"Estrigas era o que dizia e o que pintava", escreve o artista plástico Bené Fonteles

Autor do livro "NicEstrigas - Arte e Afeto", Bené expressa, em entrevista ao Verso, a saudade do amigo centenário

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"Estrigas era único: pensador e artista muito original que pintava a óleo como um aquarelista da melhor qualidade e vice versa", afirma Bené Fonteles Foto: Thiago Gaspar

Convidado a falar sobre os 100 anos de Estrigas, o escritor e artista plástico Bené Fonteles lembra a personalidade de um artista único.

Leia a entrevista:

Recorda do primeiro encontro com Estrigas? Como se deu e quais suas impressões iniciais do homem e da obra? 

Conheci Estrigas e Nice ao mesmo tempo numa visita ao Mini Museu  Firmeza em 1972. A impressão primeira sempre é que eles eram um só entidade apesar de tão diversos. Mas tinham uma generosidade irmã uma doação incondicional ao outro. Estrigas encenava uma seriedade de crítico de arte, numa postura intelectual séria, mas sempre com  um bom humor em que nele sempre se desconstruía. E eu que o conhecia por dentro e do avesso como Nice e os amigos mas chegados não levava muito a sério o homem de livros e livros sobre a arte no Ceará e o juiz de muitos salões de Abril e outros. Estrigas era único: pensador e artista muito original que pintava a óleo como um aquarelista da melhor qualidade e vice versa. Isso fica muito claro no livro que fiz sobre os dois Arte e Afeto. 

Afetivamente, quais as principais lembranças que a figura de Estrigas evoca em você? 
                        
Gosto de lembrar dele na cadeira na varanda e eu na rede a observar sua figura franzina e seu espírito forte com comentários irônicos e precisos sempre justo e ético e pela leveza e ao lado do que é belo. O mesmo depois do almoço nas redes armadas nos trilhos de trem fincados ao chão debaixo das mangueiras em longas conversas mais sobre a vida do que sobre a arte. Aliás, nunca a separamos. Guardo dele a grande sabedoria de um ser que plantou arte e um baobá e esperou 40 anos para ele crescer e deixar nele suas cinzas e uma sombra e belezas frondosas como sua arte/vida. 

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"A minha saudade da presença deles (Nice e Estrigas) só não é maior e mais sentida porque os tenho incrustados no meu ser em reverência, amor e gratidão", expressa Bené Foto: Franciso Sousa

Você acredita que ele deu alguma contribuição para sua formação como artista? Em que sentido?             

A contribuição foi mais do que se pode imaginar a não separar a arte da ética e a estética da poética. Sua obra toda, literária e estética, tinha isso com uma clareza além da subjetividade por que ele era isso em mente e alma numa coerência quase absoluta. 

Nos 100 anos de Estrigas, o que você apontaria como a principal herança do artista para a cultura cearense? 

Estrigas era o que dizia e o que pintava. Pura poesia de vigor e rigor na palavra e na pintura. É isso que vai ser sempre eterno em nós de sua presença inesquecível. Sua principal herança foi ter feito a cabeça de gerações que passaram pelo seu estado de sítio espiritual sempre com gestos e palavras sinceras e verdadeiras. Coisas a ficarem raras nestes tempos frágeis e mentirosos. O hoje não cabe mais uma pessoa imensa e generosa como ele e nem como Nice. A minha saudade da presença deles só não é maior e mais sentida porque os tenho incrustados no meu ser em reverência, amor e gratidão. 

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"Pura poesia de vigor e rigor na palavra e na pintura", é como Bené Fonteles define Estrigas Foto: Natasha Mota