Livros vivos: conheça as histórias de "pessoas-obras" da Bienal literária do Ceará

Quantas páginas pode uma vida escrever? Em quantos capítulos ela estará dividida? Diante de um evento literário com 15 espaços temáticos, 150 expositores e 300 convidados, selecionamos algumas histórias contadas por "livros vivos"

indígenas
Lideranças indígenas rezaram, dançaram e cantaram pela cura do Brasil durante a XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará FOTO: HELENE SANTOS

Como introduzir a história de uma vida ou de várias? Eu bem poderia começar dizendo onde seu Gilberto Calungueiro nasceu, perto de que lagoa a Cacique Pequena reza aos encantados, de quem a dramista Vicentina é irmã ou qual foi a escola do vaqueiro aboiador Pedro Coelho. A minha leitura sobre a vida de cada um deles e de tantos outros que passaram pelo palco "Terreiro em Sonho" da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, porém, não é nada linear. Então, vou fazer isso em círculos.

É verdade que, feito o contato inicial com uma obra literária, muitas pessoas já nos ganham desde a capa. Foi assim quando vi o vestido de seda verde-limão da Mestra Ana Maria e todos os colares, pulseiras e anéis que a coroavam. Ao me aproximar para um abraço, senti o cheirinho doce de um livro que aposta no aspecto sensorial para conquistar seu leitor. E não erra. Assim também me ganharam pajés e caciques com seus cocares e maracás; vaqueiros de gibão e chapéu de couro; e um bonequeiro com suas calungas em punho.

dramista ana maria
A indumentária da mestra dramista Ana Maria fala por ela antes da mesma cantar e dançar qualquer drama FOTO: FABIANE DE PAULA

As histórias de alguns destes eu também já tinha acessado muito antes de encontrá-los no Centro de Eventos, por meio de "orelhas", "prefácios" ou textos de "contracapa". É o caso da Cacique Pequena, a quem fui apresentada em junho de 2014 pela minha amiga Bárbara, responsável por um livro-reportagem sobre as lideranças femininas da comunidade Jenipapo-Kanindé. E ainda de Gilberto Calungueiro, com o qual passei a interagir desde que o colega Jadiel resolveu registrar os causos dele, por volta de 2016.

bonequeiro
Gilberto Calungueiro confunde a própria vida com a do boneco Baltazar (à esquerda), que construiu há mais de seis décadas. Sua força está no riso FOTO: FABIANE DE PAULA

Houve, no entanto, alguns "personagens" menos literais. Vicentina entra nessa lista. Desprovida de qualquer indumentária ou recomendação, somente após as primeiras palavras lidas no livro-vida dela, consegui me entregar. "Sou de Quixeré", disse. Eu, que só não nasci lá por um acaso, mas tenho toda a família paterna e materna filiada a essa região do Vale do Jaguaribe, logo me interessei.

A origem comum deu mais fôlego para folhear as outras páginas. Descobri que ela também era da zona rural e, melhor do que isso, sua narrativa de juventude cruzava com a de minha mãe. As duas haviam brincado de drama durante toda a infância e seu canto arrastado jamais seria esquecido pela minha genitora, em especial nos versos "se tem pai, mãe, irmã, não conheço/só conheço a risca do mar/e à noite saio a praia vêm/os bichos feroz me cercar".

Expressões

E por falar em voz, é preciso que se diga: saber de uma história em aboios deve ser tão dinâmico quanto vivê-la. "Ôôô vida de gado...Ôôi/Quero dizer aboiando qualé minha profissão/é de vestir perneira, chapéu e usar o meu gibão/pra pegar o gado brabo nas catigas do sertão/Quero dizer com atenção/que vim do lugar deserto/pegando gado no mato/mas da repórter eu tô perto/vou deixar essa gravação no Diário do Nordeste/ Ôôi", cantou um vaqueiro e poeta de Acopiara, numa introdução de si. "Sou Pedro Coelho, herói da classe vaqueira/minha escola foi cocheira e meu professor foi o gado", emendaria mais tarde.

VAQUEIRO
O olhar de Pedro Coelho para o Terreiro é o mesmo que ele lança ao sertão quando solta um aboio FOTO: HELENE SANTOS

Dessa mesma prateleira, livros como o de Mestra Dina também cantam. "Ôoooô/ Eu sou filha do Nordeste, do sertão de Canindé, vaqueira desde menina nesta profissão de fé/ (...) Eu só quero bem a gado porque gado me quer bem/Quando eu chamo o gado uiva/quando eu grito o gado vem/Eu não troco amor de gado pelo amor de ninguém/Ôooi".

Há ainda obras mais tímidas, feito Otacílio Bonfim, um professor vaqueiro de Crateús, que aposta na declamação poética aos 97 anos. "O matuto na cidade anda sempre assustado. Fala pouco com medo de falar errado". Com um livro físico de sua autoria agarrado ao braço, ele sabe que tem muito a dizer e está sempre atento a quem quer lhe ouvir.

Talvez por isso, quando algumas lideranças indígenas como os pajés Raimunda Tapeba e Luis Caboclo, e os caciques Sotero, João Venâncio e Pequena foram convidados a fazer uma dança de reza e cura pelo Brasil, soasse tão alto um "Ôi desenrola essas correntes, deixa os índios trabalhar". Como uma biblioteca, onde a natureza é maior enciclopédia, eles sabem qual página abrir para sarar as feridas da inquisição.

INDÍGENAS
Pajé Raimunda Tapeba e Cacique Pequena reforçam o protagonismo feminino nas comunidades indígenas cearenses FOTO: HELENE SANTOS

Da reza, aliás, muito perto está o riso. E é tirando da gente altas gargalhadas que Gilberto Calungueiro mostra que a vida pode até ser um drama, mas quando estamos protagonizando a cena, podemos dar a ela qualquer desfecho. O roteiro no improviso dá essa liberdade e ai de quem agir ao contrário!

Interpretações

Quem primeiro me provocou a olhar para os mestres que passaram pelo "Terreiro em Sonho" da Bienal como um livro vivo foi a contadora e pedagoga amazonense Regina Alfaia. Mediadora de uma das mesas do espaço, ela disse que cada convidado falava como uma raiz se aprofundando. E estava certa. Noutro dia, o escritor Daniel Munduruku afirmaria algo semelhante.

Cada pessoa é um livro vivo, mas é sempre importante a gente lembrar que os livros são escritos de acordo também com o pertencimento das pessoas, do lugar onde elas estão", diria o escritor.

Ailton Krenak também lançaria a própria interpretação sobre esse fato, ao lembrar que somos muito sugeridos a pensar que literatura é só o que está escrito, impresso, ordenado num texto, mas algumas pessoas entendem que todo texto é literatura, inclusive os textos da oralidade. "Na realidade, quem fala está fazendo literatura. Tanto que a maioria dos meus textos que viraram livro, eu não escrevi, eu falei", disse o autor indígena.

krenak
O escritor indígena Ailton Krenak defende que "na realidade, quem fala está fazendo literatura". FOTO: HELENE SANTOS

Munduruku soma a isso uma certeza.

O livro físico é produto de uma cultura e há outras culturas que não precisam dele. Precisam de um livro pautado na oralidade, na fala, na sacralidade da própria existência, nas várias crenças possíveis de olhar pra esse mundo e perceber que ele tem muitas interpretações possíveis, como tem que ser um bom livro".

A quantidade de páginas de cada história aqui contada e interpretada, por assim dizer, pouco importa. É da natureza sentimental e também humana que se obtém um enredo sempre inconcluso.

Programação deste domingo (25):

Espaço Oralidade, ancestralidades e mestres da cultura

  • Oficina BRINCANDO DE COCO E MANEIRO PAU - Com Mestra Zulene (CE). De 10h às 12h. Público indicado: 08 a 13 anos. Local: Sala O Sal da Terra - Mezanino 2

 

  • Contação de Histórias SABENÇAS DE CÁ E DE LÁ: CÍRCULO DE NARRADORES DE HISTÓRIAS DE BOCA - Com Anilsa Lima Almeida (Guiné-Bissau), Gleiciane Oliveira (CE), Soraya Falcão (CE), Bete Pacheco (CE), Bette Gomes (CE), Gorette Costa (CE), Raimundo Moreira (CE), Renê Rodrigues (CE), Mônica Rodrigues (CE), Patrícia Matos (CE), Paula Yemanjá (CE) e Zé Bocca (SP). De 10h às 14h. Local: Sala Aves de Arribação - Mezanino 2

 

  • Mesa O CORPO É UM TEXTO, A VIDA ALEGRIA: O CORPO, ARTE, ALEGRIA E MEMÓRIAS. Com Mestra Zulene Galdino - Pastoril, Dança do Coco e Maneiros Pau (CE), Mestre Palhaço Pimenta - Arte Circense (CE) e Mestre Chico Bento Calungueiro - Teatro de Bonecos (CE). Mediação: Dane de Jade (CE) e Cláudio Ivo (CE). De 13h30 às 16h. Local: Terreiro Em Sonho - Térreo

 

  • Lançamento MEMÓRIAS DE MEUS CARVOEIROS e NO REINO DA CARAPINHA (livro). Com Fausto Antônio (BA). 14h. Local: Estande da Oralidade e Ancestralidade Negra

 

Serviço

XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará
Até hoje (25), das 10h às 22h, no Centro de Eventos do Ceará (Av. Washington Soares, 999 - Edson Queiroz). Gratuito. Programação completa em bienaldolivro.cultura.ce.gov.br/programacao/