Fotógrafa investiga as raízes familiares no sertão cearense

Com "Firmamento", exposição gratuita em cartaz na Casa Patuá, Anie Barreto retrata a perspectiva silenciosa da avó

Escrito por Antonio Laudenir , laudenir.oliveira@svm.com.br
Legenda: Feridas abertas sobre territórios, agricultura familiar e memória afetiva
Foto: Anie Barreto

A ausência do diálogo entre parentes de distintas gerações é realidade comum a inúmeras famílias brasileiras. Pouca atenção à escuta e distanciamento deixam pelo caminho as relações mais íntimas e afetuosas. Quantas vezes perdemos a chance de perguntar a avós paternos ou maternos as origens e histórias conhecidas por eles e elas? Os efeitos negativos podem ser irrecuperáveis.

Perdemos em memória e autoconhecimento quando a troca de informações dentro de casa arranha apenas a superfície. O tema interessa a Anie Barreto. Nos últimos meses, a busca e a reflexão em torno das raízes familiares passaram a orbitar o cotidiano da fotógrafa. Devassar o passado e compreender o presente resulta do reencontro com uma mulher valiosa. Dos muitos desafios até hoje na profissão, a cearense tinha diante das lentes a avó, Ilda Barreto.

Legenda: Região na qual a avó mora conta com energia, sinal telefônico e até Wi-fi, mas falta água
Foto: Anie Barreto

Registrar o universo de alguém tão próximo devolveu a Anie o caminho para adentrar a própria história. O fruto dessa sensível entrega refletiu o ensaio "Firmamento", em cartaz até 29 de dezembro na Casa Patuá. A artista abre feridas sobre etnias, territórios cearenses, direito à agricultura familiar e recordação afetiva. O foco é a vivência particular de duas gerações de mulheres e de muitas outras. O acesso é gratuito.

A neta voltou às terras de Ibicuitinga (190 km distante da Capital) para refazer percursos e domar a lembrança da avó. "Tínhamos uma relação bem esquisita. Passava as férias lá e não conversava muito sobre questões de identidade. Da última vez, falamos de origem e por que ela sabe trançar palha, fazer cerâmica. Isso veio da bisavó dela que era índia", descreve Anie.

Legenda: Os detalhes da casa permitem à fotógrafa recuperar traços da própria ancestralidade
Foto: Anie Barreto

A imersão permitiu à fotógrafa perceber a solidão de muitas outras idosas da região. São viúvas de agricultores humildes. Ilda também viveu e sobreviveu graças à agricultura familiar. O falecido companheiro, avô de Anie, cultivava feijão, mandioca e castanhas de caju para Fortaleza.

"Depois que ele morreu, isso deixou de acontecer. Meu tio ainda tenta, mas não é a mesma proporção. Ela fica lá sozinha nessa casa, com os pensamentos dela, sem contato com outras coisas. Pensei em fazer o trabalho não só por conta dessa solidão, mas também da minha lacuna em torno de identidade e por eu ser uma pessoa ausente", divide.

Legenda: Após anos sem botar os pés na casa da avó, Anie percebeu mudanças pontuais
Foto: Anie Barreto

Perceber os aspectos de uma realidade ancestral tão ligada à terra foi fundamental à serie de registros fotográficos. "Firmamento" se funda no desejo de amenizar o esquecimento. De rememorar cada traço, cor e geografias latentes do sertão do Ceará. Ao costurar as vivências da octogenária, Anie permitiu-se denunciar o apagamento de quem é, foi e será: as mãos que plantam, colhem e resistem diante da escassez de água.

Ancestralidade

Para a artista, contar a história da avó, e a partir dela, de muitas outras, ratificou a necessidade de um olhar mediado pela empatia e identificação. A solidão de Ilda também é da neta. "Reneguei por anos esse lugar, a importância dele, a força do trabalho de muitas mulheres que vivem no Sertão e fizeram parte do crescimento de outros tantos territórios. Mesmo sem querer, vovó acaba me fazendo pensar sobre ancestralidade, pertencimento e todas as lacunas deixadas em relação ao que meu corpo e genética afirmam. Ela tem quase 86 anos e morro de medo de tudo o que ela representa se perca", desabafa.

Legenda: "Firmamento" se funda no desejo de rememorar cada traço, cor e territórios do sertão cearense
Foto: Anie Barreto

O trabalho de Anie invade brechas da residência e domina detalhes únicos da intimidade de Ilda. As simbologias dessa memória estão nas paredes, no tilintar das panelas e até na religião fervorosa. Fitar o semblante da idosa é solidário convite a pensarmos em nossas figuras maternas. Durante o reencontro, até mesmo o silêncio dos cenários foi capaz de informar. A experiência, reforça a autora, permitiu entender lacunas e questionar escolhas tomadas até então.

Legenda: Aos 85 anos, Ilda reflete a luta de muitas gerações de mulheres do sertão cearense
Foto: Anie Barreto

Fotógrafa autodidata, Anie profissionalizou-se em 2017 e dedica-se a investigar as linguagens e possibilidades híbridas na feitura da imagem. Cultura, moda, comportamento guiaram as lentes da realizadora. Ela também assinou a exposição "Polifonia de Ogum", realizada no Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ), no último mês de novembro. Fotografar as raízes foi "doloroso, porém libertador", finaliza Anie Barreto.

Serviço
Exposição "Firmamento". 
De Anie Barreto. Em cartaz até o dia 29, na Casa Patuá (Rua João Cordeiro, 625, Praia de Iracema). Gratuito. Visitas: quintas e sextas (18h à 0h), sábados (12h às 16h e 19h à 0h) e domingos (12h às 17h).

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