Livro de poemas escritos por Candido Portinari ganha lançamento na Universidade de Fortaleza

Cerca de 190 criações integram "Poemas de Portinari", iluminando faceta pouco conhecida do pintor

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"Retirantes", de Candido Portinari (1955): junto à obra, os versos "Os retirantes vêm vindo com trouxas e embrulhos/ Vêm das terras secas e escuras; pedregulhos/ Doloridos como fagulhas de carvão aceso"

Candido Portinari foi muito mais amigo dos poetas do que dos outros artistas. Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) que o diga. Certa vez afirmou - em entrevista ao Programa de História Oral, realizado pelo Projeto Candido Portinari - o fato de o pintor ter para com eles "uma consideração muito especial", motivo pelo qual retratou, em cor, os rostos de vários trovadores da literatura brasileira. A lista vai de Murilo Mendes a Mario de Andrade, atestando a máxima do autor de Itabira (MG), contemporâneo do artista de Brodowski (SP).

"Esse depoimento de Drummond deixa clara a ligação de Portinari com a poesia. Mas foi somente no fim da vida que ele começou ativamente a escrever poemas. Pintava o dia inteiro, enquanto houvesse luz natural, e depois se recolhia para criar os versos", conta João Candido Portinari, professor e filho único do renomado pintor.

"Então seus amigos, principalmente Antônio Callado - escritor e jornalista que foi o biógrafo dele -, auxiliado por Manuel Bandeira, fizeram uma seleção dessa caudalosa produção poética do artista plástico".

O trabalho resultou no livro "Poemas de Portinari", publicado em 1964 pela Livraria José Olympio Editora e, anos depois, numa segunda edição, ambas rapidamente esgotadas.

Agora, os apreciadores do gênio criativo de Candido têm nova oportunidade de conferir as criações sob sua assinatura na obra de mesmo nome, lançada nesta segunda-feira (11), às 19h, no Auditório da Biblioteca da Universidade de Fortaleza.

O evento conta com palestra conduzida por João, cujo tema, "Candido Portinari: Um Homem, Um tempo, Uma Nação", recupera não apenas a trajetória do pintor, como também imerge na abrangência de iniciativas que visam difundir um legado de total entrega à arte. A atividade é aberta ao público.

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"Menino com passarinho e arapuca", de Candido Portinari (1959)

Com os pés e os lábios rachados/ Pelo frio do inverno, saíamos/ Ao encontro dos companheiros,/ Mesmo quando a chuva monótona/ Invernava

Diálogos

As ações, juntamente à vivência com crianças da Escola de Aplicação Yolanda Queiroz e um bate-papo realizado amanhã (12), acontecem em comemoração aos 40 anos do Projeto Portinari, instituição sediada no Rio de Janeiro, cujo foco é irradiar a relevância do nome de quem inspirou a criação da casa.

Nesse processo, "Poemas de Portinari" ganha destaque. A obra chega à recente edição organizada por importantes nomes do estudo da literatura, contando com as pinturas de Candido pela primeira vez .

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Filho único do pintor, João Candido Portinari viaja Brasil e mundo afora dimensionando o trabalho do pai Foto: Davi Maia

"À época da primeira edição, Portinari não quis que o livro fosse ilustrado. Não desejava que o poeta menor que julgava ser se beneficiasse da fama do pintor. Nota-se aqui a integridade do homem", situa João.

"Neste momento, nós temos, então, a felicidade de trazer o livro com algumas das obras dele retratadas junto aos poemas. Tudo feito com muita paixão a partir do patrocínio da Funarte".

Cerca de 190 poemas integram o exemplar, dividido em quatro partes, iluminando uma faceta pouco conhecida do artista.

João garante, contudo, que a obra poética de Portinari reflete muito a famosa produção pictórica, em que se encontram enraizados um profundo humanismo e senso de ética em cenas que promovem paz, espírito comunitário e o respeito ao sagrado e à vida.

"Ao mesmo tempo que ele é o pintor mais trágico de nosso tempo - retratando denúncias contra injustiças sociais e violências - pode ser de uma doçura e ternura extremas quando pinta crianças, velhos, animais. Na poesia dele, há a mesma coisa".

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"Flores", de Candido Portinari (1944)

As roseiras estão em flor?/ Quanta rosa nas/ Roseiras lá de casa! Todos vinham pedir rosas/ Por mais que levassem, mais havia

Indagado sobre a criação preferida do pai, João cita "Ensaio de oração para minha Denise", último poema do livro. Foi gestado por Portinari à neta que mais amou no aniversário de um ano e meio dela.

"Quando Denise nasceu, ele estava num momento de muita melancolia. E então se iluminou, renasceu com essa netinha. Isso me toca por vários motivos", confessa, não sem antes recordar outro verso que Drummond dedicou ao amigo.

Em belíssimo enlace de palavras, afirmou o que poderíamos também considerar: Candido "entrelaça, como num verso, o que é humano ao que é pintura".

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"Moça", de Candido Portinari (1940)

Distante o mais longe na memória/ A casa velha, o coqueiro solitário./ No amanhecer do orvalho/ Moravam os donos do gado.

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Poemas de Portinari
Organização: Letícia Ferro, Patrícia Porto e Suely Avellar
Projeto Portinati/Funarte
2019, 192 páginas
R$ 60

Serviço
"Candido Portinari: Um Homem, um Tempo, Uma Nação"
Palestra com João Candido Portinari e lançamento do livro "Poemas de Portinari". Hoje (11), às 19h, no Auditório da Biblioteca da Universidade de Fortaleza (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). Gratuito.

Bate-papo com João Candido Portinari
Terça-feira (12), às 17h, no Espaço Cultural Unifor, exposição Da Terra Brasilis à Aldeia Global (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). Gratuito.