Na Bienal do Livro, montagem une música e literatura a partir da obra de Ronaldo Correia de Brito

Parceria entre o escritor e o Grupo Estesia resulta num espetáculo mágico de imersão por letras, paisagens e sonoridades

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Em "Estesia", luzes, músicas e palavras narradas combinam-se de modo a atravessar diferentes geografias artísticas e sentimentais, num enlace poderoso e hipnótico Foto: Thiago Guillen

É da natureza de Ronaldo Correia de Brito o gosto pelo inquietar-se. E se, a priori, o semblante pacato que carrega consigo não transparece a borbulha interna, as muitas atividades reunidas no currículo deixam entrever a pluralidade de suas ações. É médico, dramaturgo e escritor. Entre essas três áreas, faz mais: injeta em cada ato um desejo de mudança, a busca por novidade.

O trabalho que vai apresentar com o grupo ativista-musical recifense Estesia, às 19h, nesta quinta-feira (22), dentro da programação da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, no Centro de Eventos, tem esse teor. Trata-se de um espetáculo cuja ideia é criar uma experiência musical e visual única, que provoque o público.

Intitulada "Estesia e Ronaldo Correia de Brito: A Cidade e os Livros", a montagem foi planejada especialmente para o evento e sela a parceria firmada entre os envolvidos.

"Tomás Brandão e Carlos Filho trabalham comigo em 'Baile do Menino Deus'. Sempre tive parceiros músicos, desde o início de minha carreira como artista, por conta dos meus espetáculos", explica Ronaldo.

"Investigo uma maneira de tornar o texto mais eficiente na conversa com o público. Cansei do modelo tradicional de mesa e resolvi mudá-lo, pelo menos em minhas apresentações. Miguel, Tomás e Carlos toparam a provocação e começamos esse formato de leitura com música", completa o cearense, natural de Saboeiro e radicado em Pernambuco, onde esteve pela primeira vez no ano de 1969.

O autor é uma das vozes mais intensas da literatura brasileira contemporânea, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e tendo lançado, no ano passado, "Dora sem véu", destaque entre a crítica. Agora, com a nova empreitada, lança-se mais uma vez à seara cênica como forma de potencializar olhares sobre as artes - neste caso, munindo-se de música e literatura.

"Estou habituado a esses desafios. Sou muito inquieto, nunca estou satisfeito com o lugar que ocupo e invento maneiras novas de me expressar. Provoco novos artistas, trabalho com parceiros bem jovens. Eles me renovam e inquietam mais. Minha formação dentro dos brinquedos populares do Cariri cearense me transformaram num criador que só imagina espetáculos com música. Meus textos possuem ritmo. Eu os leio em voz alta como se lesse uma partitura", detalha Brito.

Parcerias

À frente das batidas eletrônicas e da guitarra, Tomás Brandão conta que "Estesia" é apresentado desde 2017, sempre interagindo com interlocutores de diversas linguagens artísticas.

Segundo ele, "nesses três anos de existência, já nos apresentamos com artistas como Bongar, Dielson Pessoa, Sofia Freire, Amaro Freitas, Luna Vitrolira, Grupo Magiluth, Irandhir Santos e Barro. Essas participações são formas de a gente se manter sempre repensando o espetáculo e estudando novas possibilidades de interação artística para a cena".

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O aspecto da luz é fartamente trabalhado, resultando numa experiência única de imersão. A narrativa sonora da montagem é composta de canções e leitura em voz alta de textos Foto: Marina Sobral

Na noite de amanhã, então, a montagem possui a espinha dorsal do repertório do grupo Estesia, mas, desta vez, dialoga com contos e trechos de romances escritos por Ronaldo Correia de Brito, ao passo que conversa com a temática da Bienal cearense.

"Entendemos que essas conexões poéticas são construídas pelo olhar de Ronaldo e sua capacidade de contar histórias incríveis. Ao mesmo tempo, ele consegue selecionar textos que constroem uma narrativa muito interessante sobre a relação de cidades tão diferentes com a literatura e a poesia. Essas construções são reforçadas com a arquitetura cênica que fazemos com som e luz dentro do espetáculo".

Travessias

Os atravessamentos, de fato, são plurais, abarcando cenários urbanos como Buenos Aires, Crato, Berkeley, Saboeiro e Recife. Cada itinerário reflete as travessias profissionais e humanas de Ronaldo, e devem chegar à plateia com ares maiores.

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Ronaldo Correia de Brito: inquietação artística para novos mergulhos  Foto: Saulo Roberto

Conforme o próprio autor, isso é justificado: houve uma descoberta da parte dele de uma trajetória possível pelas cidades mais incompatíveis que se possa imaginar.

"Fizemos esse trajeto como escritor e músicos. É incrível a unidade que alcançamos, partindo do lirismo e chegando a um realismo trágico", analisa.

Da parte de Tomás, o apreço pela criação conjunta também é forte. "Nosso trabalho envolveu a construção de uma narrativa sonora composta de canções, sonoridades eletrônicas e a voz de Ronaldo lendo ao vivo os textos. Isto tudo é pensado e planejado para ser encenado com luz no ambiente em que será realizada a apresentação".

Com ele, o cantor e compositor Carlos Filho, filho de cearense e outro integrante do Estesia (junto a Cleison Ramos e Miguel Mendes), destaca: "Nosso grupo faz política desde sempre. Nossas ações não são apenas performances, mas também intervenções políticas. O Brasil se tornou essencialmente urbano e o livro é o maior signo dessa resistência contra esse obscurantismo anti-conhecimento que nosso País vivencia", posiciona-se.

Por sua vez, Ronaldo Correia - que, pela Bienal, ontem (20), participou de encontro na Casa do Estudante e ainda deve integrar atividade num assentamento em Itapipoca e mesa intitulada "Os loucos da minha cidade", juntamente a Maria Helena Cardoso (CE) e Dina Salústio (Cabo Verde) - brada:

"Acho que os livros é que edificam as cidades, e esse é o tema do meu trabalho com o Estesia".

Serviço
Espetáculo Estesia e Ronaldo Correia de Brito: A Cidade e os Livros
Nesta quinta-feira (22), às 19h, no Centro de Eventos do Ceará (Av. Washington Soares, 999 - Edson Queiroz). Entrada gratuita.