Opinião: Com "O Irlandês", Scorsese retorna ao mundo da máfia junto à consagrada trinca de atores

Compartilhando óbvias referências com "Os Bons Companheiros", longa detém ágil narrativa nas mais de três horas de projeção

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Apontado como um dos filmes garantidos na corrida do Oscar 2020, "O Irlandês" é Martin Scorsese em sua melhor forma

“Ouvi dizer que você pinta casas” – quem pronuncia essa frase é um mafioso logo no começo de "O Irlandês" (“The Irishman”, 2019). E o filme pode ser visto como uma trajetória para explicar essa expressão. As imagens e sons presentificam um mundo de mentira, luta pelo poder, ganância e até eventual decência.

Com a obra – inicialmente presente nos cinemas, para chegar ao catálogo da Netflix no dia 27 deste mês  o diretor estadunidense Martin Scorcese retorna ao mundo mafioso. É um tema que já lhe rendeu um de seus trabalhos mais eficientes, "Os Bons Companheiros" (“Goodfellas”, 1990), com o qual "O Irlandês" tem óbvias semelhanças, a começar do ator principal, Robert de Niro.

A trinca de atores de frente forma um dos pontos fortes do longa – exibido, em Fortaleza, em sessões de pré-estreia no Cineteatro São Luiz e no Cinema do Dragão do Mar. Eles são maduros e interpretam homens também de meia-idade, com ajuda de tecnologia informática para desempenharem os papéis quando mais jovens.

De Niro é Frank “O Irlandês” Sheeran, um veterano da Segunda Guerra que se torna caminhoneiro desonesto e é recrutado pela máfia de Russell Buffalino (Joe Pesci), o qual logo começa a empregá-lo em trabalhos sujos, inclusive assassinatos.

É Russell que indica Frank para ser guarda-costas de um amigo, Jimmy Hoffa (Al Pacino), o carismático e desonesto líder dos caminhoneiros americanos. A partir desse momento, a trama se encaminha para um dos maiores mistérios da máfia estadunidense, o desaparecimento de Hoffa em 1975, sem que nunca seu corpo tenha sido encontrado. Personagens políticos como Robert Kennedy fazem aparições menores na trama.

"O Irlandês" tem narrativa rápida, às vezes excessivamente, o que procura amenizar com vinhetas informando o destino dos personagens, geralmente aprisionados. Trata-se de filme de Diretor de mão segura, que faz com que o filme não canse, apesar das mais de três horas de projeção. E o espectador sai com uma ideia do que na máfia significa a gíria “pintar casas”.

*Paulo Avelino é contista e romancista cearense