Livro investiga devoção a três santos populares cearenses, lembrados sobretudo neste Dia de Finados

“Milagreiros”, escrito pela historiadora Michelle Ferreira Maia, traz as histórias de Doutor Olavo Cavalcante Cardoso, Isabel Maria da Conceição e João das Pedras

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Pequeno altar no interior do túmulo do Dr. Olavo Cavalcante Cardoso, no Cemitério São Miguel, em Crateús Foto: Michelle Ferreira Maia

Se, para a Igreja Católica, o processo de tornar alguém santo requer muitas etapas – somente 27 anos após a morte, a beata Irmã Dulce foi canonizada em cerimônia no último dia 13 de outubro no Vaticano, obtendo o título de Santa Dulce dos Pobres, por exemplo – o mesmo não se aplica à lógica popular. Na visão das pessoas comuns, inexiste um debate acerca do que seja ou não oficializado pela instituição, abrindo precedentes para que, elas mesmas, possam eleger os próprios modelos de santidade.

Michelle Ferreira Maia abraçou tal percepção quando a partir do contato com diferentes testemunhos de fé do povo cearense. A historiadora – graduada pela Universidade Estadual Vale do Acaraú, com mestrado em História Social pela Universidade Federal do Ceará – percorreu alguns de nossos municípios a fim de captar as nuances de uma religiosidade nacionalmente conhecida pela intensa e rica maneira de expressar a devoção, mergulhando em aspectos caros relacionados a essas práticas.

“Ao cursar o doutorado, segui desejando entender a religiosidade popular. Ampliei o objeto de estudo e percebi que haviam outros santos populares além de João das Pedras, cuja devoção a ele analisei no mestrado. E não somente isso”, explica.

“Vislumbrei que, mesmo sendo da categoria de devoção popular, ou seja, participando daqueles santos não oficializados pelo catolicismo, as diferenças no modo de demonstrar a fé podiam ser observadas, fosse na maneira como iniciaram e existiam, fosse, principalmente, no quesito de aceitação ou reprovação local”.

Neste Dia de Finados, quando o fervor espiritual atinge novas camadas, detalhes dessas impressões podem ser conferidos no livro “Milagreiros - Um estudo sobre três santos populares no Ceará”, no qual a pesquisadora examina a construção da santidade de alguns personagens da crença local: Doutor Olavo Cavalcante Cardoso, Isabel Maria da Conceição e João Ferreira Gomes, o João das Pedras.
 
A obra foi lançada nas cidades de Recife, Porto Alegre e Sobral. Neste mês, deve ganhar as vistas do público também num congresso internacional, sediado na Espanha, estendendo o raio de alcance sobre o assunto.

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Placa com oração a Isabel Maria da Conceição Foto: Michelle Ferreira Maia

Caminhos

O trabalho é fruto da tese de doutorado de Michelle em História, pela Universidade Federal da Grande Dourados, no Mato Grosso do Sul. A escolha por aprofundar os percursos dos três santos populares deveu-se à própria trajetória de vida da estudiosa, também professora universitária dos cursos de Direito e Arquitetura e Urbanismo do Centro universitário UNINTA, em Sobral. 

“Morei nas cidades em que eles são considerados imaculados, cresci em meio a essas devoções”, situa. “Em Crateús, por exemplo, acompanhava a reverência em torno de Dr. Olavo Cavalcante Cardoso”.

O médico e prefeito do município é o primeiro perfilado no livro. Ficou conhecido pelo caráter humanitário com o qual prestava serviço aos pobres. De acordo com Michelle, há falácias de muitos que se salvaram pelos atendimentos realizados por ele. Foi assassinado num conflito de terra com agricultores, em 1969

A partir do trágico acontecimento, a pesquisadora elencou alguns pontos que apresentam a construção de sua devoção: morreu jovem, assassinado barbaramente, e partiu a caminho do hospital. Aliado a isso, há ainda a alcunha de “médico dos pobres”. “Seu túmulo é o mais visitado. Ao adentrar no Cemitério São Miguel, se percebe como aquele espaço é diferente dos demais”.

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Cruzeiro em homenagem ao Dr. Olavo Cavalcante Cardoso na Fazenda Grota, em Crateús Foto: Michelle Ferreira Maia

Por sua vez, quando residia em Guaraciaba do Norte, Michelle presenciou os relatos acerca de Isabel Maria da Conceição, de como a partida da mulher-santa havia sido brutal. Ela teria cortado o cabelo sem a permissão do marido que, enciumado, acreditou que a esposa estaria o traindo.

Raimundo a conduziu, junto ao filho de três anos, à beira da serra que liga o município a outro, Reriutaba; esfaqueou a companheira e jogou o corpo no precipício, em 1929. Evadindo-se do lugar, o homem deixou a criança voltar sozinha para casa.

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Capela construída em homenagem a Isabel Maria da Conceição, no município de Guaraciaba do Norte Foto: Michelle Ferreira Maia

“Para muitos devotos de Isabel, este teria sido o primeiro indício de sua santidade. No lugar onde se deu a morte dela, foram colocados os primeiros pedidos de graças por quem acreditava que aquela mulher injustiçada poderia interceder por outras mulheres”, esmiuça a historiadora.

“Hoje, no espaço, há uma grandiosa capela de devoção, muitos ex-votos e a oração que a intitula como ‘a santa das mulheres espancadas e traídas’. A devoção a Isabel é recebida nas cidades vizinhas como uma forma de luta contra a violências às mulheres. Homens também recorrem a ela”.

Testemunho

No município de São Benedito, a devoção a João das Pedras sempre chamou a atenção de Michelle e família. Seu túmulo era o mais visitado, o que recebia mais ex-votos, e continha várias velas ao redor. Ele ficou conhecido na cidade como o ladrão que roubava dos ricos para dar aos pobres. Faleceu eletrocutado em 1978, quando tentava furtar uma casa.

“Após a morte, o corpo foi dependurado num varão de madeira e arrastado pelo centro da cidade como uma forma de punição e chacota. Os entrevistados diziam que o cortejo era acompanhado pelas frases ‘e agora ladrão, vai roubar onde?’ ou ‘recebeu o que mereceu’”, dimensiona. 

Outros moradores, contudo, acreditaram que aquele julgamento público refletia falta de compaixão e respeito, o que fez surgir, aos poucos, comentários sobre como a conduta de João era incompreensível, dado que nunca bateu em ninguém e roubava para ajudar aos necessitados. A figura do ladrão justiceiro.

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Túmulo de João das Pedras no Cemitério São Benedito, interior do Ceará Foto: Michelle Ferreira Maia

“No posto de historiadora, tenho um carinho especial pelos três santos: me construíram enquanto pesquisadora. Sempre digo que antes era apenas Michelle Ferreira Maia; agora, sou a autora dos Milagreiros”. 

De fato, ao estreitar o olhar sobre os trajetos de nossa fé, a estudiosa alimenta a observação feita por Cícero Joaquim dos Santos, doutor em História, no texto introdutório do livro. “Sua tese abre caminhos”, ele escreve. Nesta data dos fiéis defuntos, certamente a história de uma das figuras aqui descritas será lembrada e cultuada. E a máxima já será realidade.

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Milagreiros - Um estudo sobre três santos populares no Ceará
Michelle Ferreira Maia

Premius Editora
2019, 256 páginas
R$ 50