Paixão de Cristo apresentada em periferias e para pessoas em situação de rua tece reflexões sociais

Engajamento de comunidades e luta por melhorias e dignidade são alguns dos frutos dos espetáculos realizados nesses meios

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Em "Às Margens", a população em situação de rua vive momentos com um Cristo socialmente invisível Foto: Dyanne Pinho

Diz uma canção religiosa que "seu nome é Jesus Cristo e passa fome/ E grita pela boca dos famintos/ E a gente vê quando passa adiante/ Às vezes pra chegar depressa à Igreja". Nada mais atual. Em tempos em que a ausência de empatia mina as possibilidades de diálogo saudável e crescimento mútuo, não são raras as cenas do cotidiano cujas atitudes de doação, escuta e colocar-se à disposição parecem improváveis.

Talvez por esse motivo, momentos como o da Semana Santa, celebrada por esses dias, tragam uma mensagem capaz de ultrapassar a vertente cristã, donde se origina a milenar data: pede de nós humanidade na condução das atividades rotineiras, atitude válida para todas e todos e em qualquer período do ano. Gestos que se traduzem no pequeno das coisas, no olhar atento para as existências ao redor.

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A trajetória de Jesus é entrelaçada com histórias de quem assiste ao espetáculo "Às Margens" Foto: Dyanne Pinho e Erick Lucas

Essa é a tônica, pelo menos, da diversidade de encenações da Paixão de Cristo pelo mundo. Em Fortaleza, quando apresentado no seio de realidades em que imperam a vulnerabilidade social e o descuido do poder público, o tradicional espetáculo parece reacender ainda mais o verdadeiro espírito desse tempo de convite à sensibilidade e mudança. Mas não apenas: coloca em pauta simbolismos que chamam a atenção para a dignidade social a partir da perspectiva dos que vivenciam uma lacuna nesse meio.

São nuances expressas pela fala segura do ator Thyago Câmara, que interpreta Jesus no espetáculo "Às Margens", do Grupo Avia de Teatro. Desde o ano passado, a peça, envolvendo cerca de dez profissionais das Artes Cênicas, é voltada especificamente para pessoas em situação de rua do Centro da cidade. Neste ano, será vivenciada na Praça do Ferreira e na calçada do Theatro José de Alencar, respectivamente às 14h e 16h desta quinta-feira (18), imergindo em aspectos caros ao público-alvo principal.

"Jesus é apresentado muitas vezes da mesma forma em vários espetáculos. A mesma figura, mimetizada a um marco histórico, a uma época. O Jesus que trazemos é alguém que pode ser qualquer um. Que, de fato, pode vir de qualquer lugar. É um igual. No nosso caso, ele é uma pessoa em situação de rua. Uma pessoa que tá ali e muitas vezes é invisível. É um Jesus que sente diariamente o sofrimento, carrega sua cruz, em que o calvário é permanente. E que a massa não enxerga, não exalta, não encontra nele santidade. A santidade está em qualquer outro lugar, menos naquela figura que está sentada ao chão, que tá carregando seu carrinho de geladeira com reciclagem", sublinha o artista.

Nesse movimento, toda a montagem é articulada para fazer valer a provocação. A começar pela cenografia do trabalho: totalmente composta de material reciclado, oportuniza a criação de vários adereços. Latas e garrafas velhas, por exemplo, transformam-se em elementos do figurino ou incorporam a sonoplastia - aperfeiçoada por sons do pandeiro e da alfaia, típico instrumento musical percussivo do estado de Pernambuco.

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"Nosso Jesus sente diariamente o sofrimento, carrega sua cruz", sublinha Thyago Câmara Foto: Dyanne Pinho

Simplicidade

Sendo a rua palco, o vai e vem dos transeuntes faz com que eles também façam parte do espetáculo, colaborando para que tudo se transforme num grande tablado a céu aberto. "Essa ideia começou com um processo de estudo, de a gente ir lá nos albergues, conhecer mais de perto a população de rua. Depois montamos o espetáculo", explica Neide Oliveira, diretora da peça.

"Uma coisa que chama a atenção é a receptividade deles. Temos um retorno muito forte, tendo em vista que usamos músicas interioranas e adereços que lembram casa de avó, já que a maioria deles tem esse contato com parentes que não moram na Capital".

O Sagrado Coração de Jesus, por exemplo, é representado por um colar gigante feito artesanalmente por Breno Magenta, integrante do grupo, remontando memórias que insistem em permanecer. O objeto é passado de mão em mão entre os envolvidos, enquanto a história de Jesus vai sendo entrelaçada com outras histórias.

"Eles vão contando as situações que passam por estar na rua, de filhos que são mortos, de mulheres vítimas de machismo, entre outros fatos que só quem vivencia essa atmosfera sabe narrar", completa Neide.

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Neste ano, a Praça do Ferreira e a calçada do Theatro José de Alencar sediarão a peça "Às Margens" Foto: Dyanne Pinho e Erick Lucas

Thyago Câmara complementa a fala da colega ao destacar o porquê de a montagem incorporar um título cujo enfoque recai nas margens. "Nosso Jesus é uma pessoa tão comum, mas tão comum, que está às margens da sociedade. Traz a imagem de alguém que é martirizado só por ser quem é, seja por estar enquadrado dentro de algum gênero ou algum fator étnico ou racial. Basta estar dentro de alguns desses perfis para ser estigmatizado e sofrer um apedrejamento, um linchamento social. Nossa maior mensagem, assim, é de empatia", explica.

A atitude de se colocar no lugar do outro, não à toa, alerta para a tomada consciente de revitalização do ser que vive e interage socialmente. É preciso ir mais longe nesse caminhar.

"Com essa peça, me transformo em querer dar novas perspectivas. Sei que é um trabalho muito pequeno, que não é nada. Mas, para mim, é muito importante, porque o que eu levo pra cena e pelo que eu me aproximo nesse momento de quem está em situação de rua, nosso público-alvo, também me engrandece como humano. Me aproxima daquilo que é o mais importante: o outro", confessa Thiago.

Ao fim da apresentação, uma ceia é realizada com todas as pessoas presentes, revivendo o pão dividido há milênios.

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Iniciando de forma tímida, apresentações do Grupo Sagrada Família hoje possuem grande alcance Foto: Marcelo Rebouças

Conscientização

No outro lado da cidade, no bairro Ellery, a encenação da Paixão de Cristo já acontece há 24 anos, fruto da iniciativa dos membros da Igreja Nossa Senhora de Lourdes, principal casa religiosa do lugar. Durante a metade mais recente desse tempo, contudo, foi o Grupo Sagrada Família, formado por crianças e jovens da comunidade, que tomou para si a missão de perpetuar a tradição.

Diretor do trabalho, Wescley Sacramento lembra que o roteiro da apresentação, outrora aos moldes de outros espetáculos, foi se alterando aos poucos devido ao engajamento dos próprios moradores na luta por melhorias.

"Percebemos que poderíamos enfocar melhor em outros aspectos, refazendo os últimos dias de Jesus e também conscientizando a todos sobre a importância de lutar por cidadania e direitos sociais", contextualiza.

Nesta quarta-feira (17), às 19h, a trupe dá relevo a esses aspectos no Cuca do Mondubim, após percorrer os Cucas Barra e do Jangurussu, além da Praça do Ferreira. A itinerância acontece desde o dia 6 deste mês, em diferentes datas. Na sexta (19), a partir das 7h, a Via-Sacra e a Paixão de Cristo são encenadas com saída da Igreja Matriz e caminhada pelas principais ruas do bairro Ellery, envolvendo cerca de 50 moradores do local no elenco, composto em sua maioria por pessoas de 8 a 16 anos.

De acordo com Wescley, "é muito gratificante levar a encenação para outros espaços. Temos percebido que as pessoas saem reflexivas, porque a Paixão de Cristo em si já é muito emocionante, algo que é ressaltado com o roteiro adaptado, que propõe reflexões para o público, questionando o modus operandi do sistema".

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O Grupo Sagrada Família, do bairro Ellery, prima pela itinerância da apresentação, sempre levando a mensagem de engajamento social por meio dos gestos do ressuscitado Foto: Marcelo Rebouças

"A fala de Maria Madalena, por exemplo, é com base na campanha da fraternidade deste ano, que traz como tema as políticas públicas. Tentamos fazer com que as pessoas façam os questionamentos sobre o que é viver em sociedade e lutar para que ela seja justa para todos", completa, atribuindo a dimensão das ideias propostas pelo trabalho.

O artista situa ainda que demarcar essa bandeira de afirmação dos direitos dos cidadãos e cidadãs em um momento como o que vivenciamos hoje, é parte intrínseca ao que também pregou Jesus.

"O que queremos não é que a Paixão de Cristo seja somente para relembrar os últimos momentos de Jesus, mas que seja responsabilidade de todos ver que a dor Dele está nos dias de hoje, nas dores dos nossos irmãos. Dos que não têm casa, não têm comida, não têm emprego. Que são marginalizados e violentados de todas as formas. Os jovens e adolescentes que atuam na encenação também participam das capacitações, debates e se envolvem em todo o processo, assim como os pais e outras pessoas da comunidade, que ajudam na construção dos figurinos, palco, apoio".

Iniciada de forma tímida na própria comunidade, a montagem atualmente conta com as estruturas dos próprios locais em que realizam as apresentações para ressoar as mensagens que almejam. Além disso, contam também com apoios institucionais, concorrendo inclusive a editais de cultura.

"Isso tem ajudado a inovar o cenário, os figurinos, deslocamento dos materiais e da equipe. Temos um técnico de iluminação como apoio, e alguns materiais como painel de fundo para as cenas, além de instrumentos que fazem parte da encenação, entre outros", enumera o diretor do espetáculo.

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Aproximadamente 50 crianças e jovens participam diretamente da Paixão de Cristo do bairro Ellery Foto: Marcelo Rebouças

"Há também uma pessoa da comunidade que vai nos ajudar com a construção de um palco giratório para o próximo ano", adianta.

"Somente com indivíduos que se sintam protagonistas, que amem o próximo e lutem por seus direitos, é que vamos conseguir paz e justiça social", finaliza.

Veja a lista de apresentações da Paixão de Cristo em Fortaleza, na RMF e no Interior:

Quarta (17)

Paixão de Cristo do Grupo Sagrada Família
Às 19h, no Cuca do Mondubim (Rua Marlúcia, sem número, Mondubim). Apresentação também na sexta-feira (19),às 7h, no bairro Ellery, saindo da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Loudes (Rua Doutor Atualpa, 430, Bairro Ellery).

Espetáculo “A Paixão de Cristo”, da Comunidade Católica Shalom
Às 19h, no Ginásio Paulo Sarasate (Rua Ildefonso Albano, 2050, Dionísio Torres). Gratuito.

VIII Procissão do Fogaréu
Às 20h, na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Fortaleza (Rua Major Facundo, 1712 - Sala 02 - Bairro José Bonifácio). Gratuito.

Quinta (18)

Espetáculo “Às Margens”, do Grupo Avia de Teatro
Às 14h, na Praça do Ferreira, e às 16h, na calçada do Theatro José de Alencar, no Centro de Fortaleza. Gratuito.

Paixão de Cristo de Pacatuba
Às 19h, no Anfiteatro da Praça da Matriz do município, e na sexta-feira (19), no mesmo horário e local. Gratuito

Paixão de Cristo do Eusébio
Às 19h, na Cidade Cenográfica Eusebelém (Av. Eusébio de Queiroz, 4600, Centro), e na sexta (19), no mesmo horário e local. Gratuito 

Sexta (19)

Paixão de Cristo do Grupo de Artes Alegr’art, do Mondubim
Após a celebração de 15h na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Avenida Wenefrido Melo, 88, Mondubim). Gratuito.

Paixão de Cristo do Maracanaú
De 15h às 20h, na Rua Capitão Valdemar de Lima, Maracanaú. Gratuito.

Paixão de Cristo de Mulungu
A partir das 15h, saindo do patamar da Igreja Matriz do município. Gratuito.

Paixão de Cristo de Quixadá
Às 17h30, na Igreja Matriz de São João e Santa Edwirges, em Quixadá. Gratuito.

Paixão de Cristo de Caridade
Às 18h30, na Igreja Matriz de Santo Antônio, em Caridade. Gratuito. 

Paixão de Cristo de Itatira
Após a celebração do beijo da Cruz, na Igreja Matriz do Menino Deus, em Itatira sede. Gratuito.

Paixão de Cristo de Cedro
Às 17h, apresentação da Via-Sacra na Igreja Matriz do município. No domingo (21), Ressurreição, às 20h, Gratuito.

Paixão de Cristo de Canindé
Às 19h, na Quadra Paroquial do município; no domingo (21), apresentação às 19h30.