Mostra individual do artista paraense Ismael Nery congrega obras do modernismo brasileiro

Em cartaz na Galeria Casa D'Alva, exposição apresenta 30 obras com predominância de recorte surrealista

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Obra "Princípio de Divisão", nanquim sobre papel (1931)

A figura de Ismael Nery (1900-1934) aparece tímida entre os principais integrantes do movimento modernista brasileiro. A constatação vale apenas levando-se em conta o público em geral. Nos meios artísticos especializados, o paraense é uma sumidade, reconhecido pelo talento precoce entre os pincéis e representações do que criou, sob a tutela da criatividade e acurada percepção.

"Era um artista único, que se fechava nele próprio, e trazia uma influência europeia, que não dialogava com a brasilidade do modernismo contemporâneo a ele. Talvez por isso tenha morrido, de certa forma, no ostracismo", analisa o artista plástico cearense José Guedes, um dos curadores da primeira exposição individual de Ismael no Ceará - com ele, divide o trabalho o crítico de arte, pintor, escultor e pesquisador Roberto Galvão.

A mostra, em cartaz na Galeria Casa D'Alva, fica disponível para visitação até o dia 6 de abril, representando uma oportunidade singular de atravessamento pelo complexo e insurgente legado do profícuo profissional que, conforme os curadores, jamais se interessou por temas que remetessem a assuntos tipicamente nacionais, como cenas de morro e Carnaval. "Considerava esses temas folclóricos, regionalistas e limitados. Para ele, a modernidade era internacional".

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Obra sem título, com técnica envolvendo grafite sobre papel

No total, são 30 obras que caminham exatamente na linha desse vasto repertório simbólico, contemplando algumas das principais expressões trazidas à tona por ele.

Ora justapostos, ora em composições isoladas, retratos, cenas intimistas do cotidiano e nus como que transbordam das telas a partir de um recorte surrealista, escola de maior influência sobre o nortista. Mas não apenas: métodos equivalentes às soluções cubistas também dão o tom das obras, sinalizando desta forma a dimensão das diferentes estéticas por ele trabalhadas.

De acordo com José Guedes, as criações refletem um ofício calcado na densidade.

"Ao mesmo tempo, é tudo muito poético, reflexo de uma pessoa que tem uma compreensão ampla da condição humana e de sua própria condição, como alguém que foi acometido por tuberculose e morreu cedo. Essas questões, de uma certa forma, ele colocou nos trabalhos, sobretudo na última fase".

Reconhecimento

Falecido aos 33 anos, Ismael Nery, natural de Belém do Pará, obteve maior reconhecimento após sua morte, quando suas telas compuseram a Sala Especial na VIII Bienal de São Paulo, na década de 1960 - anos depois, integraria também a décima edição do evento. Até essa época, elas permaneceram ignoradas por público e crítica, em desnível com o saber gerado a partir de inspiradas incursões na Europa.

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"Os Princípios", da década de 1920, nanquim sobre papel

No Velho Mundo, Nery aportou na França, matriculando-se na Academie Julian, em Paris, onde estudou desenho de figura humana, com modelo vivo - não à toa, rostos e corpos alardeiam a maior parte dos quadros. Percorreu também outros países, em franco contato com artistas do modernismo e das vanguardas europeias.

Retornando ao Brasil, ficou marcado como controverso e polêmico, elementos-chave para a compreender seu legado.

"Priorizamos, assim, as obras que são mais representativas do trabalho dele, esclarecedoras de várias questões que foram abordadas pelo artista em sua curta existência. A distribuição na galeria é feita de uma maneira muito limpa, para que as pessoas possam penetrar em cada tela sem a interferência de outros. Cada obra tem uma história, foi tudo montado de forma que fosse plenamente apreciado", explica.

O curador menciona ainda que todas as telas estão à venda no espaço e são parte do acervo de diversos colecionadores, do Ceará e do Brasil.

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"Bailarina", óleo sobre papel, é criação datada do ano de 1917

"A exposição foi formatada para a Casa D'Alva. A partir do encerramento, ela não vai mais para lugar nenhum, já que as obras vão se dispersar. A oportunidade de se ver esse conjunto, então, é agora".

A conversa com José Guedes finaliza com o profissional tecendo considerações sobre o quanto o trabalho de Ismael Nery ainda poderia render para a arte a nível global. "Parece que ele sentia que a vida ia fugir muito rapidamente e ele intensificou esses anos de vida e nos deixou obras magníficas, nos deixou grandes e belos momentos de emoção".

Serviço
Exposição “Ismael Nery”
Em cartaz até 6 de abril na Galeria Casa D’Alva (Rua João Brígido, 934, Aldeota). Visitação: de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h, e, aos sábados, das 10h às 14h. Gratuito. Contato: (85) 3252-6948