Exposição "Leonilson por Antonio Dias" chega a Fortaleza destacando amizade entre os artistas

Após passar pelo Rio de Janeiro e São Paulo, mostra entra em cartaz a partir desta sexta-feira (24), na galeria Multiarte, na capital cearense, apresentando 38 obras

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Leonilson (à esquerda) e Antonio Dias durante encontro: parceria entre os dois traduziu-se em trocas de saberes e afetos Foto: Arquivo Max Perlingeiro

Rio de Janeiro, anos 1980. Luiz Zerbini, uma namorada dele e Leonilson estavam em um Fiat Uno branco. Ao menor sinal, uma garota aparece na janela do veículo vendendo rosas. Leonilson, então, olha para ela e pergunta: “Você vende só os espinhos?”.

A cena revela uma amostra da personalidade do artista cearense, descrito como uma das pessoas mais “engraçadas, inteligentes e de rápido raciocínio”, nas palavras do próprio Zerbini. Um indivíduo atento a pormenores, cuja poética visual tornou-lhe internacionalmente conhecido e o levou a desenvolver parcerias muito marcadas pelo afeto e enriquecimento pessoal e profissional.

Nenhuma delas, porém, talvez ombreie a amizade travada com o veterano artista paraibano Antonio Dias (1944-2018). Tudo começou no outono de 1981, em Milão, Itália. Leonilson vinha de Madri e, depois de algumas xícaras de café para despertar, liga para Antonio. O diálogo entre os dois é rápido, direto, contudo foi além da barreira do telefone devido a um detalhe:

“Ele bateu à minha porta recomendado pelo Piza (Arthur Luiz Piza, artista plástico paulistano). Se o Piza indicou, deve ser bom”.

Ali era a faísca para o que depois se tornaria uma encorpada labareda de trocas, saberes, confissões e aprendizados. Relação profunda, cujas diferentes faces estão disponíveis para visualização a partir da exposição “Leonilson por Antonio Dias - Perfil de uma coleção”.

A mostra tem abertura hoje (23), às 19h, na galeria Multiarte, somente para convidados. A partir de amanhã, contudo, fica aberta ao público, podendo ser vista gratuitamente até 20 de fevereiro

Itinerante, o trabalho já passou por Rio de Janeiro e São Paulo, sempre com grande (e emocionada) adesão. Fortaleza entra na rota como o destino final porque foi onde também ela foi gestada, em outubro de 2015, por meio de conversa entre Antonio Dias e Max Perlingeiro. Este último, editor e empresário carioca no setor de cultura, foi quem conversou com o Verso para tecer comentários sobre as minúcias da exposição.

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Verso de obra sem título, criada em 1986, a partir de tinta acrílica sobre tela colada em papel-cartão

Caminhos

Ao todo, 38 obras de Leonilson pertencentes ao acervo de Antonio estarão na Multiarte. E elas já chegam com reconhecimento: a mostra ganhou o Prêmio de Melhor Exposição Nacional de 2019 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Também pudera: o material é farto e, na mesma medida, diverso, transitando entre suportes como desenhos, pinturas e objetos.

A maioria foi concebida nos anos 1980, exceto a tela em feltro e algodão, denominada “o biblioteca: o espelho”, de 1992, enviada por Leonilson ao amigo com dedicatória e uma carta, em 1993, pouco antes de sua prematura morte, aos 36 anos.

“Alguns trabalhos refletem um aspecto ainda muito juvenil do artista, quando ele conhece o Antonio. Depois, é possível perceber o seu grande processo de amadurecimento. A intenção é que o público caminhe junto aos passos de Leonilson”, afirma Max, que faz questão de enfatizar que a curadoria é totalmente de Antonio Dias.

“A única coisa que fiz com a Paola (Chieregato, esposa de Antonio) foi dividir o planejamento e organização e também realizamos uma complementação”.

Não à toa, além das peças sob posse de Dias, estarão expostas outras cinco, de coleções privadas. A intenção é apresentar aos visitantes menos iniciados na visualidade de Leonilson a potência do artista, que não se restringiu somente àquelas criações apresentadas na galeria, tendo produzido muitas mais.

Acrescentado ao acervo, também está um livro especial, homônimo à mostra, que poderá ser adquirido na abertura da exposição. Produzido pelas Edições Pinakotheke, com capa dura e bilíngue, reúne textos de Paola Chieregato e Max Perlingeiro; depoimento de Luiz Zerbini, a pedido de Antonio; uma entrevista com Thomas Cohn, galerista e amigo dos dois artistas; e uma cronologia da trajetória de Leonilson, além das obras que compõem o trabalho.

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Obra "o biblioteca: o espelho", criada em dezembro de 1992. Foi enviada por Leonilson para Antonio Dias com dedicatória e uma carta pouco antes da morte do cearense

A capa da publicação rende uma história à parte. Mostra os dois companheiros lado a lado, olhando para algo. Leo, como era conhecido pelos amigos, parece inquieto; Antonio, por sua vez, tem semblante compenetrado. E entre eles, há a estátua de um anjo.

“Essa imagem foi uma polaroide que recebi pequenininha, de Milão. Eu queria uma capa para o livro, mas ainda não tinha, e não queria pegar uma foto e outra e criar uma imagem fake. Desejava mostrar a afetividade deles. Quando recebi, sugeri à designer que ampliássemos para vermos até onde a foto resistiria. Achava que era um tronco de árvore o que havia entre eles, mas era um anjo. Olhei para ela e disse: ‘É o que a gente quer’, conta Max.

Intimidade

A tamanha profundidade com a qual Perlingeiro vai costurando a história da parceria entre os dois revela o quanto o editor visualizou tudo de perto. Segundo ele, Leonilson era muito brigão, por exemplo, e Antonio era totalmente cartesiano, não muito dado a emoções. Ainda assim, a forte parceria prevaleceu a ponto de os escritos de ambos refletirem isso.

No livro, um carinho fica bastante explícito por meio da troca de correspondências entre eles e as anotações presentes nos diários do cearense. “O caderno de viagens dele também é uma coisa muito rica, porque, além de bilhetes aéreos, tinha tickets de metrô. Era tudo aquilo que eu queria, para mostrar as intimidades”, relata Max.

“Por outro lado, as agendas diziam ‘Encontro com Antonio em Milão’, ‘Vou almoçar com Antonio’, ‘Vou pra casa do Antonio’, ‘O Antonio gostou, eu vou desenvolver esse trabalho’, e assim ia”.

Quando perguntado sobre como um enlace tão forte poderia ter sido desenvolvido entre personalidades tão diferentes, Perlingeiro atribui à intensa sensibilidade de Dias para reconhecer talentos.

“De cara, ele viu a habilidade do Leonilson. Tanto que, no primeiro dia, Leonilson mal chegou e o Antonio deu uns 10 endereços para ele, dizendo ‘vai procurar esses caras e oferece seu trabalho. Pode falar no meu nome’. O Leo chega em casa às seis da tarde com os olhos dizendo, ‘vendi tudo. Vou para Jericoacoara’. O Antonio vira e fala, ‘não vai nada, vai ficar aí agora. Você é um artista’”, recorda, entre risadas.

Tanto que a própria concepção da recente mostra respeita esse espírito de fraternidade, suplantando o componente estético. “Além de mostrar a coleção, Antonio queria que a história dos dois fosse contada. E assim acontece”. Nesse movimento, os detalhes são muito valorizados.

As inscrições que você vê na capa do caderno Verso hoje, por exemplo, estão no verso de uma peça feita em 1986 à base de tinta acrílica sobre tela cortada em papel-cartão. Ela é vermelha e ficava no quarto de Antonio Dias, sempre presa à parede. Na exposição, é mostrada suspensa para que todos possam conferir as duas faces.

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Obra "A Ponte", de 1982, feita em madeira

Importante destacar que esse espírito da mostra dá sequência a uma programação que vem abordando a amizade entre artistas, como em “Estética de Uma Amizade - Alfredo Volpi e Bruno Giorgi”, realizada no primeiro semestre do ano passado, na Pinakotheke. Feito a Multiarte, a casa artística paulistana também tem direção de Max. Após a exposição, o editor pretende, contudo, investir em outro recorte de trabalhos.

Diálogos

Quem também deve se beneficiar com “Leonilson por Antonio Dias” são as crianças. Sempre aos sábados, compondo a atividade Espaço Família, na Multiarte, pais e filhos terão oportunidade de imergir no lúdico a partir do incentivo para que as criações de Leonilson possam ser reproduzidas em desenhos. 

Perlingeiro prevê que a iniciativa deve repetir o sucesso ocorrido no Rio e em São Paulo, quando presenciou cenas muito bonitas de engajamento e encanto. “Os espaços ficaram lotados. As crianças gostam muito dele e não eram poucas as que iam. Chegavam a ser dezenas. Não estavam ali para uma atividade chata, participavam muito”.

O Projeto Leonilson – instituição sem fins lucrativos em São Paulo, criada em 1993 após falecimento do artista – entra nessa ciranda criativa exatamente por permitir a abertura dos arquivos para a mostra, considerando especialmente a troca de correspondências. Foi caminho aberto para que se pudesse pensar em como expandir o conceito firmado. 

O resultado desse belo debruçar refletiu-se em mergulhos particulares por onde as peças já passaram. “No Rio de Janeiro, por exemplo, onde Leonilson tinha muitos amigos, namorados e namoradas, todos foram à exposição”, dimensiona Max.

“No dia da abertura, eram mais de 500 pessoas reunidas e foi uma verdadeira catarse. Você via gente chorando compulsivamente. Era uma emoção que transcende qualquer coisa”.

Para a exposição em Fortaleza, cidade natal do artista, as expectativas são grandes. Segundo Perlingeiro, vai ser um grande sucesso aqui também. “A cidade merece. Alguém me perguntou certa vez, ‘mas por que levar para lá?’. E eu respondi, ‘por que não levar?’. Até porque o meu compromisso com o Antonio era que o ciclo fechasse aqui. Não poderia acontecer em outro lugar”.

Apesar de herdar a mesma proposta, o editor ainda garante que a mostra nunca é a mesma nos lugares por onde ela passou, tendo em vista as diferentes casas que abrigam os trabalhos. Então, se no Sudeste alguns painéis e espaços foram otimizados, por aqui outros matizes ganharão relevo.

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Obra de 1981, a partir de guache, lápis metálico, lápis de cor e nanquim sobre papel colorido

No fim da conversa, o tema é como a relação dos dois se sintoniza ao mundo atual. Max observa as parcerias como sendo algo muito frequente naquela época. “Os artistas tinham uma afetividade. Hoje, vivem de forma hermética, em ateliês, produzindo para um sistema, preocupados com a internacionalização. Naquela época, existia uma certa tranquilidade, e os artistas faziam tudo – capa de disco, cenário, pintavam e bordavam. E o Leonilson pintou e bordou”.

A ponte em madeira criada por ele presente na mostra reflete isso. Transparece versatilidade, polivalência. Conecta os polos. Reforça as uniões. 

Serviço
Exposição “Leonilson por Antonio Dias - Perfil de uma coleção”
Em cartaz a partir de amanhã (24), na galeria Multiarte (Rua Barbosa de Freitas, 1727, Aldeota). Visitação até 20 de fevereiro, de segunda a sexta, das 10h às 19h. Gratuito. Contato: (85) 3261-7724

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Leonilson por Antonio Dias - Perfil de uma coleção
Organizado por Max Perlingeiro
Tradução: Kika Serra

Edições Pinakotheke
2019, 116 páginas
R$ 60