tudo que diz respeito a todas as áreas da cultura, e também os festivais literários estão a sofrer com isso.

Então, não sei muito bem o que vai acontecer com o Brasil no futuro, mas já é uma pena que se perca isso. O Brasil estava mudando devido a essa proliferação de festivais literários. Alguns dos quais são realmente muito bons e já se afirmaram no panorama internacional. Um festival como a Flip é reconhecido internacionalmente. É uma pena que se perca todo esse esforço que foi feito até agora.

Serviço
XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará
De 16 a 25 de agosto, das 10h às 22h, no Centro de Eventos do Ceará (Av. Washington Soares, 999 - Edson Queiroz). Gratuito. Programação completa no site do evento