Liderança feminina e plural em Caucaia, cidade com o maior número de quilombos do Ceará

Cristina - Abertura
Foto: Helene Santos

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Cristina Quilombola, 39 anos, em Caetanos de Capuan, atua em nome da coletividade e identidade de seu povo. No sangue, traz referências ancestrais e femininas que ajudaram a formá-la como liderança local e representante estadual e nacional do movimento

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uem abre o portão da Associação dos Remanescentes do Quilombo dos Caetanos, em Capuan, Caucaia, é Zuila Ferreira de Andrade, 81 anos. O espaço, outrora uma casa de taipa, hoje é edificado em tijolos e se divide em três ambientes: dois lares ao fundo, pertencentes à família da anfitriã; e na frente, uma espécie de “sede administrativa” da comunidade, onde Isabel Cristina Silva de Sousa, mais conhecida como Cristina Quilombola, trabalha ao telefone.

São muitas as demandas de quem, aos 39 anos, preside uma associação, e é membro da Comissão Estadual dos Quilombos Rurais do Ceará (Cerquice) e da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq). Só no município de Caucaia, ela se articula com outros dez quilombos, dos quais a maior parte também é liderada por mulheres. Com o celular, a agenda e uma caneta nas mãos, Cristina se programa para atender à reportagem, certa de que, entre uma pergunta e outra, conciliaria as atividades programadas para o dia.

Enquanto Zuila se afasta, a líder reforça a necessidade da presença dela, e, aos poucos, surgem outras mulheres. Irmã Toinha, mãe de Cristina e prima da anfitriã, serve um caldo de legumes com ovos feito na cozinha; Edilene organiza por ali bolsas e bonecas artesanais produzidas na comunidade; e sua filha Evellyn Bianca, de apenas sete anos, fica entretida com nosso gravador.

“Bianca tem uns traços indígenas”, comentamos. Atenta, a garota nos responde: “E eu sou. Indígena e quilombola”.

A consciência e a afirmação de si, ainda na infância, é algo que nem todas ali reunidas tiveram. “Essa tem é jeito pra falar”, elogia Cristina, sem esconder um pouco da própria timidez ao sentar-se conosco à mesa. Há alguns anos, ela mesma não cogitaria o futuro na militância.

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Comunidade Quilombola de Caetanos, em Capuan, Caucaia (fotos: Helene Santos)
Comunidade Quilombola de Caetanos, em Capuan, Caucaia (fotos: Helene Santos)
Comunidade Quilombola de Caetanos, em Capuan, Caucaia (fotos: Helene Santos)

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“Não queria nem saber. Eu via elas aqui no movimento, a tia Cineuda, a Maria dos Anjos, a Zuila, mas sempre passava. Aí teve um momento que foi justamente quando veio o Ponto de Cultura pra cá (em 2013) e precisava de mais pessoas pra desenvolver as ações. A gente teve uma grande conversa, elas me chamaram, me convidaram pra fazer essa articulação, participar das reuniões da Secretaria de Cultura do Estado, entender o projeto, foi aí onde eu me engajei”, recorda. E Zuila arremata: “E depois que você entra, você não quer deixar. Tem isso, viu? Taí ela, não para. Tem dia que o almoço dela é café”. 

No segundo mandato como presidente da Associação, que termina em 2022, Cristina reforça: “Já que é pra gente entrar, vamos entrar, vamos engajar, vamos fazer de uma forma bem diferente”, observa, com a segurança que exigiu mergulho profundo na própria ancestralidade, além de respeito imenso ao trabalho daquelas que a antecederam.

Reconhecimento

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Um ano antes desse engajamento de Cristina, suas matriarcas conquistaram a certificação de comunidade quilombola pela Fundação Cultural Palmares. Francisca Costa Matias, a “Tia Cineuda” e Maria dos Anjos, com a contribuição de Zuila, atuaram como se fossem “antropólogas” da comunidade. Nas reuniões, elas sempre se perguntavam: Por que de um lado da BR só vivem negros e do outro moram os índios tapeba?

O questionamento induziu a um levantamento histórico, de análise dos pertences do povo, e também de suas memórias. “A partir do momento em que a gente teve um decreto do Governo Federal, em 2003, sobre as comunidades quilombolas, tivemos mais um estímulo, de querer buscar realmente: será que nós somos ou não? Será que nós pertencemos a esses grupos étnicos? Vamos saber de onde vêm nossas raízes? Onde nós estamos? Quem realmente começou esse processo?”, reproduz Cristina, num discurso que ela já ouviu das seis gerações anteriores.

O nome em comum com uma localidade a 95 km dali, Conceição dos Caetanos, no município de Tururu, direcionou às matriarcas. “Com o histórico da comunidade, a gente teve o entendimento que, em 1915, saiu o primeiro casal de Conceição dos Caetanos, fugindo da seca e da escravidão, andando a pé. Naquela época, já existiam a discriminação e o preconceito. E eles não conseguiram passar por uma cancela que dava acesso a Soure, atual Caucaia. Então se alojaram aqui na zona rural, fizeram um barracão e foram construindo sua família”, contextualiza Cristina. O casal era Florêncio Caetano da Costa e Cândida Gomes da Costa, avós de Zuila.

Mais de um século se passou desde essa migração. Uma fotografia, em preto e branco de 1915, comprova a chegada dos primeiros “Caetanos” a Capuan. Na região, eles trabalhavam tapando os buracos da estrada de barro, cuidando das casas das “famílias importantes” ou lavando roupa em troca de 1kg de alimento e até mesmo de água para beber.

“A partir dessa construção, nós conquistamos os elementos para poder hoje estarmos aqui firmados, autorreconhecidos”, pontua Cristina.

Transformações

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Entender-se quilombola, e não “carambola”, como insultavam alguns, foi passo fundamental para a garantia de políticas públicas específicas, a exemplo de projetos de incentivo à cultura, à educação, à saúde e à economia. “Mas o que tá aqui não foi dado por Governo, é uma luta da gente, uma conquista. Tá lá, tem as políticas, tem tudo, mas se você não estiver organizado, com as documentações acessíveis pra que se tenha um projeto dentro da comunidade, ele não chega. É um processo muito desgastante, mas com o decorrer do tempo, a gente consegue, e é gratificante”, observa Cristina.

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Irmã Toinha, da Comunidade Quilombola de Caetanos, em Caucaia Foto: Helene Santos

Recém-chegada de Brasília, onde participou de uma agenda nacional do movimento para discutir algumas burocracias vinculadas à demarcação do território quilombola, a presidente sabe que não faz nada se estiver sozinha. “Hoje, na associação, liderança se diz Cristina, mas não é só Cristina, sou eu e todos da comunidade, porque se não fossem eles, não existia a associação, não existiam os projetos, não existia nada. O que faz acontecer é a coletividade, a humanidade, a perseverança e, principalmente, a gente estar se conhecendo”.

"É nesse pertencimento afroquilombola, descendentes de vários outros, que a gente se transforma numa mulher aguerrida; num quilombo de todos e para todos", diz Cristina Quilombola.
 

As conquistas, porém, não ocultam as dificuldades. As principais demandas dos Caetanos de Capuan estão vinculadas à educação escolar quilombola, com a construção de creches; ao saneamento básico e à saúde, com a ampliação de postos; além da segurança e dos projetos para a juventude, que sofre diariamente com abordagem policial agressiva, presenciada pela própria equipe de reportagem. Até mesmo horários de atividades culturais foram alterados após ameaça de facções ao local.

Por tudo isso e todos, fala Cristina. “Mas não posso dizer que a mulher hoje em dia, como militante, não passa por um sofrimento, por um racismo, por ser liderança, por querer ser mais além? A gente tem um olhar e jeito femininos, com o conceito de que sempre haverá obstáculo no meio do caminho, mas que a gente supera de uma forma que não possa se voltar contra nós”.

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Cristina Quilombola atua diretamente na Associação dos Remanescentes do Quilombo dos Caetanos Foto: Helene Santos

Entre uma viagem e outra de trabalho, Cristina ainda costuma ouvir “como foi o passeio?”. E a resposta só vem com as conquistas coletivas. Não tem salário para ocupar o cargo de presidente; vive com as doações da própria comunidade; trancou a faculdade de Pedagogia na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) para dar conta da missão; mantém um relacionamento de dez anos com Cherlene Rocha da Silva e, apesar de não ter filhos, olha para as crianças e jovens do quilombo da mesma forma que suas “mães” olharam para ela um dia.

"O que eu quero é me formar e trazer essa formação pra dentro da comunidade. E é nessa caminhada, nessa resistência, nesse pertencimento afroquilombola, descendentes de vários outros que a gente se transforma numa mulher aguerrida; num quilombo de todos e para todos”.