"O momento é de grito": os desafios de fazer teatro em Fortaleza e na Região Metropolitana

Série de dificuldades marca vivências de grupos teatrais cearenses, que resistem para emplacar novas atividades e manter-se dignamente

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Maíra Abreu e Jhonatan Santos, do Cena Fórum: "O momento é de grito" Foto: Natinho Rodrigues

Não precisou de muitos dias. Já no segundo do corrente ano, a sociedade e a classe artística assistiram, abaladas, à extinção do Ministério da Cultura, reflexo imediato e esmagador do retrocesso que paira sobre a principal administração pública do País. Um desmonte autoritário, incapaz de compreender a demanda da enorme diversidade na área e cujos tentáculos alcançam todos os níveis e linguagens das artes Brasil afora.

Não à toa, a mensagem de quem está sendo diretamente afetado por essa atmosfera é clara: "O que nos resta é resistir, tanto com protestos quanto com nossos espetáculos", considera Luis Carlos Shinoda, ator fundador do Cangaias Coletivo Teatral, de Maracanaú. O profissional assegura que o município onde realizam as atividades idealizadas não possui editais na área cultural. "Como manter um grupo atuante há quase dez anos na cidade? É um enfrentamento cotidiano e de resistência".

A fala do artista, convocando à resistência diante do caos, alinha-se à expressiva quantidade de iniciativas capitaneadas por integrantes das Artes Cênicas, segmento em que o Cangaias atua, de modo a driblar as problemáticas desenhadas no horizonte de trabalho de tantos e tantas que têm, no ofício subjetivo, a mola propulsora para criar.

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Gabi Gomes e Luis Carlos Shinoda na sede do Cangaias Coletivo Teatral Foto: Helene Santos

Com vistas a conhecer tais ações e compreender a situação das trupes, principalmente no que toca à condução de atividades e os ecos de políticas insatisfatórias para a manutenção de sedes e projetos, o Verso entrevistou quatro grupos cearenses, da Capital e Região Metropolitana. Eles dimensionam, sob o recorte do Teatro, questões importantes para situarmos a peleja que é fazer arte no País.

Luis Carlos conta que Maracanaú tem histórico de luta por parte de artistas/fazedores, mas também um hiato e o cansaço da classe "de dar murro em ponta de faca".

"Na cidade, há eventos pontuais, mas não dão conta de um projeto de teatro de grupo, que atua profissionalmente e diariamente para se manter. Hoje, criou potência um movimento de vários artistas de diversas linguagens para fortalecer o debate entre sociedade (classe artística) e os órgãos da gestão pública", dimensiona.

O artista ainda menciona que desde o começo do ano estão com o Fórum Permanente de Cultura, e uma das primeiras ações foi uma reunião com o secretário para efetivar o Conselho Municipal de Cultura, que estava desarticulado.

A série de dificuldades, contudo, não os impediu de se afirmar enquanto artistas. Há pouco mais de um mês, eles mantêm - junto ao Coletivo Paralelo e com o apoio da Terra da Luz, empresa de turismo pedagógico - o Apê Cultural, sede-oásis para pensar e executar a arte em âmbito local. E também lançaram, na última semana, a ação "Teatro na segunda", de forma a intercambiar os diferentes grupos cênicos de Maracanaú.

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O Cangaias Coletivo Teatral mantém o Apê Cultural de forma independente, promovendo a arte cênica em Maracanaú Foto: Helene Santos

Mesmo com a boa estrutura do Apê, a falta de iniciativas em cultura desarticula todo um pensamento de gestão do espaço a médio e longo prazo. "Para nós, como grupo da região metropolitana, o problema se agrava, pois para conseguir aprovar um projeto, como um de manutenção de grupo, por exemplo, precisamos concorrer em nível estadual, em que metade das vagas são destinadas a todos os municípios do Estado", sublinha Gabi Gomes, produtora do grupo.

"Assim, enquanto coletivo, estamos cada vez mais nos arriscando em projetos independentes. Além da inauguração do Apê, mantemos a formação em teatro na Capital, com o Curso Livre de Práticas Teatrais. Ele está no terceiro ano e vem como desejo do grupo de investir em esferas de pesquisa e ensinamento", diz Gabi.

Investigação

Atuante na cena teatral do município de Cascavel, a 65 quilômetros da Capital, o grupo Corno de Rinoceronte contribui para endossar o debate e tem, na fala do diretor Edicleison Freitas, a percepção da lacuna nas Artes Cênicas observada nacional e localmente. Na visão dele, falta um projeto de arte orientado por dinâmicas das realizações contemporâneas.

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Edicleison Freitas e a vontade de perpetuar a arte teatral em Cascavel Foto: Kid Júnior

"Se, por um lado, a arte - sobretudo o amplo segmento relativo à cena, ao palco e ao corpo - dirige ao imediato do público uma qualidade incomum de elaboração de presença, por outro lado, embora considerando essa finalidade necessariamente pública e cultural, os mercados fizeram assimilar a educação como necessidade dos governos, ajustada como um instrumento de reflexo produtivo. Entretanto, suspeitam como perigosa uma arte que evoque a potência de um corpo alerta", afirma.

Sublinhando que em Cascavel "não há uma liderança constituída das artes", o artista se questiona:

"O que seria um diálogo qualificado com os setores locais da indústria criativa se os gestores e seus técnicos não sabem da arte além dos produtos massificados? O financiamento da arte representa apenas um campo genérico de fomento e serviços?".

Sala de ensaio para desenvolvimento e apresentação de espetáculos, orçamento de produção, elenco dignamente remunerado e direitos trabalhistas contratuais, além de oportunidades de formação continuada e, sobretudo nessa época, liberdade de criação, são alguns dos pontos reivindicados pela turma, igualmente engajada em tecer pontes para prosseguir atuando.

"O espaço da nossa criação é o território imaginal da cidade. Um tipo de ambiência também étnica e mítica, social e política, antropológica e ancestral. Nosso trabalho nasceu como uma prática ampliada de educação e teatro sobre os diferentes registros de temporalidade da cidade. Hoje, aumentamos nossos parceiros, além dos ambientes formais das escolas, visando propostas de ateliês em comunidades, a exemplo de um projeto performático e expositivo que iremos realizar, no segundo semestre, no distrito de Guanacés, ainda no âmbito do corpo e memória", adianta.

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Direitos e liberdade de criação são alguns pontos reivindicados pelo Grupo Corno de Rinoceronte, em Cascavel Foto: Kid Júnior

Enfrentamento

Transpondo barreiras, a situação descrita por Edicleison, Luis Carlos e Gabi também atinge grupos de Caucaia, feito o Cena Fórum. "O momento é de grito. Não dá para ficar fechando os olhos para o desmonte de tantas lutas. Muitas pessoas resistiram bastante para que tivéssemos liberdade de fala, de apresentar espetáculo na rua, numa praça, por exemplo", diz a dramaturga, diretora e atriz Maíra Abreu Rocha, cofundadora do coletivo.

O grupo enfrenta desafios referentes a questões de espaço desde 2006, quando decidiram seguir profissionalmente. "Já estivemos em ambientes de igreja, mas não deu certo porque começaram a cobrar peças para festejos; ficamos no espaço de um outro grupo do bairro, mas que, por falta de verba, teve que fechar as portas; atualmente estamos ocupando um local de uma escola do bairro que não nos cobra moeda de troca, porém às vezes acontecem conflitos por desrespeito ao nosso trabalho".

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Enfrentando dificuldades de espaço desde 2006, quando iniciou, o Grupo Cena Fórum segue resistindo Foto: Natinho Rodrigues

A atriz e diretora destaca que uma forma de ir na contramão do opressivo panorama é realizar atividades com potência para continuar. Por esse motivo, em paralelo ao Cena Fórum, os participantes fundaram, com outros artistas de Caucaia, o Coletivo Urbano Cultural. A proposta é ocupar territórios públicos, dialogar sobre o pertencimento a esses locais e divulgar o ofício cênico.

"A estratégia é bolar uma rede de artistas que não têm espaço de divulgação do que realizam. Promovemos saraus itinerantes, convocando pessoas que tenham interesse em formar rede conosco, dialogando também com a comunidade local e discutindo sobre a ausência de políticas públicas", salienta Maíra.

Desconstrução

E então chegamos a Fortaleza. A atriz e integrante do Coletivo Os Pícaros Incorrigíveis, Paula Yemanjá, é enfática: "Um dos principais problemas que a gente passa hoje é a desconstrução das políticas públicas. A nível federal, tivemos o encerramento de atividades, que acabou com o Minc; na Capital, penso muito na descontinuidade dessas políticas voltadas à cultura".

De forma ampla, ela - que hoje, junto a cinco coletivos e dois artistas independentes, integra a Pirarucu - Espaço de Invenção, uma das mais recentes casas dedicadas às Artes Cênicas na cidade - explica que, no Ceará, existe a prática das Leis de Incentivo à Cultura, da política de editais, mas, infelizmente, não há constância na condução desses processos. "Essa prática acaba criando uma oscilação em que fica muito difícil pra gente, artista, garantir projetos a longo prazo, como é o caso da manutenção de uma casa, de um espaço artístico".

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Paula Yemanjá e Juliana Tavares apostam em diálogos para avançar Foto: Helene Santos

Tais questões se traduzem nas condições do prédio da Pirarucu, com notáveis problemas estruturais, reflexo imediato do desafio de cada coletivo conseguir construir uma estabilidade financeira para, juntos, fortalecer a casa.

"As políticas públicas interferem diretamente nisso. A falta de editais ou o atraso no pagamento deles - isso pode parecer simples, mas é um problema crônico que existe no nosso Estado - acaba afetando as finanças de cada grupo e artista e, consequentemente, nas finanças do local", avalia Paula.

"Por isso, a gente vê, nos últimos anos, a efervescência de espaços e, ao mesmo tempo, muitos se encerrando. Isso porque nossas fontes de recursos não cumprem os prazos como deve ser. Acabamos trabalhando, então, dentro de uma situação de precariedade. Para nós, que atuamos no autoral, com algo que não está ligado a grandes apelos, se não tivermos uma política pública que fortaleça essas iniciativas e o mercado de trabalho, acabamos minando", ressalta.

A artista Juliana Tavares, também residente na sede, completa o panorama de olhares ao bradar que os atravessamentos artísticos são muitos e pedem particular atenção. "Encaro a arte de uma forma geral, não apenas do teatro em si. E acredito que ela atravessa o campo da educação, o campo criativo e outros tantos. Então, acho que, com esse não-incentivo, muitos espaços não recebem o devido apoio", opina.

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A Pirarucu - Espaço de Invenção congrega coletivos e artistas em prol do espírito colaborativo no ofício teatral em Fortaleza Foto: Helene Santos

"Infelizmente, ainda há um olhar direcionado para alguns espaços ainda muito centralizados, como se existisse apenas um determinado teatro que apresenta todos os espetáculos da cidade. O fato de a gente estar administrando uma casa, um espaço alternativo, digamos assim, é uma forma de o público compreender que há mais uma possibilidade de apresentação. E isso requer um trabalho bastante coletivo, com funcionários do teatro, técnicos, a manutenção da casa, a parte criativa? Num nível geral, está uma situação bem delicada e a gente encontra alternativas pra continuar existindo, porque a coisa se torna muito pior se a gente não fizer".

Encaminhamentos

Sugerimos que cada grupo mencionado elaborasse uma pergunta direcionada à Secretaria da Cultura do Estado (Secult-Ceará) sobre as questões levantadas. A pasta, no entanto, preferiu responder cada uma por meio de uma nota geral. No texto, informa "que apoia e incentiva a atividade dos coletivos por meio de editais, que contemplam formação, circulação, difusão artística e fortalecem a docência no campo das artes".

Além de citar editais como o Escolas Livres da Cultura, o Circula Ceará e Artista, Presente!, entre outros, a Secretaria ainda menciona que "os equipamentos culturais da Secult possuem diferentes modalidades de participação dos grupos teatrais, tais como os editais de Ocupação do TJA (Theatro José de Alencar) e do Teatro Carlos Câmara, e o TAC do Centro Dragão do Mar, em que estes coletivos e artistas podem se inscrever tanto para a composição das programações, como para a gestão de atividades (oficinas, palestras, cursos)".

A comunicação com os agrupamentos também foi mencionada na nota emitida. "A Secult mantém um diálogo constante com as entidades, grupos e coletivos de teatros, através do Sistema Estadual de Teatro, do Fórum de Teatros e do Conselho Estadual de Cultura, por meio de seus representantes", menciona o texto, citando como exemplo a participação, no último dia 8 de maio, na reunião da 109ª edição do Fórum Cearense de Teatro, na sede da Pirarucu - Espaço de Invenção, localizada no Centro de Fortaleza.

No tocante à formação, circulação e fomento da cultura, a pasta afirma ter sido lançados em maio os Editais Circula Ceará e o Artista, Presente!, com inscrições abertas. Este último, que ocorre em parceria com a Secretaria da Educação do Estado, "visa ainda promover a formação nas escolas da Rede Estadual de Educação, fortalecer a docência nas artes e o campo artístico cultural".

Futuramente, no segundo semestre deste ano, o planejamento da Secult é lançar o Edital Ceará de Incentivo às Artes e o Programa de Formação em Artes Cênicas, "fortalecendo a Rede de Escolas atualmente existentes nos equipamentos culturais". Também adianta estar em curso com o "planejamento de um programa de apoio a atividades culturais nos municípios do Estado, em parceria com as prefeituras, de modo a descentralizar as ações e fomentar atividades no interior do Ceará".