Adriana Calcanhotto aporta em Fortaleza neste domingo (15) com show “Margem”, em novo mergulho

Show da cantora e compositora acontece neste domingo (15), no Teatro RioMar; em entrevista exclusiva ao Verso, recorda fatos e reflete sobre questões íntimas e globais

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Calcanhotto no azul de "Margem": tom inspirado em Yves Klein garante inspirados mergulhos Foto: Murilo Alvesso

Quando Adriana Calcanhotto mudou de endereço no Rio de Janeiro – saiu do Jardim Botânico para residir em Ipanema, onde outrora já havia morado – sentiu que alguma coisa havia mudado na relação com o mar. “Voltar para perto dele mexeu comigo de uma maneira que talvez eu não esperava”, recorda, em tom de confissão.

Era o fim da década de 1990. À época, “Enguiço”, “Senhas” e “A Fábrica do Poema” já haviam apresentado ao País a faceta múltipla da cantora e compositora, com versos que convocavam ao impulso, ao rompante, ou ao dar-se conta do estar pela metade.

Tão logo a percepção de que o oceano adquiriu nova textura, veio a inspiração para “Maritmo”, quarto álbum de estúdio. Ali, sem saber, a artista iniciava o que se tornaria a trilogia do mar. E se o primeiro disco, em 1998, não havia pretensão de dar start à sequência, “Maré”, lançado dez anos depois, já chegava com esse desejo. Era um trabalho que abraçava possibilidades muito baseadas no ritmo que vai e volta. Feito maré.

“O que me aconteceu é que, logo no lançamento desse último disco, me veio o nome ‘Margem’. E aí ficou bem difícil de pensar que não teria o terceiro álbum porque, tendo um nome, pelo menos para mim, fica muito mais complicado abandonar um projeto, achar que não existe”.

Assim, junto à nova safra de canções, avizinhou-se também a turnê homônima, que aporta neste domingo (15) em Fortaleza para apresentar o mais recente mergulho criativo de Calcanhotto. A única apresentação acontece às 20h, no Teatro RioMar.

Absoluto

O retorno à Capital acontece após menos de um ano. Em outubro de 2018, “A Mulher do Pau-Brasil” trazia uma Adriana em tons de vermelho, deitada em rede, presentificando a identidade tupiniquim. Dessa vez, é o azul puro de Yves Klein (1928-1962) que ocupa o palco, e a cantora se deleita totalmente nele.

A estética cenográfica, por sua vez, herda de Hélio Eichbauer – responsável pelo cenário dos trabalhos marítimos anteriores – e o repertório passeia pelas músicas dos três discos. 

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Para Adriana Calcanhotto, o mar é absoluto e evoca novas percepções Foto: Léo Aversa

“O oceano é absoluto, então fonte inesgotável de inspiração. Tudo que se fez, todos os autores que falaram sobre o mar, os poetas, a literatura de mar, como A Odisseia, Os Lusíadas e Moby Dick, tudo isso faz parte do meu apreço. Cada uma dessas coisas puxa uma outra, e essa ideia do oceano como metáfora da condição humana é algo com a qual eu lido hoje em dia”, sublinha.

É o que justifica o teor também social de “Margem”, para além da entrega do eu que Calcanhotto faz. Logo na capa do disco é possível perceber essa inclinação. Em fotografia de Murilo Alvesso, a cantora aparece mergulhada num mar de garrafas plásticas, crítica frontal à violência cometida contra as águas

“Costumo dizer que é uma capa sem metáfora. Essa é a condição em que nos encontramos com relação aos oceanos hoje. Um reflexo de como nós, humanos, entendemos o que vem a ser lixo, descarte. E, o pior de tudo: revela que enxergamos os mares como um lixão”, dispara.

Ao mesmo tempo, é perceptível que as linhas de união com Portugal nesse novo trabalho permanecem. Feito a turnê passada, nesta Adriana também se apega à paixão que desenvolveu pela cultura lusa, sobretudo a produção literária dedicada a retratar o mar. E, igualmente, tem data definida para terminar, levando em conta que precisa retornar a Europa para lecionar na Universidade de Coimbra.

“É interessante porque é uma janela no tempo dentro do ano, em que dá para viajar, ir pro Brasil, rever as pessoas, cidades, enfim, é algo que sempre gostei de fazer, e estava sentindo muita falta”.

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Da esquerda para a direita, Rafael Rocha, Bruno Di Lullo e Bem Gil acompanham Adriana nos shows Foto: Léo Aversa

Parceria

No palco, a superação dessa saudade é dividida com Rafael Rocha, Bruno Di Lullo e Bem Gil. Os músicos repetem a parceria com Calcanhotto no tablado, que comemora: “É uma banda que não é de brincadeira. Um trio maravilhoso. São músicos porque querem ser músicos. Eles não saem para trabalhar; a gente sai pra tocar, pra ser feliz, e já volta”.

Energia fluida, compartilhada com o público por meio de faixas que enaltecem a brasilidade e convocam a audiência a se jogar nas ondas. A faixa-título é exemplo disso. Esvaziando-se (“menos meu nome, menos meu reino, menos meu ego”), Adriana propõe reformular-se em ritmo de samba-Bossa Nova. Em “Ilhéus”, soa aura intimista. Chama para o contemplar. Já “Dessa Vez”, “Tua” e “Era pra Ser” assumem tom confessional, silencioso. “Ogunté”, por sua vez, é estrondo de experimentação.

Vale ainda um adendo: a união de Adriana com a banda, grande trunfo para que o repertório ganhe vida, faz de “Margem” um trabalho que chega a um lugar específico. Abraça também tom político.

“O fato de o show existir, de nós estarmos na estrada cantando essas canções, dizendo esses poemas, essa é a luta. Porque o desejo é de que não haja mais arte, cultura, não se relativize mais nada. Minha ambição para o Brasil não é essa. É criar gerações de seres humanos completos, elevados e pensantes”, arremata.

Uma nação com sede de novidade, no fluxo do mosaico de mergulhos que está se propondo a fazer.

Serviço
Show “Margem”, de Adriana Calcanhotto
Neste domingo (15), às 20h, no Teatro RioMar Fortaleza (Rua Lauro Nogueira, 1.500, piso L3 do Shopping RioMar Fortaleza – Papicu). Ingressos à venda no site uhuu.com e bilheteria do Teatro RioMar. Contato: (85) 3066-2000

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Margem
Adriana Calcanhotto
Sony Music
2019, 9 faixas
R$ 34, 90