Livro com jogos infantis de 20 países africanos oportuniza reflexões sobre o brincar

A partir da obra, o Verso entrevistou africanos residentes no Ceará e profissionais que trabalham diretamente com jogos para aprofundar olhares acerca da temática

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A brincadeira "Nngapi?" é natural da Tanzânia e é caracterizada por utilizar pedrinhas Ilustração de Marilia Pirillo

Tinha corrida e uns saltos desengonçados, Evy Amado lembra bem. Era momento de bolinha de gude, cabra-cega, ringue, jogo do anel. "Exceto essas, muitas brincadeiras não têm um nome em português. Mas estar com minhas amigas e amigos com certeza era a melhor parte de tudo isso", comemora. "Podíamos ter nossas diferenças ou até alguns conflitos típicos de crianças, mas, na hora de brincar, estávamos todos lá. Não tínhamos preocupações; só queríamos ser felizes e ganhar o jogo".

Natural de Cabo Verde, Evy reside há seis anos em Fortaleza e é toda entusiasmo quando rememora a infância, vivenciada em solo africano. Estudante do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), ela explica que, no caso da nação a qual veio, há muita influência brasileira no ato do brincar. Tanto que algumas atividades são originárias daqui.

"Em vários países africanos, como o acesso às novas tecnologias ainda é muito limitado, os jogos tradicionais são muito presentes. No brincar, você aprende a perder, a trabalhar em equipe, ter empatia, persistência, a dividir. As práticas ajudam a criança a se desenvolver, suas capacidades e sociabilidades", considera, dimensionando o divertido ato.

Milton Cassul Miranda também destaca a relevância do passatempo entre a garotada. Ele, que veio de Angola, na costa ocidental africana, e cursa Ciência da Computação na UFC, afirma que "a infância é uma fase da vida de que muitos se recordam com bastante saudade. As brincadeiras são, sem dúvida, algo que marca as pessoas positivamente, e uma boa parte de nós, angolanos, nos divertimos e criamos memórias com jogos como garrafinha, saltar a corda e mete e tira".

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O jogo "Osani", da República Democrática do Congo, tem diálogo com a natureza Ilustração de Marilia Pirillo

Para além desse mero devanear em grupo, brincar, na ótica dele, tem o mesmo significado daquele alimentado por Evy: é ferramenta por excelência para que os miúdos desenvolvam qualidades como responsabilidade, equilíbrio e criatividade. É ato oportuno para o crescimento. "Fundamentalmente, é a forma mais simples de as crianças serem elas mesmas".

Deixar com que os relatos se esparramem por estas páginas é justificado. Entram em sintonia com o conteúdo de um dos mais recentes lançamentos da Editora Melhoramentos, o livro "Kakopi, kakopi! - Brincando e jogando com as crianças de vinte países africanos". Escrita por Rogério Andrade Barbosa e ilustrada por Marilia Pirillo, a obra apresenta variadas maneiras de se divertir dos pequenos do outro lado do globo. Tudo contornado pelo fofo recorte dos desenhos e uma atenta investigação lúdica.

"Meus livros de temática africana são baseados nas pesquisas e viagens que tenho feito ao longo de muitos anos pelo continente", explica Rogério. "Nas brincadeiras de lá, os jogos nas aldeias afastadas das cidades têm relação com o ambiente, os costumes tradicionais e a fauna onde vivem".

De fato, na totalidade das atividades listadas no exemplar há a magia do pé roçando o chão, o evocar bonito dos animais das savanas, e o sorriso onipresente de pessoas em minúsculo tamanho.

Diversidade

Se, a priori, as feições da obra parecem remeter apenas ao imaginário infantil, ao passar das páginas logo se vê a potência do trabalho, feito para circular entre todas e todos, independentemente da idade. Tudo começa com um diálogo entre as crianças quenianas Korir e Chentai. Ambas estão fazendo um trabalho de mapeamento das brincadeiras do continente em que vivem, porta de entrada para o desbravamento de uma diversidade de passatempos.

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"Kakopi, Kakopi", a brincadeira que intitula o livro, vem da Uganda e pode ser traduzido como "As Pernas da Galinha" Ilustração de Marilia Pirillo

Nesse movimento, o autor - especialista em cultura africana e ex-voluntário das Nações Unidas na Guiné-Bissau - é hábil em costurar as regras de cada jogo com informações simples, porém ricas em contexto. Resultado: passa longe do lugar comum. Em "Nngapi?", por exemplo, ele começa escrevendo que "jogos com pedrinhas são muito populares na Tanzânia". Em outra brincadeira, "Tum Tum!", sublinha que ela é empregada por professoras nos jardins de infância no Togo para testar, de modo divertido, a capacidade auditiva dos estudantes.

"As inúmeras brincadeiras de rodas lembram bem as do Brasil. Acredito que tanto as crianças, quanto os pais e professores, irão se divertir bastante com os jogos", opina, destacando que gosta de todas as atividades listadas, mas Osani, praticada por pequenos de um povo pigmeu, "é de uma complexidade e beleza plástica impressionante".

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"Chakyti Cha" é de Gana e tem semelhança com jogos de cachorro e hiena Ilustração de Marilia Pirillo

No momento, Rogério está preparando outro livro com essa temática, ainda em gestação. Desta vez, a parceria será com um autor indígena. Por enquanto, colhe os frutos do lançamento atual e deixa entrever outro componente importante quando dessa esfera de trabalho.

"Apesar da distância geográfica, o Brasil e a África têm muitas coisas em comum, frutos dos nossos laços históricos. Ao atravessar o continente, constatei que criança é criança em qualquer lugar do mundo. Todas gostam de correr, brincar de roda e de se divertirem".

Ressonâncias

Voltemos para cá ainda com os pés fincados nessa atmosfera. Em Fortaleza, Marcos Teodorico Pinheiro é professor da UFC e coordena o projeto Brincarmóvel, além de estar à frente do Centro de Estudo sobre Ludicidade e Lazer. O ônibus da ação começou as atividades em 2015 e tem como tripé lazer, criança e brincar, pesquisando, preservando e analisando o conhecimento transdisciplinar no referente eixo.

"O Brincarmóvel é um ambiente especial para viver a cultura lúdica nas dimensões social, educativa, motriz, artística e cultural. Para nós, o brincar é um patrimônio da humanidade, uma herança cultural que pertence a todos", situa Marcos. "Além disso, o espaço da unidade móvel assume um caráter múltiplo, pois permite experimentar, reconstruir e viver a cultura infantil".

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Ônibus do projeto Brincarmóvel pode ser encontrado na reitoria da Universidade Federal do Ceará Foto: Divulgação

Como muitas crianças cearenses, a vivência lúdica do profissional foi forjada no sertão; no caso dele, no município de Senador Pompeu. Conforme lembra, foi uma infância cheia de encantamento, amores, amizade e conflitos. Cultura dinâmica e desafiadora que despertou o gosto e a curiosidade pelo conhecimento.

"Teoricamente, os brinquedos não são necessários. A imaginação da criança pode substituí-los em seus jogos de fantasia. Entretanto, talvez porque a imaginação humana é tão extensa e complexa, que os pequenos procuram pontos de referência tangíveis para partir mais levemente para as brincadeiras", dimensiona Marcos.

"Nenhuma criança brinca espontaneamente só para passar o tempo. Mesmo quando entra numa brincadeira, em parte para preencher momentos vazios, sua escolha é motivada por processos íntimos, desejos, problemas ou conflitos, ansiedades. O que está acontecendo com a mente do indivíduo determina suas atividades lúdicas. O brincar é sua linguagem secreta, que devemos respeitar mesmo se não a entendemos", complementa, abrangendo os diferentes aspectos da prática.

Reflexão

No mesmo espaço da universidade, a Brinquedoteca, idealizada pela professora Isabel Ciasca, da Faculdade de Educação - com o apoio de outras profissionais, a exemplo de Bernadete Porto, Cristina Façanha e Jakeline Andrade - foi concebida para demarcar a importância do brincar para a criança.

"Não há infância sem o brincar, não deve haver educação da criança sem uma reflexão sobre isso. Se a prática está voltada à cultura e à realidade que cerca a pessoa, então será permeada pela era digital. Os adultos estão envoltos, os pequenos também estarão", avalia Jakeline.

"As brincadeiras tradicionais são passadas culturalmente; se não houver um resgate nesse sentido, muito se perde. Vejo isso acontecendo em eventos pontuais e nos lugares em que as crianças têm liberdade e espaço para brincar. A escola também tem seu papel".

A pedagoga - que aprendeu a lidar com o outro a partir da vivência na rua, "se não queria brincar conforme as regras, o jeito era ficar só olhando ou voltar para casa" - defende que é justamente pelo divertir-se que os pimpolhos se propõem a correr, pular, seguir orientações e se submeter à companhia dos outros.

"É por meio desse ato que eles apreendem o mundo, a cultura; portanto, o brincar livre e 'desinteressado' da criança é 'só brincar' na ótica do adulto; para quem tem menor tamanho, é uma atividade séria", avalia.

Professora da Área de Psicologia da Educação, Jakeline afirma ainda que, na Faculdade de Educação, há outros grupos de pesquisa sobre o assunto. "Temos disciplinas que abordam a ludicidade, como a 'Ludopedagogia', e outras sobre a cultura africana, como a 'História dos Afrodescendentes no Brasil' e a 'Cosmovisão Africana e Cultura dos Afrodescendentes no Brasil', em que o resgate das brincadeiras e cantigas com matrizes africanas são abordados".

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Kakopi, kakopi! - brincando e jogando com as crianças de 20 países africanos 
Rogério Andrade Barbosa | Ilustrações de Marilia Pirillo
Melhoramentos 
2019, 48 páginas 
R$ 43, 90 

>> Saiba Mais: Pedagoginga

Publicado pela Editora Aeroplano em 2013, "Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem", de autoria de Allan da Rosa - editor, educador e escritor paulistano - expande a dinâmica do divertir-se ao abordar o tema do título a partir do entrosamento com ele em duas esferas urgentes: a implementação consistente do ensino de História e de cultura de matriz-afro e o sonho de um momento de educação popular autônoma na periferia de São Paulo, no começo do século XXI. Nesse movimento, o autor apresenta nova proposta pedagógica, envolvendo a autonomia dos participantes e o compromisso com a cultura afro-brasileira. São relatos e reflexões para focar a vivência negra de ontem no hoje e para o futuro.